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28/04/2012

Margarita e o Mestre, de Mikhail Bulgákov

Lisboa: Relógio d'Água, 2007 (1966), pp. 366, 25,00€


«Um facto, como se costuma dizer, sempre é um facto, e não se pode virar-lhe as costas sem explicações». Até quando estes factos são tão extraordinários como os descritos neste romance, que demorou mais de 10 anos a ser escrito e foi publicado só 20 após a morte do seu autor. Factos que implicam o próprio Diabo, acontecimentos trágicos na Moscovo dos anos 30, Pôncio Pilatos e um tal Ieshua Ha-Nozri.


Sobretudo na primeira parte do livro, destaca-se a força manipuladora do poder estabelecido: com efeito, todas as personagens que se confrontam com estes factos e se implicam neles são postas num manicómio. Há milícias, delatores, guardiães, que se esforçam em manter a ordem que tais factos quebram, e que portanto eliminam ou limitam a liberdade daqueles que os presenciam.

Na segunda parte, que focaliza as personagens que dão título ao romance, esse tema deixa espaço à liberdade em acção de pessoas irredutíveis, à tenacidade de quem não se contenta com o que é politicamente correcto, mas alimenta grandes desejos ideais. Todo um desafio para a Rússia de Estaline e para a Europa do século XXI.

01/02/2009

A sangue frio (In cold blood), de Truman Capote

Lisboa: Dom Quixote, 2006 (1966), pp. 400, 10,00€

Truman Capote declarou ter inventado um novo género literário com este romance: a non-fiction novel. Isto é: um romance baseado em factos históricos, quase jornalístico. Daí a sua originalidade e fama.

É uma grande pretensão, mas sobre tudo é falsa. É evidente que Capote escolheu e determinou o estilo do narrador, a organização temporal, a justaposição de episódios, as descrições, o argumento e, acima de tudo, o tema principal.

A história é real: de facto, Perry Smith e Dick Hickock, os protagonistas do romance, assassinaram quatro membros da família Clutter numa vila americana chamada Holcomb e foram condenados a morte. Capote faz-nos entrar com mestria na vida desta família, desde o dia anterior ao início destes acontecimentos, e faz-nos acompanhar o processo judicial dos acusados nesse estilo pretensamente «frio». São frios os assassinos, é fria a descrição, e por isso fascina-nos a sua aparente objectividade. Mas Capote manipula a história para obter esses efeitos literários que fazem deste um bom romance.

O tema é actual e interessante: trata-se duma crítica ao estilo de vida americano, injusto no tratamento da tragédia desta família, assim como no uso da pena de morte, que acaba por não resolver problema algum. A visão de Capote é pessimista e ateia, mas é inteligente e perspicaz. Vale a pena.