15/03/2012

Cartas ao Pastor Jaakob (Postia pappi Jaakobille)

Klaus Härö, 2009

Certo: não aparenta prometer muito um filme finlandês com praticamente só três personagens, com o orçamento e efeitos especiais deste blog, com uma «banda sonora» composta por breves fragmentos dum nocturno de Chopin, e com uma trama que se pode resumir em 3 linhas.

Ainda assim, a história que une um pastor luterano cego, uma ex-presidiária e um carteiro, tem uma sua força humana que convence. Em pouco mais de uma hora, faz-nos entrar num mundo desconhecido, cheio de emoções quase sempre reprimidas. O mérito da realização é fazê-las ver e compreender, quase com mais clareza ao espectador do que às próprias personagens.

O tema principal questiona o papel do Pastor (no concreto, deste limitado Pastor Jaakob), cuja missão parece esgotar-se quando deixa de receber e enviar cartas de conforto e ajuda a seus seguidores. Aqui vê-se que não se trata dum padre católico (que encontraria sentido ao seu ministério também sem um «povo»), mas da visão luterana do pastor como representante da comunidade que vive em função da mesma. Por isso, em última instância, essa missão entra em crise.

Talvez valha mais a pena deter-se na personagem de Leila, cuja história parece secundária a esta, mas acaba por mostrar-se ainda mais humana e completa.

29/02/2012

Esplendor na relva (Splendor in the grass)

Elia Kazan, 1961

O título deste filme vem duma das mais famosas e belas poesias do escritor do Romantismo inglês William Wordsworth, citada no próprio filme: "Though nothing can bring back the hour of splendour in the grass, / of glory in the flower, / we will grieve not, / rather find strength in what remains behind".

A beleza deste filme é que encarna duma forma poderosa e profunda esta expressão duma experiência perfeitamente humana: a perda da pureza do primeiro amor, da juventude, da inocência própria do coração sincero. Após uma primeira apresentação duma situação quase idílica, o drama da vida toma o leme na vida dos jovens namorados Bud e Deanie (Warren Beatty e Natalie Wood, no seu melhor).

Recebeu o Óscar ao melhor argumento (quando esses eram prémios sérios), porque a narração, elaborada de forma genial, leva-nos a acompanhar as vidas destes jovens com grande força emotiva e, num inesperado percurso, deixa-nos uma certa inquietação: será que realmente podemos encontrar força só no passado, renunciando no presente aos grandes ideais da juventude?

17/02/2012

Autobiografia (Autobiography), de G. K. Chesterton

Lisboa: Diel, 2012 (1936), pp. 394, 21,00€

«Curvando-me em cega credulidade, como é meu costume, diante da mera autoridade e da tradição dos mais velhos, supersticiosamente engolindo uma história que eu não posso testar no momento por experiência ou julgamento privado, sustento firmemente a opinião segundo a qual eu nasci em 29 de Maio de 1874, em Campden Hill, Kensington».

Com típica ironia, Chesterton começa assim a sua Autobiografia, um finíssimo trabalho de lírica e juízo cultural sobre a sua época. Em cada página há um aforismo que valeria a pena citar: ao tratar da sua infância nos dois primeiros capítulos, afirma que «o que é maravilhoso da infância é que nela tudo é uma maravilha»; ou, um pouco depois, que «a adolescência é algo complexo e incompreensível; nem depois de a viver se percebe bem o que é»; etc. etc.

Jornalista e polemista, e escritor de romances, teologia, biografias, ensaios, contos, crítica, poesia e até teatro, é uma figura chave do pensamento contemporâneo. Para os católicos, também é um daqueles convertidos que ajudam a apologética – o que o próprio autor faz no fim deste volume ao narrar a sua conversão.

08/02/2012

Pablo Alborán, En acústico (2011)

Nascido em 1989, Pablo Alborán é um daqueles artistas com talento que sobressai com originalidade no panorama musical actual. Com um único disco de estúdio e este ao vivo, ainda não foi «contaminado» pela indústria musical de carácter mais comercial, embora o seu enorme sucesso leve a pensar que assim poderá acontecer em breve.

As chaves deste talento podem resumir-se em três: uma voz que parece um violoncelo (Stradivarius), uma musicalidade livre com certas influências do flamenco, e uns textos pensados, elaborados, que narram sentimentos além da superficialidade a que estamos habituados. Por isso, esta versão acústica e ao vivo, com escassa produção, mostra ainda melhor a grandeza deste jovem compositor e cantor.

Um exemplo de texto: «Hoy se viste el día de colores; / me levanto lleno de alegría; / hay miles de promesas sin cumplir, / ya ves, pero mira, sigo estando aquí (Volver a empezar).

Em Portugal, este álbum foi número 1 de vendas no início de 2012, e uma sua música com a fadista Carminho deu-lhe uma grande popularidade.

30/01/2012

Liberdade (Freedom), de Jonathan Franzen

Lisboa: Dom Quixote, 2011 (2010), pp. 688, 25,00€

Este romance americano é apresentado por alguns como uma obra-prima do século XXI. É sem dúvida interessante. Sobretudo, porque explora os temas que sempre interessaram a América do Norte (e no fundo a todos nós), no contexto actual. Principalmente se questiona o tema do próprio título: até que ponto as liberdades individuais, que estão nas raízes da mentalidade americana, podem ser postas em discussão em prol do bem comum.

Não pensem que é um livro maçudo e intelectual: é grande, mas é muito ligeiro e lê-se muito bem. Narra-nos as histórias de vários membros de uma família e alguns seus amigos, histórias entrecruzadas que vão e voltam como acontece em qualquer uma das nossas vidas. Está construído numa sequência temporal muito inteligente, que consegue mostrar as últimas décadas do século passado até ao início da «era Obama». Mantém-se também mais ou menos imparcial no que diz respeito a opiniões políticas, só usadas como provocações ao leitor.

Desperta mais perguntas e reflexões das que consegue responder, de maneira que as nossas expectativas podem ficar um pouco desiludidas. Mas também pode ser essa a grande virtude do romance: obriga-nos a sermos nós a pensar.

17/01/2012

Andante festivo para cordas, de Jean Sibelius (1938)

«Esta obra é uma pequena jóia, bastante desconhecida mas duma clareza, duma simplicidade sem pretensões, duma frescura pouco habituais. É uma composição que, ouvida pela primeira vez, chama a atenção, mas é nas seguintes audições que se chega a apreciar na sua beleza.

«O compositor desta maravilha em miniatura é o finlandês Johan Julius Christian Sibelius, mais conhecido como Jean Sibelius. Viveu entre os séculos XIX e XX (1865-1957) e, a pesar da sua ascendência sueca, foi profundamente amnate da Finlândia, das suas paisagens e gentes, algo que plasmou em toda a sua obra.

«Também neste Andante festivo para orquestra de cordas. A pesar da sua aparente simplicidade, a gestação desta peça durou mais de 15 anos, e há estudiosos de Sibelius que a colocam até 30 anos antes da sua estreia na forma definitiva. Seja como for, a beleza desta música de só 4 minutos e meio é indubitável. As tensões que cria são resolvidas em cada instante, aprofundando assim a sua clareza, à qual contribui a construção da mesma apoiada numa célula rítmica de pergunta-resposta».

(Por Ángel Cebolla)

09/01/2012

Drive – duplo risco (Drive)

Nicolas Winding Refn, 2011

Este filme abre com uma perseguição que já se tornou um clássico na indústria cinematográfica, por ser a mais lenta da história dos filmes de carros. Em lugar da típica corrida que deixa atrás camiões e polícias acidentados, o protagonista de Drive desliga os faróis, encosta e deixa passar o perigo. Depois segue.

A história é algo mais típica: um operário duma oficina, que à noite trabalha sem escrúpulos como transportador de delinquentes, e que numa dada altura se deixa envolver emotivamente por uma mãe em perigo. Ainda assim, o argumento tem a capacidade de nos surpreender em vários momentos.

Depois, temos a brilhante interpretação de Ryan Gosling, cuja misteriosa personagem não deixa de nos inquietar com os seus silêncios. Ao mesmo tempo, esses silêncios permitem também uma das mais belas cenas de amor sem palavras (e sem sexo) das últimas décadas.

Também a banda sonora de Cliff Martínez é notável. Ajuda a criar e manter a tensão desses silêncios, e depois acrescenta uma belíssima estética dos anos 80 com alguns temas de valor, como os oferecidos pelos Electric Youth ou por Desire.

28/12/2011

Contos e lendas da tradição cristã, por Lois Rock

Lisboa: Verbo, 2006, pp. 96, 17,00€

«Contos de adultos para crianças» ou «contos de crianças para adultos» são expressões cliché, mas adaptam-se bem a esta breve e simples colecção de sabor quase natalício. Sobretudo, as modernas ilustrações dão-nos a entender imediatamente que o volume não é (ou pelo menos não é só) infantil.

Alguns destes contos são histórias e lendas de santos: são Patrício, santo Isidro, são Cristóvão, Bakhita... Outros narram com imaginação factos que, se não aconteceram, podiam ter acontecido, e assim transmitem valores cristãos. Escritos em modo maduro e poético, são mais sugestivos do que explícitos, pelo que exaltam a nossa capacidade criativa.

O marinheiro, avó da Marisa, que protagoniza o último dos contos, diz a um certo ponto: «Explorei tudo o que me apeteceu neste mundo e agora anseio por descobrir o outro». Pode ser o mote para esta singela leitura.

17/12/2011

Lir, de Wim Mertens (1985)

Wim Mertens é um compositor minimalista belga, nascido em 1953 e ainda activo, que já publicou dezenas de álbuns. De entre eles, Maximizing the audience (1985) destaca-se pela sua novidade: é o primeiro da sua longa carreira em que às suas composições de piano acrescenta a sua voz. Depois dele, outros instrumentos e vozes farão parte do seu vastíssimo repertório.

A composição Lir, de 18 minutos e 18 segundos na sua interpretação original, é por mim considerada a mais bela e profunda de todas: baseada num tema melancólico que se repete com leves variações, no início e no fim da partitura, no seu centro decompõe cada elemento desse tema, explorando como um espeleólogo nas caves mais recônditas do nosso espírito. Impossível que não se alargue a medida que escutamos.

Ainda recordo a primeira vez que ouvi estas notas num programa de rádio especializado em novas músicas. Tomei nota do estranho nome da composição e comprei o disco de 45 rpm. Hoje, as novas tecnologias tornaram tudo muito mais fácil.

11/12/2011

A Sagrada Família

Antoni Gaudì, 1882-

É uma espécie de catedral do nosso século, que pretende dominar a paisagem duma cidade moderna como Barcelona, como as catedrais góticas durante a Idade Média e Moderna. O seu projectista e primeiro arquitecto, cujo processo de beatificação está a decorrer, quis seguir esse exemplo mesmo nos meios de financiamento: são só as ofertas de crentes e visitantes que o tornam um «templo expiatório», e que fazem com que a sua construção já ultrepasse o século desde que começou.

A sua planta, mais ou menos tradicional, tem as dimensões dum campo de futebol. O seu interior pretende assemelhar-se a um bosque, o lugar onde o homem se sente mais bem acolhido segundo Gaudì, enquanto que o seu exterior aponta para o Céu com as suas numerosas agulhas que deverão chegar até aos 170 metros.

Talvez o aspecto mais espectacular são os conjuntos escultóricos, um dos quais foi realizado quase na totalidade pelo próprio Gaudì, o da Natividade. Perfeitamente inserido nas simbologias bíblicas e litúrgicas católicas, com imaginação dá lugar neles a profissões (desde o carpinteiro ao astrólogo), a animais (desde tartarugas a galos), a plantas e pessoas nas mais variadas actividades.

Não vale a pena ver fotografias ou vídeos: é preciso ver para experimentar uma verdadeira maravilha mundial.