28/12/2009

O aborto de Deus, de Alain Decaux

Lisboa: Quetzal, 2004, pp. 308, 10,00€

A genialidade desta vida de São Paulo é a sua contemporaneidade. É como ler um guia turístico, em que o Autor nos faz percorrer os lugares significativos da vida do protagonista.

Decaux delicia-nos com os seus conhecimentos da geografia e orografia, da Grécia e a Roma clássicas, da mitologia, das etimologias e das línguas, das fontes bíblicas e da teologia, dos estudos e biografias mais modernos deste santo cristão.

A história desta conversão ainda hoje não pode deixar indiferente: o fariseu Saulo, judeu observante e perseguidor dos primeiros discípulos de Cristo, torna-se em pouco tempo Paulo, o mais audaz desses discípulos. Esta biografia narra estas mudanças duma forma acessível a todos, com profundidade mas sem ser complicada ou excessivamente erudita.

24/12/2009

As mais belas histórias portuguesas de Natal, escolhidas por Vasco Graça Moura

Lisboa: Quetzal, 2008 (várias datas), pp. 461, 17,75€

Nem todas as histórias deste volume fazem referência explícita ao Natal, e nem todas elas são aquilo que se espera tradicionalmente deste subgénero literário. Poucas delas falam de Deus e ainda menos serão consideradas cristãs pelos leitores católicos. Algumas são pessimistas, outras tristonhas ou até trágicas.

Trata-se duma coleccão de histórias de variadas dimensões e temáticas, que divergem enormemente, sobre tudo em virtude dos seus Autores: Jorge de Sena, Miguel Torga, José Régio, Alexandre O'Neill e Fernando Namora são alguns dos nomes mais conhecidos que fazem perceber esta diversidade. Mas há também outros nomes mais discretos que destacam com escritas belas e temáticas profundas.

O melhor: o famoso Conto exemplar dos Três Reis Magos de Sophia de Mello Breyner. O pior: a «História de um muro branco e a neve preta» de um tal José Saramago que, como a própria neve preta faz intuir, não faz sentido.

Com prudência, uma boa leitura natalícia.

14/12/2009

Versos, de Amália Rodrigues

Lisboa: Cotovia, 2005 (1997), pp. 125, 12,00€

«O que distingue os poetas / os faz distintos da gente / é dizer em duas letras / o que toda a gente sente». Será que Amália se pode incluir na definição de «poeta» que ela própria dá nesta quadra?

A colecção de Versos que apresentamos quer responder «sim» a esta pergunta, colocando nestas breves páginas (com muito espaço branco, mas pouco bem apresentadas) uma colecção de poemas gravados, poemas não gravados, poemas cantados e umas cartas em verso.

A simplicidade do estilo não poderia ser maior, facto que pode ser considerado virtude ou limite. Os amantes da poesia clássica encontrarão quadras tão simples que parecem obra duma criança, e hão-de concluir que musicadas podem ter um seu valor, mas que em papel não prestam. Pelo contrário, aqueles que estiverem pouco familiarizados com a experimentação literária e com os recursos estilísticos requintados encontrarão uns textos de fácil leitura, lineares, compreensíveis à primeira vista.

Ambos tipos de leitores, porém, deverão reconhecer que o conteúdo destes versos, por muito simples e essencial que seja, brilha pela sua força e universalidade. Aqueles sentimentos de amor, tristeza, paixão e ternura pertencem-nos a todos. A fim de contas, dizem, em duas letras, «o que toda a gente sente».

06/12/2009

The Narnia Chronicles – The lion, the witch and the wardrobe (As crónicas de Nárnia – O leão, a feiticeira e o guarda-roupa), de C. S. Lewis

Lisboa: Presença, 2003 (1950), pp. 133, 8,00€

Há livros que alcançam sucesso em determinados momentos da história e depois ficam esquecidos. Esperemos que não seja este o caso das Crónicas de Nárnia, que alcançaram grande fama graças a dois filmes nos últimos anos. São sete os volumes dessa série, e só dois deles tiveram realização cinematográfica. Mas nos tempos que correm, nem sequer a imagem e as grandes campanhas publicitárias chegam para manter a tensão comercial duma obra em sete volumes. [Contudo, há ali um mágico a tentar, mas não se sabe se irá conseguir...]

De facto, estas Crónicas, que têm pouco de tal coisa, já cumpriram mais de 50 anos e ainda hoje continuam a ter o mesmo efeito que quando foram publicadas pela primeira vez. São uma espécie de contos para crianças e adultos, que escancaram as portas da nossa imaginação para alcançarmos mundos irreais, mas muito realistas.

O leão, a feiticeira e o guarda-roupa é o primeiro dos volumes da série, embora o Autor tenha colocado uma outra história antes, a modo de introdução. Por isso, hoje vemo-lo como segundo volume nas edições que as apresentam separadamente.

A travês de quatro crianças, com as suas virtudes e defeitos, somos introduzidos neste mundo de animais fantâsticos, relações de amizade e ódio, ajuda e divisão, que nos fazem entrar numa visão positiva da realidade e dos desígnios que nela existem. Nem mito nem alegoria, Lewis coloca-se na linha de Tolkien num uso inovador da literatura de fantasia como meio de alcançar valores eternos. Fantástico.

30/11/2009

Sonetos (Sonnets), de William Shakespeare

Lisboa: Bertrand, 2002 (1609), Edição de Vasco Graça Moura, pp. 342, 25,00€

Numa velha antologia encontro recolhidos os sonetos números 12, 18, 23, 29,30, 60, 65, 66, 73 e 116. Pode ser boa ideia começar por estes, para descobrir neles algumas das chaves da poética do maior génio da literatura inglesa.

Já se afirmou que a forma poética do Soneto é a mais perfeita, com os seus 14 versos. Salvo raríssimas excepções, Shakespeare utiliza sempre uma estrutura de três grupos de quatro versos, mais um dístico final; isto é, um esquema 4-4-4-2. Suficientemente simétrico e rimado, perfeitamente silábico no clássico ritmo do pentâmetro jâmbico inglês, e ao mesmo tempo com um certo desequilíbrio entre as três proposições e a conclusão final, constituem um perfeito exercício de maestria linguística, uma perfeita imperfeição.

A tradução, certamente livre, que Vasco Graça Moura oferece nesta edição, propõe diferentes tentativas de transposição destas formas para português, algumas mais felizes do que outras. Para o leitor pouco familiarizado com o inglês da época isabelina, porém, são uma boa maneira de aproximação a formas poéticas complexas, longínquas da banalidade contemporânea.

Muitas interpretações se deram destes Sonetos, e provavelmente aí reside a sua grandeza, como no teatro deste mesmo Autor. A amizade, o amor, a traição, a vida e a morte, a misteriosa «mulher oscura», fazem desta leitura um feliz reecontro com um génio universal e eterno.

15/11/2009

Orgulho e preconceito (Pride and prejudice), de Jane Austen

Lisboa: Europa-América, 1989 (1813), pp. 284, 7,00€

«É uma verdade mundialmente conhecida que um homem solteiro que tem uma grande fortuna necessita encontrar uma esposa».

Hertfordshire, início do século XIX. Três histórias de amor misturam-se numa desajeitada família da burguesia inglesa. Lydia, Jane e Elisabeth, três das cinco irmãs da família Bennet, terão o seu happy ending só depois de longas e intricadas peripécias.

Mas esta novela, um clássico adaptado ao cinema em várias ocasiões (nem sempre com o mesmo sucesso), é mais do que esta história de alguns dramas sentimentais. Para além de descrever com ironia e simpatia a sua época, a Autora encontra neste emaranhado de relações problemas, dificuldades e alegrias com que todo ser humano se depara ao longo da vida. A começar pelos temas que o próprio título enuncia: o orgulho e o preconceito.

Jane Austen tem um lugar de prestígio na história da literatura, e não é imerecido. Foi muito inovadora neste tratamento dos argumentos e temas do romance, e a sua escrita é tão leve que não damos pelas horas a passar.

11/11/2009

O pórtico do mistério da segunda virtude, de Charles Péguy

Lisboa: Grifo, 1998 (1912), pp. 205, 14,00€

A França de São Martinho sempre deu à Igreja Católica grandes homens de cultura, e um deles é, sem dúvida, Charles Péguy. No princípio do século XX, este poeta e crítico torna-se uma das figuras mais relevantes do panorama cultural da França republicana e laica, com um percurso pessoal que vai do socialismo até a uma conversão pouco pacífica, sempre à margem do establishment da elite intelectual católica.

Péguy escreve teatro e poesia, para além de ensaios. Mas a barreira do género literário é complexa neste autor: o seu teatro é irrepresentável (com crianças a ressuscitar em cena ou passarinhos que voam a chilrar, por exemplo), e a sua poesia é sempre dramática, é sempre um diálogo.

Neste monólogo teatral chamado «O pórtico do mistério da segunda virtude» (que se refere à esperança), as vozes poéticas meditam sobre esta virtude, com imagens que impressionam o leitor: a esperança tem o rosto dum pai que trabalha nos campos para sustentar a sua família, ou duma criança que vai a frente e atrás numa procissão do Corpo de Deus.

A presente edição conta com uma notável introdução, que introduz nas chaves da biografia de Péguy e nalguns elementos da sua poética e visão do mundo. É daquelas que vale a pena ler.

04/11/2009

Contos, de Oscar Wilde

Lisboa: Relógio d'Água, 2001 (1888), pp. 170, 12,00€

Há muitas edições dos Contos infantis de Oscar Wilde, com diferentes títulos, e esta não é melhor do que qualquer outra. Importantes são os contos que têm por título: «O rouxinol e a rosa», «o príncipe feliz», «o aniversário da infanta», «o amigo dedicado» e «o gigante egoísta».

Não são só contos infantis, porém, estas narrações do mais famoso dândi da história. Para além de conter fortes ataques às convenções sociais da sua época (e talvez da nossa), destacam-se pela sua grande sensibilidade estética e por uma exaltação da humanidade e dos seus grandes valores.

A primeira vista, são contos que sublinham principalmente o aspecto moral de certas virtudes, sempre exaltadas, ao passo que os vícios antitéticos são denegridos. Mas o leitor não se deve deixar enganar, porque há muito mais do que moral em frases como: «O amor é melhor do que a vida», ou «Não conheço no mundo nada mais nobre ou mais raro que uma fiel amizade».

Wilde é genial, sobre tudo, porque é capaz de identificar aquele quid que constitui o coração do homem. De facto, uma infanta, que se divertia com um anão, ao descobrir que este se tinha apaixonado por ela, solicita: «Doravante, quem vier jogar comigo não deve ter coração».

26/10/2009

The soloist (O solista)

Joe Wright (2009)

Um jornalista do Los Angeles Times, Steve Lopez, pretende escrever um artigo sobre um sem-abrigo, outrora músico promissor. Mas percebe logo que este encontro vai abrir novos horizontes para a sua vida: «Nunca amei nada da maneira que ele ama a música», diz depois duma das suas primeiras conversas com ele.

O realizador Wright, que já nos surpreendeu positivamente com Atonement (Expiação), explora de novo situações pessoais ao limite, para redescobrir o lado bondoso e mais humano de dois homens sozinhos e rejeitados. Saíndo do cliché do génio musical-doente mental (por exemplo, de Shine, com Geoffrey Rush, de 1996), arrisca muito no estudo meditativo duma relação conflitual, que protagoniza o filme mais do que a música ou a excelente fotografia.

A mensagem final é excelente: uma lição de humanidade para quem se lança no voluntariado à procura de responder às necessidades dos outros, e não consegue mudar nada, mas acaba por receber muito mais do que teria esperado: a satisfação da entrega da vida.

O seu defeito é talvez ser «demasiado» meditativo, isto é, por vezes lento. Quem gostar de Beethoven, poderá deliciar-se com as suas músicas e os jogos de destaque do violoncelo solista e da orquestra (incluindo um jogo visual interessantíssimo). Quem amar pouco a música clássica, veja o filme num dia em que não estiver sonolento.

11/10/2009

A grief observed (Dor), de C. S. Lewis

Lisboa: Grifo, 1999 (1960), pp. 150, 7,50€

O que ler quando «estamos em baixo»? Há quem diga que nessas alturas é melhor ler histórias de ficção científica ou de aventura, «para esquecer a mágoa». Pelo contrário, há poucos dias conversava com um amigo e ambos coincidíamos na opinião oposta: nesses momentos, é necessário encontrar alguém (um amigo escritor, vivo ou não) que tenha experimentado o que estamos a viver, de maneira que nos possa tirar da solidão em que nos tendemos a fechar.

Feita esta premissa, percebe-se que estes cadernos de apontamentos, a modo de diário, que têm por título «Uma pena em observação», são exactamente isso: um estudo sobre a tristeza, que nos poderá levar além da mesma.

Na vida do genial C. S. Lewis, a morte da sua mulher Joy, após vários períodos sucessivos de agravamento duma doença incurável, foi ocasião deste escrito privado, que assinou com um pseudónimo. Já convertido ao Cristianismo, o escritor debate-se entre a presença e a ausência da pessoa amada, interroga-se pelos próprios sentimentos que prova, pela sua relação com Deus. E não deixa indiferente, no concreto das suas imagens e experiências, ao leitor que não tenha fechado o seu entendimento àquilo que é humano.

06/10/2009

Fame

Kevin Tancharoen (2009)

«Youve got big dreams? You want Fame? Well, Fame costs. And right here is where you start paying in sweat». Assim começava a famosa série dos anos oitenta que inspira este remake, que precisamente nos primeiros minutos repite esta frase junto com aquele famoso refrão de Irene Cara: «Remember... Remember...».

De resto, só a Academy of Performing Arts of New York e o ambiente escolar de adolescentes mantém uma certa semelhança com as recordações daquela série. A música, as coreografias, o uso das tecnologias e as personagens são muito diferentes e muito mais apelativas nesta versão. Por vezes sobrecarregada de diálogo e de drama, não há dúvida de que são brilhantes algumas cenas musicais (em particular, a jam no bar da Faculdade).

O tema é que é realmente fascinante (não a história, quase inexistente). Embora possa parecer banal, este grupo de rapazes e raparigas com talento, que procuram o sucesso nos seus dramas adolescenciais, reflectem bem o que é o homem. E sobre tudo, reflectem algo muitas vezes esquecido: como os grandes desejos definem as pequenas acções do dia-a-dia de cada ser humano.

Pode parecer irreal este grupo de professores e alunos que sempre se dão bem e ajudam, que consideram a pessoa como uma unidade, que querem tirar o melhor de si próprios e dos outros. Mas, permitam-me opinar, se cada um de nós começasse a fazer isto na sua porção de mundo, de certeza seríamos mais felizes. Como os rapazes e raparigas de Fame.

30/09/2009

Frankenstein, de Mary Shelley

Lisboa: Leya, 2009 (1818), pp. 240, 5,95€

Um «clássico da literatura» não é necessariamente um livro lido pela maioria das pessoas, nos tempos que correm. Por isso, vale a pena retomar de vez em quando alguma das obras-mestras da literatura que encontramos nos móveis velhos da nossa biblioteca.

Frankenstein é uma destas obras. Victor, um jovem cientista, anda a procura do segredo da vida. Com a ajuda de vários membros de pessoas falecidas, consegue dar vida a um Ser, de características em parte humanas e em parte monstruosas, que se esforçará sem sucesso por integrar-se no mundo, tentará vingar-se do seu arrependido «criador» e finalmente vagueará sem rumo.

A riqueza da história não é tanto o seu argumento como os seus temas: Pode o homem brincar a ser Deus? Pode o homem criar a vida e descobrir aquela faísca que a produz? Qual é o limite entre o que é humano e o que é desumano? Até que ponto é moralmente lícito criar ou ser dono dum outro ser?

São perguntas de grande alcance, que este romance coloca com originalidade, proximidade e muita ternura. Perguntas do homem de todos os tempos.

20/09/2009

Macaco, Puerto presente (2009)

Macaco é uma banda espanhola muito original no panorama musical contemporâneo. Chamam o seu estilo rocksteady: uma mistura de ritmos latinos, espanhóis e músicas étnicas. De facto, neste grupo musical reúnem-se membros de diferentes países latino-americanos e até africanos, misturando tradições e melodias de maneira inovadora, a partir duma base em Barcelona.

No País vizinho foram número 1 ao longo do Verão passado, por isso podemos esperar também algumas cedências ao esquema comercial das rádios na moda. Ainda assim, no repetitivo panorama actual, destaca-se como qualquer coisa de diferente.

A melhor frase a destacar em seus textos: «A vida é aquilo que acontece enquanto fazes outros programas».

17/09/2009

Confissões, de Santo Agostinho

Lisboa: Casa da Moeda, 2000 (398), pp. 780, 10,60€

Em sentido próprio, esta é a primeira autobiografia da história da literatura universal. Anteriormente, encontramos o discurso de defesa pronunciado por Sócrates na Apologia que escreve o seu sucessor Platão, ou o relatório das campanhas militares do geral Julius Caesar narrado nos seus Comentários. Mas Agostinho é o primeiro que põe em evidencia um percurso pessoal de toda a sua pessoa, de toda a sua vida.

Neste clássico, são memoráveis e famosas algumas páginas de extraordinária beleza. Cabe destacar a descrição da relação de Agostinho com sua mãe Mónica, que com as suas lágrimas obtém a conversão do filho; ou então as páginas sobre o seu filho Adeodato, sobre a morte do seu melhor amigo, com o qual partilhava «uma só alma»...

Dirigindo-se a Deus, escreve: «Tarde vos amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde vos amei! Vós estáveis dentro de mim, mas eu estava fora, e fora de mim vos procurava» (10,27). Ou: «Fizeste-nos para Ti e inquieto está o nosso coração enquanto não repousar em Ti» (1,1).

Uma confissão é para muitos fonte de curiosidade, e sabe-se que Santo Agostinho teve muitos pecados de que se arrepender. Mas atenção: o título da obra refere-se não só à confessio peccati, à confissão dos pecados no sentido moderno, mas também à confessio laudis, a confissão do louvor a Deus. Por isso, é um clássico da espiritualidade de todos os tempos e de todas as tendências.

08/09/2009

Thomas More, de Peter Ackroyd

Lisboa: Bertrand, 2003 (1998), pp. 301, 30,00€

Recentemente, um amigo e professor italiano explicou-me porque é que os melhores biógrafos pertencem à tradição anglo-saxónica: o pragmatismo característico deles opõe-se a uma visão de corte marxista que vê a história como uma série de processos sociais, em que o indivíduo é posto em segundo plano.

Desde este ponto de vista, Peter Ackroyd é um mestre anglo-saxónico. As suas muitas obras, entre as quais se destacam as biografias literárias de figuras como T. S. Eliot ou W. Shakespeare, colocam sempre o indivíduo no centro da história. A pessoa é protagonista das suas acções, obras, e também do seu destino.

Ackroyd é também um biógrafo genial na sua escrita. Sempre com grande equilíbrio, mostra o seu domínio das fontes históricas, sem carregar o texto com demasiadas citações, a pesar de serem subjacentes ao mesmo. Em especial, é genial a escolha duma metáfora para cada capítulo, uma chave de interpretação dum período ou dum evento importante, que desenvolve como imagem simples mas poderosa.

Em particular, esta vida de Thomas More é um retrato inteligente e equilibrado duma figura polémica no seu tempo e complexa na sua evolução pessoal. A unidade da vida deste homem político desvenda-se em cada página, na ligação entre a sua implacável fé cristã medieval e o seu amor pela lei como guardiã da ordem que essa fé simboliza, na altura ameaçada pelo individualismo, a Reforma e o seu melhor amigo: o Rei Henrique VIII.

07/07/2009

A vitória da razão (The victory of reason), de Rodney Stark

Lisboa: Tribuna, 2007 (2006), pp. 335, 19,95€

O título deste volume é um desafio em si mesmo: Será que a razão pode vencer ainda hoje, no nosso contexto relativista? Não lhe foi tirado qualquer estatuto, uma vez que se estabeleceu o domínio do sentimento e da instintividade? Inclusivamente, num recente cartaz lemos que «não basta ter razão», porque a razão está subordinada à necessidade de «ter votos».

Mas se olharmos para a capa, encontramos uma outra frase ainda mais desafiante: «Como o Cristianismo gerou a liberdade, os direitos do homem, o capitalismo e o milagre económico em Ocidente». Contra muitos «dogmas», afirmados desde as mais altas cátedras, que declaram o Cristianismo culpável de totalitarismos ou de outras intolerâncias, e que (desde Weber) proclamam o Protestantismo como alternativa salvífica ao «ferrugento» Catolicismo, Stark emerge com um estudo aprofundado e documentado que dá algumas pistas para repensar nestes supostos «dogmas».

Por exemplo, descreve como só no Catolicismo foi possível uma visão filosófica e teológica que permitisse ideias como o progresso, a ciência antropocêntrica ou o próprio capitalismo. «A liberdade é outra ideia que não existe em muitas das culturas humanas, possivelmente na maior parte», acrescenta: «Nem sequer existe uma palavra para liberdade na maioria das línguas não europeias».

19/06/2009

O homem eterno (The everlasting man), de G. K. Chesterton

Lisboa: Aletheia, 2009 (1925), pp. 380, 16,00€

«Quando certa vez perguntaram a Chesterton “que livro gostaria de ter consigo se fosse um náufrago numa ilha deserta”, esperando talvez uma resposta profunda e elevada como “a Bíblia” ou “a Divina Comédia”, respondeu com o óbvio “um manual de construção de botes”.

O espanto é a atitude de quem se surpreende com admiração diante de alguma realidade ou pessoa. Não é necessariamente a realidade a ser surpreendente: simplesmente pode ser olhada desde um novo ponto de vista, que a torna assim.

Portanto, o espanto é uma reacção do indivíduo, que vemos principalmente nas crianças. E em Chesterton. Ele e os seus livros surpreendem ao leitor, porque ele próprio se deixa espantar pela realidade (...).

[Mas] o verdadeiro espanto nasce como atitude procurada, desejada. Neste livro, O homem eterno, o leitor espanta-se pela força e beleza dos exemplos, descrições e argumentos, que dão forma a esta procura.

(Do Prefácio, por Luis Miguel Hernández)

12/06/2009

Um beijo a mais (The last kiss)

Tony Goldwyn (2006)

No início deste filme, Michael (o magnífico Zach Braff) anuncia aos seus sogros que vai ser pai pela primeira vez, com certas dúvidas, ou com pouco entusiasmo. Está para fazer 30 anos, tem a mulher perfeita, é um arquitecto de sucesso. Mas, pouco depois, confessa: «Estive a pensar na minha vida ultimamente, e sinto tudo já planificado. Já não há espaço para surpresas».

Sentimentos tão na moda como este, rodeiam-se a seguir de outra série de lugares comuns, encarnados em personagens e frases muito realistas, embora terríveis: Chris (o também magnífico Casey Affleck), que não suporta mulher e filho bebé; Izzy, desesperadamente abandonado pela mulher que ama; Kenny, que reduz o amor a sexo; e os próprios sogros, numa crise matrimonial aos 60 anos.

Michael sabe qual é o caminho certo, mas a tentação aparece na figura duma colegial que o tenta seduzir...

Nesta descrição da incapacidade de assumir responsabilidades, do medo à paternidade, da dificuldade de afirmação pessoal e dos próprios valores e princípios, finalmente há esperança. Há uma figura paterna, alguém que obriga a enfrentar a realidade, a ser fiel à verdade. O sacrifício implicado neste seguimento da verdade escancarará uma porta, a porta da esperança que só a perseverança pode abrir.

05/06/2009

O grande silêncio (Die Grosse Stille)

Philipe Gröning (2005)

Para quem chegar a tempo, no Sábado 6 de Junho pode adquiri-lo com o jornal Publico, a preço económico. Mas também se encontra nas lojas.

Trata-se dum documentário sobre a vida dos monges da Cartuxa do Mosteiro de La Grande Chartreuse, nos Alpes franceses, próximo de Grenoble. O realizador lá passou 6 meses da sua vida, filmando tudo o que conseguiu. A condição era não acrescentar luz artificial, músicas ou comentários, e assim ele fez. O resultado: 3 horas de grandes silêncios e de profundas sugestões.

Quem pensar que a vida num mosteiro de clausura é desinteressante, será surpreendido pela vida que se monstra: trabalhos agrícolas, de costura, vida comunitária, liturgia e até passeios na neve. Desde o olhar poético duma discreta perspectiva, sem grandes pretensões interpretativas.

É este o aspecto mais interessante do filme, e também o seu limite: o realizador não «impõe» uma narração temporal, uma sequência lógica, um argumento. A meditação decorre no ritmo próprio do mosteiro, e o espectador tem que deixar-se arrastar por ele: pelo canto gregoriano, pelos sons da natureza, pelas poucas palavras dos ritos mostrados ou do (fenomenal) testemunho final do frade cego. E, sobre tudo, pela imagem.

Quem achou pesada a realização de Dreyer ou de Bergman, não se vai dar bem com Gröning, mas vale a pena dar-lhe uma oportunidade.

21/05/2009

West Side Story

Bernstein/Robbins, 1961

Leonard Bernstein foi o criador da música, a partir de textos de Laurents adaptados por Sondheim, com coreografias de Jerome Robbins. A primeira versão do musical foi em Broadway, e depois foi feito um filme por Robbins e Wise estreiado em 1961, com a maravilhosa Natalie Wood e um tal Richard Beymer.

O musical está em Lisboa, no Politeama, numa adaptação de Filipe La Féria, bastante fiel ao texto original, a pesar de algumas traduções livres pouco eficazes, e muito a pesar uma cena de alcova perto do patético. Mas vale a pena passar uma tarde no teatro para o ver. Se não, vale a pena procurar a versão cinematográfica.

Principalmente, pela força da história e das personagens. Trata-se duma revisitação do clássico tema do shakesperiano Romeu e Julieta: um amor impossível entre duas pessoas de famílias e contextos inconciliáveis, presságio de tragédia. São Maria e Tony, de origens porto-riquenha e polaca, ligados a duas bandas juvenis de Nova Iorque. A acção é rápida e humana, próxima ao espectador contemporâneo.

Não é possível ficar indiferente diante das coreografias tão bem conseguidas. Por vezes, são dezenas de pessoas no palco, e nenhuma delas está fora de lugar, incomoda ou distrai. Quando o dinheiro abunda para uma produção assim, também não se podia esperar algo diferente...

03/05/2009

A lenda do santo bebedor (Die Legende von heilingen Trinker), de Joseph Roth

Lisboa: Assírio e Alvim, 1997 (1939), pp. 86, 8,00€

Lê-se numa hora esta breve história, que de lenda tem só o título. Escrita em quinze capítulos de poucas páginas, quando damos por isso, já acabámos.

Joseph Roth não deve ser confundido com Philip Roth. O nosso autor não é judeu americano, escritor de dezenas e dezenas de best-sellers. Pelo contrário, Joseph Roth é austríaco, viveu na primeira metade do século XX e foi principalmente jornalista, embora tenha escrito alguns romances.

Esta lenda, em particular, foi publicada postumamente, e narra um facto fora do comum: Andreas Kartak, um sem abrigo que dorme debaixo das pontes do Sena em Paris, recebe dinheiro de formas inusitadas, com um pedido: deverá devolver a quantia a Santa Teresinha do Menino Jesus, numa igreja da cidade.

Por uma parte, a história destaca a tentativa moral de Andreas, paradigma cristão da procura de resposta à graça, nunca realizada. Por outra parte, deixa-nos uma reflexão: será que o nosso dia-a-dia não está também cheio de «milagres»? Lá vai uma citação para pensarmos:

«Não há nada a que nos possamos habituar tão facilmente como aos milagres, quando estes acontecem duma forma sucessiva. Sim! A natureza do homem é tal, que este se chega a tornar mau, quando não lhe é concedido ininterruptamente tudo aquilo que um destino casual e temporário lhe pareceu prometer» (p 46).

29/04/2009

Um eléctrico chamado desejo e outras peças, de Tennessee Williams

Lisboa: Relógio d'Água, 2009, pp. 360, 15,00€

É difícil dizer o que têm em comum quatro peças como Um eléctrico chamado desejo, De repente no último verão, Verão e fumo e A gata em telhado de zinco quente (ver post 27/Fev/2009). Escritas e encenadas entre 1947 e 1958, todas elas foram adaptadas ao cinema na seguinte década, por realizadores como Mankiewicz, Brooks ou Kazan.

Pessoalmente, considero que o fascínio de Williams deve-se à profunda humanidade das personagens que cria, muitas delas desdobramentos da sua própria pessoa. São exaltadas, exageradas, e por vezes quase cómicas, mas levam sempre dentro um rasgo que as define, um «something that we live for», que se encontra em todo ser humano.

Williams estuda temas tão complexos como a obsessão, o assassinato, as doenças mentais, os amores impossíveis. As situações complicam-se, o drama atinge níveis altíssimos, muitas personagens são levadas ao limite do colapso. Mas há sempre uma resolução positiva, uma ou outra personagem que consegue sair triunfante no meio deste drama.

Com o risco duma redução simplista, ouso dizer que essa positividade de fundo vem sempre daquelas personagens que procuram um significado no meio das circunstâncias complexas, que comovem o leitor porque seguem intuições profundas. Corresponde-nos mais procurar além da aparência do que o cinismo de quem vê só o mundo material, ou então inventa uma realidade ilusória. Foi esta a procura de Williams a través do seu teatro.

24/04/2009

Quadros duma exposição, de Modest Mussorgsky (1874)

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«A grande obra-mestre de piano Quadros duma exposição do russo Mussorgsky narra uma grandiosa parábola vital. É claro que os Quadros não são música descritiva, nem simplesmente a representação literal do compositor que visita uma exposição póstuma do amigo arquitecto e pintor Viktor Hartmann. Mas têm o valor duma profunda e original reflexão existencial, por vezes tecida de candor, por vezes duma nostalgia ardente, por vezes duma dureza que assusta.

A luz irreal das noites brancas, os bosques de bétulas, as planícies intermináveis, as cores e perfumes da estepe, o silêncio dos bosques e os lagos, a majestade dos rios, o fragor das tempestades do Mar Branco, os sons inconfundíveis dos sinos e dos cânticos da Igreja Ortodoxa, o forte sentimento da predestinação dum povo que no Cristianismo identificou a sua própria razão de ser... são todos elementos que se podem sentir claramente “representados” nos Quadros não como folclore, mas sim como símbolo privilegiado para expressar a vida com as suas harmonias e as suas contradições» (Simone G. Pedroni)

19/04/2009

Do céu caiu uma estrela (It's a wonderful life)

Frank Capra (1946)

Lembro-me de ter visto este filme em criança no Natal. É um daqueles clássicos do cinema, que mostra a positividade da vida, a importância da família e da amizade, principalmente a través do excepcional James Stewart, no papel da sua vida.

Ainda que tenha uma estética certamente antiquada, o filme não perdeu a sua força: conserva um ritmo narrativo ligeiro, jogos temporais quase mágicos e um turbilhão de situações cada vez mais complexas. George Bailey, a personagem principal, convence, entusiasma e envolve afectivamente o espectador.

E, sobre tudo, o filme tem uma mensagem muito clara: a vida duma pessoa é irrepetível e necessária. O mundo não seria o mesmo sem mim ou sem o meu leitor. Nós não costumamos dar por isso, mas os nossos actos têm consequências que nos ultrapassam por muito, e que contribuem para a felicidade de quem nos rodeia.

O filme mostra como isto acontece, na maior parte dos casos, quando fazemos o que é necessário, deixando de lado os próprios projectos. George Bailey nunca consegue realizar os seus «sonhos», mas realiza o ideal que cumpre a sua vida.

Uma mensagem e um filme, portanto, de grande actualidade.

16/04/2009

Madre Teresa: Vem, sê a minha luz (Come, be my light), de Brian Kolodiejchuck

Lisboa: Aletheia, 2008, pp. 393, 19,00€

Kolokiejchuck, de nacionalidade canadiana, nunca poderá esquecer aquela manhã em que encontrou Madre Teresa de Calcutá no pátio da Casa Mãe das Irmãs da Caridade em Roma. A irmã dele tinha recebido no dia anterior a medalha que a Madre impunha às religiosas, e ele tinha assistido à cerimónia, tendo já abandonado o seminário em que começara os estudos para se tornar sacerdote. Madre Teresa disse-lhe: «Um dia gostava de lhe impor também a Si uma medalha», e foi-se embora.

Foi o início dum novo percurso de vida para Kolokiejchuck: tornou-se sacerdote e tornou-se um dos primeiros membros masculinos da congregação fundada por Madre Teresa.

É evidente que as páginas de cartas e escritos recolhidas nesta obra, e até agora inéditas, estão cheias de imagens e de encontros entre o Autor e a sua Mestre. Cheias de ternura e comoção, descrevem a paixão incansável desta mulher que mudou a vida de todo aquele que com ela se encontrava. Não pela sua genialidade, mas pela transparência da sua mensagem e da proximidade de Deus.

Destacam a tenacidade e a fortaleza de Madre Teresa, sublinham a sua humildade, não escondem a sua falta de correcção política. Em suma, uma lição para qualquer ser humano inteligente.

26/03/2009

O cubo e a catedral (The cube and the cathedral), de George Weigel

Lisboa: Aletheia, 2006 (2005), pp. 151, 13,00€

Weigel escreve com grande mestria jornalística e com sabedoria multiforme. É muito simples porém a leitura dos breves capítulos/artigos que formam este breve ensaio sobre «a Europa, a América e a política sem Deus», segundo reza o seu subtítulo.

Católico activo em diversos frentes, em particular na área da ética, este biógrafo de João Paulo II é colunista regular em jornais americanos e sabe bem do que está a falar. Ao analisar polémicas como a crise demográfica, a Constituição Europeia, as relações euro-americanas, ou o declive da cultura cristã, aborda temas cheios de lugares comuns, que a sua séria investigação esclarece.

É verdadeiramente interessante o seu estudo das raízes culturais da Europa (e, por conseguinte, da América). Por exemplo, simplifica grandes problemas contemporâneos a través do estudo da prerrogativa da Igreja na luta das investiduras com Gregório VII, ou corrobora as origens do sistema democrático na eleição dos superiores dos mosteiros beneditinos medievais.

A sua interrogação principal cresce a medida que avança a leitura: «É possível construir e manter de pé uma comunidade política democrática sem os pontos de referência morais que o Cristianismo tem para oferecer?». Ao leitor cabe procurar a resposta.

15/03/2009

Gran Torino

Clint Eastwood, 2008

Politicamente incorrecta, esta reflectida visão dos Estados Unidos (cada vez mais globalizados) oferece também uma inteligente perspectiva da raiz religiosa desta nação.

Walt Kowalski, um Eastwood idoso mas na sua «dureza» característica, é um racista wasp que não suporta os vizinhos orientais que povoam o seu bairro. Nostálgico dum passado melhor, representado pelo velho carro que ele próprio contribuiu a fabricar, parece saber mais da morte que da vida. Chega a ser até divertido na sua linguagem grosseira e nos seus insultos indiscriminados.

Mas a história desenrola num fundo cristão (embora não católico). A visão do Catolicismo é positiva, representada pela figura dum padre de 27 anos, que na sua inocência até diz coisas justas. Mas Eastwood parece querer mostrar que a sua posição não chega: a experiência de guerra e a idade da personagem que encarna pensa que sabe mais.

Esta personagem, Kowalski, redescobre a sua humanidade por uma série de encontros com o «próximo», e acabará por oferecer a sua própria vida, numa cena carregada de simbolismo, quase numa identificação com Cristo na cruz. Esse plano fundamental, e a grelha através da qual fala com Thao na sua casa, reminiscente da grelha do confessionário do padre Janovich, são algumas chaves para descobrir uma América profundamente cristã, tão esquecida no Hollywood bem pensante.

12/03/2009

1984, de George Orwell

Lisboa: Antígona, 2007 (1948), pp. 314, 16,00€

Quando foi escrito em 1948, num trocadilho de números, o que para nós é hoje passado quase remoto era um futuro longínquo. Mas ainda hoje este romance futurista é um clássico da modernidade.

Mais do que utopia, deve falar-se de distopia, isto é, da criação dum mundo ideal que se torna inimigo terrível para os seus habitantes. Habitantes que, em 2009, podemos ser nós próprios.

O romance que criou a expressão «Grande Irmão», quando ainda não era possível sequer sonhar com tecnologias digitais, internet e satélites, apresenta algumas personagens que tentam fugir desse mundo distópico. São aqueles com quem tentamos identificar-nos, pois vemos que não se conformam ao totalitarismo imperante. Muito actual, dado que assistimos também hoje a certos totalitarismos disfarçados de liberdade (jornalístico, político, mediático...).

A chave de leitura: a própria humanidade, reflectida nalguns trechos tão significativos como este: «Eles [o Poder] podem-nos obrigar a dizer tudo, tudo o que entenderem... mas não nos podem fazer acreditar no que dissermos. Dentro de nós eles não entram. O fundo do coração, cujo funcionamento até para nós constitui um mistério, há-de ser sempre inexpugnável».

27/02/2009

Gata em telhado de zinco quente (Cat on a hot tin roof)

Richard Brooks, 1958

A sugestão seria nesta ocasião uma peça de teatro. Mas como hoje não se encena no nosso País, quer o texto de Tennessee Williams quer a versão cinematográfica podem ser uma boa substituição. A história não é traída pelo filme em nenhum dos seus aspectos, e a força da escrita de Williams mantém-se de forma sublime.

Trata-se de um drama que descreve o combate entre a realidade e a mentira. Algumas personagens vivem de resignação, ambição ou instintividade. Ninguém parece estar disposto a «afrontar os factos». A morte iminente do pai de família, ou a recordação duma relação amorosa com um suicida por parte do protagonista são intoleráveis: é só possível «o refúgio do álcool ou a mentira». A pesar duma resolução final do drama da «gata» protagonista, ficamos a pensar que a complexidade dos factos apresentados ainda está por se solucionar.

É, sem dúvida, a força das personagens que torna esta peça extraordinariamente bela. Brick e Maggie em particular, numa interpretação cinematográfica de excepção do recentemente falecido Paul Newman (1925-2008) e da melhor Elizabeth Taylor (1932-).

Williams deixou-nos uma chave interpretativa numa marca da peça: «Some mystery should be left in the revelation of character in a play, just as a great deal of mystery is always left in the revelation of character in life».

18/02/2009

O estrangeiro (L'étranger), de Albert Camus

Lisboa: Livros do Brasil, 2006 (1942), pp. 118, 9,00€

«Hoje morreu a mãe. Ou talvez ontem, não sei. Recebi um telegrama do asilo: “Mãe morta. Enterro amanhã. Sinceros sentimentos”. Isso não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem».

O primeiro parágrafo deste romance é já o seu manifesto programático: tudo é indiferente para este jovem protagonista francês, estrangeiro em Argélia (como o próprio Camus). Os vizinhos, a sua relação amorosa com Maria, o enterro da mãe... Tudo é monotonia.

Quase por acaso, assassina um árabe, pelo que será condenado a morte. Mas Meursault não tem medo dela; é insignificante, como de resto a sua vida inteira, em que nunca significaram nada os valores, a responsabilidade, o que é extraordinário.

O romance torna-se assim um interessante tratamento do famoso ennui francês, que consegue aborrecer e enjoar o leitor. Talvez por isto é um bom romance: quase que consegue fazer-nos pensar que Meursault tenha razão.

Mas é pena não haver uma proposta/resposta: com a morte do protagonista fecha-se qualquer porta à esperança.

10/02/2009

Revolutionary road

Sam Mendes, 2008

Donde pode nascer a esperança? No caso desta história, a pergunta coloca-se a um jovem casal, com filhos e uma vida acomodada, que começa a perder o entusiasmo dos ideais da juventude.

Parece que esses ideais podem ser reconquistados. São apresentados como uma mudança de vida, uma viagem a Paris, certas imagens do passado, a chama do amor apaixonado. Ela, April, relembra o aspecto verdadeiro desse entusiasmo, desse desejo de viver até ao fundo. Ele, Frank, reconhece: «Eu quero sentir as coisas, senti-las realmente».

E, de novo, April, insiste: «Ninguém pode esquecer a verdade, Frank». Só que para ela, a medida que o filme avança, esse ideal torna-se sonho: um projecto na sua imaginação que pouco tem a ver com os factos, com a realidade. E Frank, no meio do drama, dá-nos a chave da história: a verdade comporta «a espinha dorsal para não fugir das responsabilidades».

Destaca-se no filme a música. Consegue criar uma atmósfera cada vez mais dramática, sem excessos. Extraordinárias algumas cenas onde o meditativo tema principal se repete por muitos minutos, deixando em segundo plano as conversas ou situações.

Por último, um destaque também para di Caprio e Winslet, não nomeados para aquela farsa chamada «Óscar». Como não vi Titanic, resultam-me muito genuinos e polifacéticos em Revolutionary Road.

01/02/2009

A sangue frio (In cold blood), de Truman Capote

Lisboa: Dom Quixote, 2006 (1966), pp. 400, 10,00€

Truman Capote declarou ter inventado um novo género literário com este romance: a non-fiction novel. Isto é: um romance baseado em factos históricos, quase jornalístico. Daí a sua originalidade e fama.

É uma grande pretensão, mas sobre tudo é falsa. É evidente que Capote escolheu e determinou o estilo do narrador, a organização temporal, a justaposição de episódios, as descrições, o argumento e, acima de tudo, o tema principal.

A história é real: de facto, Perry Smith e Dick Hickock, os protagonistas do romance, assassinaram quatro membros da família Clutter numa vila americana chamada Holcomb e foram condenados a morte. Capote faz-nos entrar com mestria na vida desta família, desde o dia anterior ao início destes acontecimentos, e faz-nos acompanhar o processo judicial dos acusados nesse estilo pretensamente «frio». São frios os assassinos, é fria a descrição, e por isso fascina-nos a sua aparente objectividade. Mas Capote manipula a história para obter esses efeitos literários que fazem deste um bom romance.

O tema é actual e interessante: trata-se duma crítica ao estilo de vida americano, injusto no tratamento da tragédia desta família, assim como no uso da pena de morte, que acaba por não resolver problema algum. A visão de Capote é pessimista e ateia, mas é inteligente e perspicaz. Vale a pena.

24/01/2009

Rumble fish

Francis Ford Coppola, 1983

Rusty James (Matt Dillon) é um jovem que pretende ser rebelde: gostava de ser chefe dum bando e lutar nas ruas. Só que é um falhado, não tem perfil e tudo lhe corre mal.

O seu irmão mais velho já conseguiu tudo isso tempo atrás e agora regressa: é o misterioso Motorcycle Boy (Mickey Rourke), personagem idealizada que vê a preto e branco (como nós) e do qual se diz que «não há nada que não consiga». Ainda assim, este rebelde sem nome confessa que não sabia aonde conduzir aqueles que o seguiam...

Assim, Rusty James segue um ideal que não existe, que o leva à própria destruição. Motorcycle Boy, mítico, procura uma nova libertação para os dois. O símbolo chave são uns peixes de cor que quer libertar, porque no aquário onde estão se auto-destroem. Quer levá-los ao rio e, ao passo que perde a vida nesta tentativa, é Rusty quem consegue fazê-lo, e por fim fugir com a motocicleta até ao oceano californiano, símbolo dessa liberdade realizada.

Óptima realização de Coppola, música excepcional, interpretações de talento, história difícil mas fascinante, filme fora do comum. Muito, muito bom.

21/01/2009

César Franck, Sonata para violino (1886)

São só dois instrumentos: um piano e um violino. Um deles abre um tema, que é desenvolvido pelo outro, e viceversa. A tensão aumenta e diminui continuamente, numa meditação de profundidade progressiva.

É uma sonata de amor: foi composta em honra do casamento dum seu amigo, o também compositor belga Ysaÿe. Mas o amor que descreve não é um sentimento superficial, uma paixão intensa ou um percurso instável. Descreve um drama, alegre por momentos, doce e tenro, fantástico nos vários níveis desta palavra.

Franck não é um compositor muito conhecido, ao lado de seus contemporáneos Brahms ou Beethoven. Ainda assim, teve um certo sucesso nas últimas décadas da sua vida e, nesta Sonata, demonstra uma genialidade, direi, muito actual.

13/01/2009

A Prisioneira de Teerão (Prisoner of Tehran), de Marina Nemat

Lisboa: Quidnovi, 2007, pp. 304, 16,50€

Não é genial, mas é interessante porque obriga a reflectir. Muito se fala em tolerância, em diálogo inter-religioso e em respeito pelo Islão, e este romance autobiográfico contém um pouco de cada um destes elementos, contado desde dentro.

Marina Nemat nasceu em Teerão em 1965 e viveu a Revolução Islámica de 1979. Com 16 anos foi levada para Evin, uma prisão política (provavelmente ainda existente) onde foi torturada e quase executada. Neste livro, ela recorda esse passado, um pouco como confissão e um pouco como expiação. Escreve desde o exílio, mas ama o seu País natal, a família e os amigos que lá morreram ou deixou, e até narra com ternura o seu matrimónio forçado com um empregado da prisão, condição para sair da mesma. Ela católica; o ambiente, muçulmano radical.

A história podia ser mais rija e menos feminina, dadas as condições, mas este toque da Autora tira-nos dum falso maniqueísmo e obriga-nos a observar que entre o preto e o branco há muitos matizes.

O estilo narrativo também não é genial, embora os capítulos alternados alterem a ordem cronológica da história e produzam efeitos bem conseguidos, por vezes.

06/01/2009

Assassínio na Catedral (Murder in the Cathedral), de T. S. Eliot

Lisboa: Cotovia, 1989 (1935), 122 p.

A história está já contada no título: o arcebispo Tomás Becket, santo inglês do século XII, vai ser assassinado na sua própria casa. O drama (porque se trata duma peça teatral) passa-se na mente do arcebispo e do leitor/espectador, ao ser confrontado com as personagens que aparecem. O coro das mulheres de Cantuária, em primeiro lugar, que representa a mentalidade do povo, realista, mas conservadora e pouco amiga das complicações; três padres, que mostram o caminho da santidade desde diferentes ópticas; e quatro tentadores, que mostram vários caminhos fáceis para o arcebispo, incluído a vanglória do próprio martírio.

Não me preocupa manter o suspense e não contar o fim desta peça: sabe-se já. Mas talvez o leitor/espectador não saiba ainda com quem deles se vai identificar, se deixar ao lado os seus preconceitos ou posições religiosas prévias. Os padres e os tentadores são todos convincentes, a modo de cada um...

O maior poeta inglês do século XX, pelo menos em língua inglesa, T. S. Eliot, escreveu também cinco peças de teatro, pouco conhecidas. Entre elas, esta é a primeira e a mais linear, a menos complexa e a mais facilmente compreensível pelo leitor contemporáneo. O seu estilo é tão poético que encanta; as falas tão bem estudadas e estructuradas que espantam continuamente; os símbolos ricos e imediatos (em particular as repetições do número 3 e do número 4, para o Bem e o Mal respectivamente).

Um clássico que se lê em quarenta minutos.