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28/01/2010

As dez figuras negras (Ten little niggers), de Agatha Christie

Lisboa: Asa, 2003 (1939), pp. 192, 10,00€

Quase não precisa apresentação uma escritora tão popular como Agatha Christie. Provavelmente todos os meus leitores terão lido algum dos seus romances ou visto algum dos filmes inspirados neles.

Pela primeira vez sem Hercules Poirot ou Miss Marple, ou qualquer outro detective, As dez figuras negras é talvez a história mais engenhosa e intrigante da Autora. Não há nenhuma personagem a descobrir o difícil desenvolvimento da tragédia: numa ilha incomunicada, dez pessoas acusadas de assassinatos e nunca condenadas são mortas uma a uma. O assassino deve ser um deles, e é o próprio leitor que elabora as suas suspeitas, sempre frustradas pelo capítulo seguinte.

Ao contrário de muitos outros thrillers, a tensão deste romance cresce com o desenrolar da história, e as últimas páginas parece que nunca mais nos dão a resposta que esperamos.

É claro que não podemos pedir mais do que isto a uma escritora popular como Agatha Christie, mas é algo diferente dos habituais best-sellers americanos do quiosque do aeroporto.

03/05/2009

A lenda do santo bebedor (Die Legende von heilingen Trinker), de Joseph Roth

Lisboa: Assírio e Alvim, 1997 (1939), pp. 86, 8,00€

Lê-se numa hora esta breve história, que de lenda tem só o título. Escrita em quinze capítulos de poucas páginas, quando damos por isso, já acabámos.

Joseph Roth não deve ser confundido com Philip Roth. O nosso autor não é judeu americano, escritor de dezenas e dezenas de best-sellers. Pelo contrário, Joseph Roth é austríaco, viveu na primeira metade do século XX e foi principalmente jornalista, embora tenha escrito alguns romances.

Esta lenda, em particular, foi publicada postumamente, e narra um facto fora do comum: Andreas Kartak, um sem abrigo que dorme debaixo das pontes do Sena em Paris, recebe dinheiro de formas inusitadas, com um pedido: deverá devolver a quantia a Santa Teresinha do Menino Jesus, numa igreja da cidade.

Por uma parte, a história destaca a tentativa moral de Andreas, paradigma cristão da procura de resposta à graça, nunca realizada. Por outra parte, deixa-nos uma reflexão: será que o nosso dia-a-dia não está também cheio de «milagres»? Lá vai uma citação para pensarmos:

«Não há nada a que nos possamos habituar tão facilmente como aos milagres, quando estes acontecem duma forma sucessiva. Sim! A natureza do homem é tal, que este se chega a tornar mau, quando não lhe é concedido ininterruptamente tudo aquilo que um destino casual e temporário lhe pareceu prometer» (p 46).