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18/01/2014

O ofício de viver, de Cesare Pavese

Lisboa: Relógio d'Água, 2004, pp. 400, 19,90€
Ao usar o adjectivo «erudito» aplicado a um Autor, por vezes é hoje revestido duma conotação negativa, como se o vasto saber fosse uma espécie de má-criação para um leitor que se desclassifica como medíocre.
Eruditos e geniais são certamente os diários do romancista e poeta italiano Pavese recolhidos nesta obra. Percorrendo os últimos 15 anos da sua vida, entre 1935 e 1950, esta figura chave da literatura europeia do século XX reflecte sobre a criação literária, o sofrimento, as suas leituras, a procura de sentido, o peso das palavras, entre outros muitos temas. Abordam-se esses temas de forma muito fragmentária, dado que as entradas de diário são geralmente breves, mas alguns deles repetem-se e reaparecem com renovada maturidade.

A forma do diário permite percorrer a vida pública deste escritor, ao passo que se entra na sua intimidade. Vai abrindo-nos o olhar à realidade que observa e descreve, que diz ser muito maior do que ele, e confessa que o faz tendo já perdido a batalha, porque «nunca se viu que uma poesia mudasse as coisas». Com momentos de profundidade insólita, nas suas reflexões laicas e sem fé à procura de si mesmo, é uma leitura que não deixará indiferente a ninguém.


14/12/2012

A infância de Jesus, de Joseph Ratzinger/Bento XVI

Lisboa: Principia, 2012, pp. 112, 11,90€

Aos seus 85 anos, o Papa Bento XVI completa a sua trilogia que medita sobre a vida de Jesus de Nazaré. Cada volume pode ler-se independentemente, mas em particular esta terceira entrega está dedicada a um universo muito diferente dos anteriores: a infância de Jesus, separada por uns 20 anos do resto da sua vida. E também porque o livro é descrito pelo autor como um «pórtico» dos outros dois volumes.

Para aqueles leitores que se deixem levar pelos preconceitos duma certa comunicação social, é preciso dizer que a narrativa é perfeitamente compreensível e singela. Será esta talvez a maior virtude dum sábio: dizer coisas muito profundas duma maneira tão simples que cada um se sente interpelado ao seu próprio nível.

A chave de leitura, com efeito, é a necessidade de confrontar-se com os conteúdos apresentados. Como o autor refere no seu prefácio, estuda-se antes de mais uma componente histórica dos textos que nos falam de Jesus, mas há depois uma segunda série de interrogações a colocar: «o que foi dito é verdade? Tem a ver comigo? Se sim, de que modo me diz respeito?». Eis a riqueza da leitura!

17/02/2012

Autobiografia (Autobiography), de G. K. Chesterton

Lisboa: Diel, 2012 (1936), pp. 394, 21,00€

«Curvando-me em cega credulidade, como é meu costume, diante da mera autoridade e da tradição dos mais velhos, supersticiosamente engolindo uma história que eu não posso testar no momento por experiência ou julgamento privado, sustento firmemente a opinião segundo a qual eu nasci em 29 de Maio de 1874, em Campden Hill, Kensington».

Com típica ironia, Chesterton começa assim a sua Autobiografia, um finíssimo trabalho de lírica e juízo cultural sobre a sua época. Em cada página há um aforismo que valeria a pena citar: ao tratar da sua infância nos dois primeiros capítulos, afirma que «o que é maravilhoso da infância é que nela tudo é uma maravilha»; ou, um pouco depois, que «a adolescência é algo complexo e incompreensível; nem depois de a viver se percebe bem o que é»; etc. etc.

Jornalista e polemista, e escritor de romances, teologia, biografias, ensaios, contos, crítica, poesia e até teatro, é uma figura chave do pensamento contemporâneo. Para os católicos, também é um daqueles convertidos que ajudam a apologética – o que o próprio autor faz no fim deste volume ao narrar a sua conversão.

13/07/2011

São Francisco, de Raoul Manselli

Petrópolis: Vozes, 1997, pp. 331, 21,00€

Existem inúmeros volumes dedicados à figura de são Francisco de Assis. Até porque já nos primeiros anos após a sua morte vários autores narraram os factos mais relevantes da sua vida, e ainda outros elaboraram lendas e histórias cheias de eventos miraculosos.

O volume proposto coloca como premissa um estilo moderno de fazer história, a partir de um modelo crítico baseado na confrontação das diferentes fontes franciscanas, na pesquisa detalhada e na análise exaustiva dos documentos considerados indubitáveis.

Assim, Manselli escreve um livro histórico de grande realismo e profundidade, que põe em relevo os factos centrais da vida do santo e que actualiza as grandes questões do franciscanismo de todos os tempos. Com um tom sóbrio e imparcial, leva-nos a conhecer o contexto histórico de Francisco e do nascimento da sua Regra. Um ponto de referência evidente para quem se queira aproximar de ambos.

28/12/2009

O aborto de Deus, de Alain Decaux

Lisboa: Quetzal, 2004, pp. 308, 10,00€

A genialidade desta vida de São Paulo é a sua contemporaneidade. É como ler um guia turístico, em que o Autor nos faz percorrer os lugares significativos da vida do protagonista.

Decaux delicia-nos com os seus conhecimentos da geografia e orografia, da Grécia e a Roma clássicas, da mitologia, das etimologias e das línguas, das fontes bíblicas e da teologia, dos estudos e biografias mais modernos deste santo cristão.

A história desta conversão ainda hoje não pode deixar indiferente: o fariseu Saulo, judeu observante e perseguidor dos primeiros discípulos de Cristo, torna-se em pouco tempo Paulo, o mais audaz desses discípulos. Esta biografia narra estas mudanças duma forma acessível a todos, com profundidade mas sem ser complicada ou excessivamente erudita.

17/09/2009

Confissões, de Santo Agostinho

Lisboa: Casa da Moeda, 2000 (398), pp. 780, 10,60€

Em sentido próprio, esta é a primeira autobiografia da história da literatura universal. Anteriormente, encontramos o discurso de defesa pronunciado por Sócrates na Apologia que escreve o seu sucessor Platão, ou o relatório das campanhas militares do geral Julius Caesar narrado nos seus Comentários. Mas Agostinho é o primeiro que põe em evidencia um percurso pessoal de toda a sua pessoa, de toda a sua vida.

Neste clássico, são memoráveis e famosas algumas páginas de extraordinária beleza. Cabe destacar a descrição da relação de Agostinho com sua mãe Mónica, que com as suas lágrimas obtém a conversão do filho; ou então as páginas sobre o seu filho Adeodato, sobre a morte do seu melhor amigo, com o qual partilhava «uma só alma»...

Dirigindo-se a Deus, escreve: «Tarde vos amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde vos amei! Vós estáveis dentro de mim, mas eu estava fora, e fora de mim vos procurava» (10,27). Ou: «Fizeste-nos para Ti e inquieto está o nosso coração enquanto não repousar em Ti» (1,1).

Uma confissão é para muitos fonte de curiosidade, e sabe-se que Santo Agostinho teve muitos pecados de que se arrepender. Mas atenção: o título da obra refere-se não só à confessio peccati, à confissão dos pecados no sentido moderno, mas também à confessio laudis, a confissão do louvor a Deus. Por isso, é um clássico da espiritualidade de todos os tempos e de todas as tendências.

08/09/2009

Thomas More, de Peter Ackroyd

Lisboa: Bertrand, 2003 (1998), pp. 301, 30,00€

Recentemente, um amigo e professor italiano explicou-me porque é que os melhores biógrafos pertencem à tradição anglo-saxónica: o pragmatismo característico deles opõe-se a uma visão de corte marxista que vê a história como uma série de processos sociais, em que o indivíduo é posto em segundo plano.

Desde este ponto de vista, Peter Ackroyd é um mestre anglo-saxónico. As suas muitas obras, entre as quais se destacam as biografias literárias de figuras como T. S. Eliot ou W. Shakespeare, colocam sempre o indivíduo no centro da história. A pessoa é protagonista das suas acções, obras, e também do seu destino.

Ackroyd é também um biógrafo genial na sua escrita. Sempre com grande equilíbrio, mostra o seu domínio das fontes históricas, sem carregar o texto com demasiadas citações, a pesar de serem subjacentes ao mesmo. Em especial, é genial a escolha duma metáfora para cada capítulo, uma chave de interpretação dum período ou dum evento importante, que desenvolve como imagem simples mas poderosa.

Em particular, esta vida de Thomas More é um retrato inteligente e equilibrado duma figura polémica no seu tempo e complexa na sua evolução pessoal. A unidade da vida deste homem político desvenda-se em cada página, na ligação entre a sua implacável fé cristã medieval e o seu amor pela lei como guardiã da ordem que essa fé simboliza, na altura ameaçada pelo individualismo, a Reforma e o seu melhor amigo: o Rei Henrique VIII.

16/04/2009

Madre Teresa: Vem, sê a minha luz (Come, be my light), de Brian Kolodiejchuck

Lisboa: Aletheia, 2008, pp. 393, 19,00€

Kolokiejchuck, de nacionalidade canadiana, nunca poderá esquecer aquela manhã em que encontrou Madre Teresa de Calcutá no pátio da Casa Mãe das Irmãs da Caridade em Roma. A irmã dele tinha recebido no dia anterior a medalha que a Madre impunha às religiosas, e ele tinha assistido à cerimónia, tendo já abandonado o seminário em que começara os estudos para se tornar sacerdote. Madre Teresa disse-lhe: «Um dia gostava de lhe impor também a Si uma medalha», e foi-se embora.

Foi o início dum novo percurso de vida para Kolokiejchuck: tornou-se sacerdote e tornou-se um dos primeiros membros masculinos da congregação fundada por Madre Teresa.

É evidente que as páginas de cartas e escritos recolhidas nesta obra, e até agora inéditas, estão cheias de imagens e de encontros entre o Autor e a sua Mestre. Cheias de ternura e comoção, descrevem a paixão incansável desta mulher que mudou a vida de todo aquele que com ela se encontrava. Não pela sua genialidade, mas pela transparência da sua mensagem e da proximidade de Deus.

Destacam a tenacidade e a fortaleza de Madre Teresa, sublinham a sua humildade, não escondem a sua falta de correcção política. Em suma, uma lição para qualquer ser humano inteligente.