29/04/2010

As razões de Bento XVI, de Aura Miguel

Lisboa: Texto, 2010, pp. 93, 9,00€

A única vaticanista que viaja com o Papa publica uma sintética biografia de Bento XVI, onde quase não se fala de Joseph Ratzinger (o «velho eu» do actual Papa): as suas linhas de pensamento, os episódios públicos mais simpáticos da sua vida, o seu dia-a-dia como Papa.

Alguns capítulos são praticamente resumos e citações de suas homilias e discursos, pelo que temos uma síntese extraordinária de cinco anos de pontificado. E é preciso reconhecer que esses textos estão muito bem escolhidos e apresentados, tornando a leitura fascinante e despertando a curiosidade do que vem a seguir.

O título e a capa não são talvez o melhor que se podia fazer, e pelo formato parece um livro pequeno; mas a letra é também pequena e os conteúdos são muito maiores do que a aparência.

Para quem é católico e para quem não é; para quem já conhece alguma coisa e para quem não conhece nada; para quem já gosta de Bento XVI e para quem acha que não gosta. Vale a pena.

18/04/2010

Gimnopédies, de Erik Satie (1888)

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O compositor francês Erik Satie (1866-1925) é talvez mais conhecido pelo seu ser excêntrico do que pelas suas extraordinárias composições.

Com efeito, Satie não se cataloga muito bem entre os compositores impressionistas do final do século XIX, e provavelmente é precursor dos também franceses Ravel ou Debussy, ou até dos minimalistas contemporâneos. Fundou a sua própria igreja, coleccionava artigos iguais e com pouco interesse, dava às suas músicas títulos absurdos.

Gymnopaedia era uma dança celebrativa em honra do deus Apolo, onde os homens de todas as idades dançavam sem armas. Assim, estas três composições que levam este nome podem entender-se como estruturas musicais «desarmadas» de ornamento, simples e circulares.

A sua beleza envolve um certo misticismo, um certo sentimento de saudade e uma profundidade de emoções dignos de se experimentar.

09/04/2010

Sabeduria dum pobre (Sagesse d'un pauvre), de Eloi Leclerc

Braga: Editorial Franciscana, 2009 (1963), pp. 143, 5,25€

Neste romance, conta-se a história dum homem que perde a sua confiança em Deus e nos homens. Aparentemente desiludido com alguns falhanços, isola-se do mundo e até dos seus amigos.

O pormenor, não secundário, é que este homem é são Francisco de Assis. O santo que sempre imaginamos alegre, triunfante no seu desafio à própria família burguesa e à sociedade do seu tempo, seguido por milhares de jovens em poucos anos, sofre esta crise.

É uma crise que toda a gente vive, mais tarde ou mais cedo, nalgum momento da existência. Por isso, é fácil encontrar nesta narração um espelho de preocupações, tentações e caminhos pelos quais todos passámos. O conhecimento da alma do seu autor, o franciscano Leclerc, permite-lhe fazer descrições psicológicas belas e profundas.

A simplicidade da escrita e da narração é, sim, aquilo que imaginamos no grande são Francisco.

04/04/2010

Tudo o que você queria ouvir, dos GNR (1996/2006)

Em 1996 foram dois discos, e em 2006 completaram-se com um «terceiro volume», esta selecção de sucessos chamada «O melhor dos GNR».

Estas músicas levam-nos desde as Dunas («são como divãs / biombos indiscretos de alcatrão sujo») até Ana Lee («se ela se põe de vestidinha / parece logo uma princesinha / num trono de jasmim»); e incluem Mais vale nunca («nunca mais saber / mais vale nunca, nunca mais crescer») ou Quero que tudo vá para o inferno.

Não dizem grande coisa, não são letras particularmente poéticas ou esteticamente inovadoras, mas fazem parte duma «tradição», dum «património», que encantou uma geração ou duas, em parte pela voz do seu vocalista, Rui Reininho, em parte pelo ritmo descontraído e a descrição geralmente positiva das suas personagens e paisagens.

Em absoluto, podem não ser os mais intensos; mas, comparativamente, são do melhor.