No cais ao qual cada manhã
se dirige em busca de trabalho, privilegiado pela sua proximidade e
simpatia para com os chefes da máfia local, há lodo: há mentiras,
há jogos de poder, há vingança e morte para quem tente denunciar o
status quo.18/02/2016
Há lodo no cais (On the waterfront)
No cais ao qual cada manhã
se dirige em busca de trabalho, privilegiado pela sua proximidade e
simpatia para com os chefes da máfia local, há lodo: há mentiras,
há jogos de poder, há vingança e morte para quem tente denunciar o
status quo.09/02/2016
Se Deus quiser (Se Dio vuole)
04/01/2016
A juventude (Youth)
29/11/2014
Boyhood: momentos duma vida (Boyhood)
«Mostrar a vida», as coisas pequenas do dia-a-dia, os eventos normais, sem contar muitas histórias, é a base deste avassalador filme de Linklater. Narra 12 anos na vida dum rapaz, Mason, filmados ao longo desse mesmo período de tempo, e permite ver nos seus 166 minutos, de facto, a densidade da vida.
Desde a primeira das 143 cenas, ficamos a simpatizar com o seu protagonista. Depois com a mãe dele e com o pai, que constituem um núcleo de relacionamentos que o introduzem na vida. Espanta a positividade com que estas personagens, para nada idealizadas, enfrentam as situações pelas quais qualquer criança e adolescente já passou, e qualquer pai ou mãe viu no crescimento dos mais novos.
O ritmo narrativo é mantido
de forma espectacular pelas imprevisíveis mudanças de cena, pelo
inexorável decorrer do tempo e do crescimento, mesmo visual, das
personagens e de Mason em particular. Assim, nesta impressionante
experiência cinematográfica, consegue-se dar todo o espaço à
«normalidade», à beleza do quotidiano captado com uma máquina
fotográfica, às músicas que descrevem estados de ânimo, às
grandes perguntas sobre o sentido do nosso estarmos aqui, ao
«presente que nos agarra».Sem mistificações, é uma experiência do mais transcendente.
31/01/2014
Rush – Duelo de rivais (Rush)
Numa das cenas finais de Rush, assistimos ao habitual desafio entre os heróis da história e surpreendemo-nos a querer que nenhum deles perca o duelo. É então que nos apercebemos que estamos perante uma narrativa diferente: deixando atrás a fácil oposição bons-maus, aqui reconhecemos pessoas reais, seres humanos com virtudes e defeitos, apresentados com uma genuína simpatia.
A carga emotiva desta viril encenação, ajudada por uma realização e produção brilhantes, é enorme. Se bem que vejamos algumas corridas e muitos cenários de oficinas e circuitos de fórmula um, na realidade o centro dramático são as alegrias e dificuldades nas vidas dos dois pilotas (Nikki Lauda e James Hunt). Vidas por vezes contrapostas, rivais, sempre respeitosas, por momentos até aliadas, numa conclusão que mostra como há sempre alguma coisa a aprender, mesmo do nosso pior inimigo.
05/01/2014
A vida secreta de Walter Mitty (The secret life of Walter Mitty)
Os títulos de crédito duram mais de cinco minutos, depois de duas horas de filme; mas a sua estética, a música que os acompanha, a beleza que preencheu os olhos do espectador e as perguntas que lhe ficam no fim da história tornam-nos quase breves. Até quem veio sem grandes expectativas, não pode deixar de ficar espantado por uma originalidade mais do que interessante em qualquer um dos aspectos mencionados.
De difícil classificação, não é de admirar que a crítica se tenha dividido perante a quinta realização de Ben Stiller. Sempre num tom cómico e descontraído, o realizador americano abandona desta vez o registo superficial das divertidas Zoolander ou Tempestade tropical, para nos levar a uma procura da identidade dum homem «cinzento como um pedaço de papel», que por vezes se perde numa realidade paralela.
Porém, a vida confronta a personagem de Walter Mitty com as suas dificuldades (o fecho da empresa onde trabalha, a perda dum valioso objecto, a sua timidez perante um amor que nasce) e ele, cada vez mais realista e menos sonhador, embarca-se numa série de aventuras para alcançar um ideal superior, que entrevê desde o princípio da sua «vida secreta». Paisagens (e fotografia) maravilhosas na Islândia, uma viagem impossível de helicóptero, idas e regressos a casa, tornam fascinante o percurso deste sonhador, com o qual não só é fácil criar empatia, como até identificarmo-nos.
04/12/2012
Nos Idos de Março (The Ides of March)
George Clooney, que costuma ser pretensioso e depois desiludir expectativas, dirige esta longa-metragem com mais discrição do habitual. Desta maneira, consegue que o verdadeiro protagonista não seja ele próprio, no papel dum governador na carreira a candidato democrata para as eleições americanas, mas sim um dos seus assessores de campanha, o sublime Ryan Gosling.
Gosling, que aparece nas primeiras cenas do filme como um idealista que acredita na política e nas suas opções, cai na armadilha dos seus próprios princípios: numa dada altura, acusa a uma estagiária de ter errado e por isso pede-lhe para sair da equipa; na cena seguinte, é ele próprio a ter de reconhecer que também cometeu um erro... Abrem-se muitos pontos de reflexão, que o próprio filme não fecha nem sequer quando chegam os títulos de crédito (e talvez por isso seja um final muito bem conseguido).
Dentro dos limites duma determinada visão política (verde, anti-bélica e anti-religiosa), a virtude do filme é fazer-nos entrar um pouco naquele mundo das primárias americanas, para um europeu geralmente desconhecido, colocando questões morais interessantes. Isso, para além dum elenco de luxo, alguns bons pormenores de realização e uma montagem e ritmo narrativo excelentes.
08/11/2012
César deve morrer (Cesare deve morire)
«Desde que encontrei a arte, a minha cela tornou-se a minha prisão». Assim diz um dos presos que teve a oportunidade de representar a tragédia de Júlio César na prisão de Roma, tema deste filme. No princípio da história, reclamava o seu direito a uma cela individual; já no final, reconhece que a arte o tinha aberto ao mundo.
É um filme estranho este. Por uma parte, dominam-no uns belíssimos textos da tragédia Julius Caesar de Shakespeare, encenados num contexto actual de grande força e que suscita muitas provocações, realizados numa sequência a três tempos e sem tempo (isto é, no tempo de César, de Shakespeare, dos presos, de ninguém...). Por outra parte, a escolha dos actores/presos, assim como o uso do preto e branco na maior parte do filme, criam distâncias muitas vezes de grande violência para o espectador.
É uma interessante experiência. Sem dúvida, de alguma forma relacionada com o maravilhoso documentário «Jesus por um dia», de Verónica Castro e Helena Inverno, duas portuguesas que filmaram a encenação duma Via Sacra por parte dos presos de Bragança numa aldeia transmontana quase desabitada.
A ligação entre os textos originais e o contexto apresentado desperta inúmeras questões sobre a justiça, a redenção, o poder, o valor da arte. Todas elas valem a pena.
12/06/2012
Duas vidas e um rio (A river runs through it)
Brad Pitt, aos seus só 29 anos, é a metade deste filme. A outra metade é o menos conhecido Craig Sheffer, seu irmão nesta narrativa de ficção (embora baseada numa autobiografia real). Os seus percursos e a relação entre ambos, desde a infância até à madurez, fazem deste filme um belíssimo canto à família e à amizade entre irmãos.
O mais velho dos irmãos, Norman, de cabelo escuro, cresce seguindo os passos do pai, um pastor protestante muito humano e pouco moralista, e chega a ser professor universitário, ao passo que se debate numa relação de amor genuína que o levará ao casamento. O mais novo, Paul, de cabelo loiro, pelo contrário, é uma espécie de «rebelde», inconstante, que se contenta com trabalhar no jornal local e com relações sentimentais mais esporádicas.
Mas numa relação verdadeira entre irmãos e com os pais, cada um deixa espaço para que o outro seja ele próprio e assim realize a sua vida. Como numa das muitas cenas em que vão pescar ao rio, na qual o Norman não está a pescar nada e o Paul afasta-se, para que o primeiro consiga descontrair e com maior liberdade encher também o seu cesto. A fim de contas, no rio há peixes para saciar a todos...
31/05/2012
Conta comigo (Stand by me)
Numa aldeia dos Estados Unidos mais ocidentais, um grupo de quatro amigos pré-adolescentes vivem um fim-de-semana daqueles que todos idealizamos com nostalgia no fim da nossa infância. São quatro personagens quase estereotipadas: o duro, o sensível, o extravagante e o medricas – como cada um de nós era ou podia ter sido naquela mesma idade.
A história desenvolve-se quando se aventuram na procura dum adolescente desaparecido, naquela de «brincar aos crescidos» e tornar a casa como heróis. Com enorme ternura, Reiner descreve as peripécias do grupo, desde as pequenas rivalidades e lutas pela afirmação de si próprios, aos mais divertidos momentos em que «quebram as normas» fumando pela primeira vez ou dizendo palavrões.
A principal beleza desta descrição não é um vago sentimento por esse passado, até porque a história desenrola e torna-se também séria e enredada. Essa beleza está, pelo contrário, na ideia que o título acertadamente aponta: no meio de todas as aventuras, vê-se e é possível contar com esses amigos, existe a possibilidade duma fraternidade e duma solidariedade, tão reais como desejáveis ao longo de toda a vida.
18/04/2012
O lado longínquo do mundo (Master and comander)
Um navio inglês percorre os mares da costa do Brasil e das Ilhas Galápagos no início do século XIX, desafiando as condições meteorelógicas e, sobretudo, o barco inimigo das frotas francesas de Napoleão. Não é só necessário defender a própria vida, mas também uma missão: «Este barco é Inglaterra», chega a dizer o capitão num dos seus discursos à tripulação.
Neste contexto, o bom ritmo do filme leva-nos a viver numerosas aventuras no estilo próprio da época. Mas o fascínio desta viagem provém principalmente do seu capitão, muito bem interpretado por Russell Crowe. Dá vida e fundamento ao filme a sua forma de governo, que valoriza os talentos de cada um dos seus homens, que ajuda a crescer a cada um à sua maneira, que se mostra sempre viril nas suas decisões, que por vezes vive o drama das escolhas responsáveis, e que sempre tem como prioridade a coesão dos seus homens.
Vê-se assim que é sempre necessário um capitão, alguém a quem seguir, mesmo (ou sobretudo) nas contrariedades.
29/03/2012
East of Eden (A leste do Paraíso)
Baseado na parte final do romance do Nobel da Literatura John Steinbeck, o primeiro dos filmes protagonizados pelo mítico James Dean é justamente considerado um clássico do cinema. Numa revisitação da história de Caim e Abel, lê-se entre as linhas o tema dum irmão que «mata» o outro e é condenado a viver errante, nas terras «a leste do Paraíso» (Génesis 4).
A tendência moralizante e moralista de Steinbeck é balançada nesta versão para ecrã pelo realizador Elia Kazan, quem pelo contrário prefere questionar uma visão simplista dos «bons» contra os «maus» da fita, e prefere colocar-nos perante personagens fortes, indomáveis, contraditórias.
Diz-se que Kazan teria querido Marlon Brando no papel desempenhado por Dean, e de facto é esta a personagem mais valorizada no filme, aquela que se faz amar mais. Levados também pela namorada dividida entre os irmãos, somos atraídos por este homem a um tempo perigoso e frágil, juvenil e violento, inadaptado.
Apesar do desenlace forçado, ficam no espectador algumas questões abertas sobre uma América que vive sustentada por aqueles que não acreditam nos seus ideais e, mais particularmente, sobre os indivíduos que não encontram lugar certo numa sociedade em crise de valores.
15/03/2012
Cartas ao Pastor Jaakob (Postia pappi Jaakobille)
Certo: não aparenta prometer muito um filme finlandês com praticamente só três personagens, com o orçamento e efeitos especiais deste blog, com uma «banda sonora» composta por breves fragmentos dum nocturno de Chopin, e com uma trama que se pode resumir em 3 linhas.
Ainda assim, a história que une um pastor luterano cego, uma ex-presidiária e um carteiro, tem uma sua força humana que convence. Em pouco mais de uma hora, faz-nos entrar num mundo desconhecido, cheio de emoções quase sempre reprimidas. O mérito da realização é fazê-las ver e compreender, quase com mais clareza ao espectador do que às próprias personagens.
O tema principal questiona o papel do Pastor (no concreto, deste limitado Pastor Jaakob), cuja missão parece esgotar-se quando deixa de receber e enviar cartas de conforto e ajuda a seus seguidores. Aqui vê-se que não se trata dum padre católico (que encontraria sentido ao seu ministério também sem um «povo»), mas da visão luterana do pastor como representante da comunidade que vive em função da mesma. Por isso, em última instância, essa missão entra em crise.
Talvez valha mais a pena deter-se na personagem de Leila, cuja história parece secundária a esta, mas acaba por mostrar-se ainda mais humana e completa.
29/02/2012
Esplendor na relva (Splendor in the grass)
O título deste filme vem duma das mais famosas e belas poesias do escritor do Romantismo inglês William Wordsworth, citada no próprio filme: "Though nothing can bring back the hour of splendour in the grass, / of glory in the flower, / we will grieve not, / rather find strength in what remains behind".
A beleza deste filme é que encarna duma forma poderosa e profunda esta expressão duma experiência perfeitamente humana: a perda da pureza do primeiro amor, da juventude, da inocência própria do coração sincero. Após uma primeira apresentação
duma situação quase idílica, o drama da vida toma o leme na vida dos jovens namorados Bud e Deanie (Warren Beatty e Natalie Wood, no seu melhor).
Recebeu o Óscar ao melhor argumento (quando esses eram prémios sérios), porque a narração, elaborada de forma genial, leva-nos a acompanhar as vidas destes jovens com grande força emotiva e, num inesperado percurso, deixa-nos uma certa inquietação: será que realmente podemos encontrar força só no passado, renunciando no presente aos grandes ideais da juventude?
09/01/2012
Drive – duplo risco (Drive)
Este filme abre com uma perseguição que já se tornou um clássico na indústria cinematográfica, por ser a mais lenta da história dos filmes de carros. Em lugar da típica corrida que deixa atrás camiões e polícias acidentados, o protagonista de Drive desliga os faróis, encosta e deixa passar o perigo. Depois segue.
A história é algo mais típica: um operário duma oficina, que à noite trabalha sem escrúpulos como transportador de delinquentes, e que numa dada altura se deixa envolver emotivamente por uma mãe em perigo. Ainda assim, o argumento tem a capacidade de nos surpreender em vários momentos.
Depois, temos a brilhante interpretação de Ryan Gosling, cuja misteriosa personagem não deixa de nos inquietar com os seus silêncios. Ao mesmo tempo, esses silêncios permitem também uma das mais belas cenas de amor sem palavras (e sem sexo) das últimas décadas.
Também a banda sonora de Cliff Martínez é notável. Ajuda a criar e manter a tensão desses silêncios, e depois acrescenta uma belíssima estética dos anos 80 com alguns temas de valor, como os oferecidos pelos Electric Youth ou por Desire.
23/11/2011
Restless (Inquietos)
Segundo a Bíblia, Enoch era o nome dum neto de Adão e Eva: viveu menos anos do que todos os seus parentes, mas esses seus anos faziam um número perfeito. E este é o invulgar nome do protagonista do poético filme de Van Sant Restless, um jovem inquieto por uma série de perguntas que envolvem a morte e a fragilidade da vida, paradoxalmente ligadas a experiências de beleza e perfeição.
São temas caros ao realizador de Will Hunting, Paranoid Park ou Elephant (mas também de Milk). E são temas que não deixam tranquilo o espectador, fazendo deste título uma espécie de carta de apresentação do que se vai obter no fim da fita. Mas é um paradoxo, porque a medida que a história avança sentimo-nos atraídos pela sua verdade e beleza, compreendendo melhor aquilo que no princípio (ou no trailer) parece quase surreal.
O filme está em pé graças às maravilhosas interpretações dos jovens Mia Wasikowska e Henry Hooper, num quase contínuo primeiro plano que atinge momentos únicos. A seguir, a fotografia e a música complementa.
Uma imagem usada pode servir de chave interpretativa do filme: existe uma espécie de pássaro que canta músicas belíssimas só de manhã, e isto é, explica a protagonista, porque ao adormecer pensa que vai morrer, mas quando acorda de novo no dia seguinte canta a alegria da vida.
18/11/2011
Finding Neverland (À procura da Terra do nunca)
Há autores e obras que permanecem na história da literatura e que, infelizmente, se conhecem mais de forma indirecta do que directa. É o caso dos romances de John Barrie dedicados à mítica e quase mística figura de Peter Pan, a criança que nunca cresceu.
Eis um filme que indirectamente nos aproxima quer do escritor, quer da sua genial personagem. No fundo, o seu realizador Forster pretende explorar um único tema, que encerra ambas histórias: aquela pessoal de Barrie, centrada no seu envolvimento com uma família cheia de crianças obrigadas a crescer, e aquela de Peter Pan, encarnada nalguns eventos fantásticos representados.
«Representação» é uma palavra-chave do filme: re-apresenta histórias, mitos, factos, que reconhecemos na sua universalidade. O teatro também joga um papel importante no desenrolar da acção: nele, difumina-se a fronteira entre o que é e o que poderia ser. É óbvio que neste âmbito joga-se sempre uma ambiguidade, uma espécie de contraposição entre viver o real e a fantasia; mas um olhar comprensivo saberá integrar ambas realidades humanas.
Cheio de ternura quase natalícia e com interpretações inesquecíveis de Johnny Depp e Kate Winslett, vale a pena tirá-lo do fundo das nossas prateleiras e encontrar de novo essa Terra que abre ao eterno.
05/11/2011
I confess (Confesso)
«Montgomery Clift encarna neste filme o perfeito dilema que atravessa sob forma latente todo o cinema de Hitchcock: saber e não poder dizer, ser culpado do que outrem faz». Esta expressão sintética do crítico de cinema e artes visuais Olivier-René Veillon concentra o valor insuperável desta maravilhosa obra-prima.
A confissão a que faz referência o título é o sacramento católico, central no seu necessário segredo para o desenvolvimento da história, mas também a confissão das culpas, que se omite ao longo da mesma e que constitui a genialidade do suspense do cineasta inglês.
Muito simplesmente: nos cinco primeiros minutos do filme apresenta-se um sacristão que confessa um assassinato cometido pouco antes (vestido de padre), do qual o confessor será incriminado. A partir daí, o assassino sabe, o padre sabe, nós sabemos, mas todos estamos impossibilitados de mudar o rumo duma tragédia injusta.
O jovem Clift interpretou o papel da sua vida, e Hitchcock captou com maestria planos e sequências dignos de admiração.
16/06/2011
A árvore da vida (The tree of life)
A pergunta religiosa do homem moderno pode-se sintetizar nesta: se Deus existe, porque existe o mal? Porque as doenças, a morte, os desastres ecológicos, a infelicidade? Malick responde neste filme propondo a beleza da criação e da vida (longe de respostas doutrinais ou morais), visível na natureza, nos arranha-céus de Houston, nas crianças que crescem ou nas belíssimas músicas de Dvorak, Gorecki ou Bach.
Claro que também está presente no filme a resposta cristã: desde o início encontram-se ressonâncias bíblicas, assim como uma visão católica da realidade que encontra expressão no padre que ajoelha numa capela ou numa certa iconografia.
Reduzir esta obra-prima a este aspecto seria fazer o contrário do que se propõe, que é relançar o nosso olhar numa visão completamente nova. Malick, ouso dizer, desafia-nos a ver o mundo desde o ponto de vista de Deus. E abre-nos ao diálogo com Deus, cheio de difíceis questões: a evolução (que evita com elegância a fase da aparição do homem), o nosso lugar no mundo, a vida além deste mundo, a Vida com V grande.
Sem ser simplista, na medida em que isso é possível numa breve recensão, a história (mais uma rapsódia que um romance) resume-se na contraposição de duas estradas: a natural, no seu sentido menos nobre, representada por Brad Pitt, e a da graça, Jessica Chastain. Sean Penn, impressionante, escolheu aquilo que faz o espectador: atravessar o limiar e ver. Como Deus vê.
14/06/2011
Pina
Este é um filme centrado na beleza, e a beleza é algo que não se compreende nem se pode explicar. Pode-se só ver, experimentar. Com efeito, o seu realizador Wenders, e também uma das bailarinas do filme por palavras semelhantes, afirmam que Pina Bausch «confiava muito mais naquilo que se pode ver que naquilo que se pode dizer». E aqui vemos filmagens extraordinárias, como que nos fazem entrar num palco, que ao mesmo tempo não cansa, porque se desdobra em contextos urbanos, salas de espectáculos, lugares monumentais e florestas.
A través da dança, de facto, esta homenagem à recentemente falecida coreógrafa que dá título à longa-metragem é uma poesia visual. Mas não só: também mostra a grandeza humana desta mulher, que não se pode reduzir à pura originalidade da sua arte, mas que se manifesta muito bem ao fazer vir ao de cima o que cada indivíduo é. Sirva como exemplo a cena em que um gesto de alegria que um bailarino realiza é desenvolvido numa coreografia completa.
Predominam as cenas em que uma mulher protagonista se mostra frágil ou debilitada, sinal da profundidade do seu drama humano, e uma pergunta de fundo explicitada quase no fim (antes do fado final em que os olhos são comparados a duas Avé-Marias): «What are we longing for? Where does all this yearning come from?»






