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14/12/2009

Versos, de Amália Rodrigues

Lisboa: Cotovia, 2005 (1997), pp. 125, 12,00€

«O que distingue os poetas / os faz distintos da gente / é dizer em duas letras / o que toda a gente sente». Será que Amália se pode incluir na definição de «poeta» que ela própria dá nesta quadra?

A colecção de Versos que apresentamos quer responder «sim» a esta pergunta, colocando nestas breves páginas (com muito espaço branco, mas pouco bem apresentadas) uma colecção de poemas gravados, poemas não gravados, poemas cantados e umas cartas em verso.

A simplicidade do estilo não poderia ser maior, facto que pode ser considerado virtude ou limite. Os amantes da poesia clássica encontrarão quadras tão simples que parecem obra duma criança, e hão-de concluir que musicadas podem ter um seu valor, mas que em papel não prestam. Pelo contrário, aqueles que estiverem pouco familiarizados com a experimentação literária e com os recursos estilísticos requintados encontrarão uns textos de fácil leitura, lineares, compreensíveis à primeira vista.

Ambos tipos de leitores, porém, deverão reconhecer que o conteúdo destes versos, por muito simples e essencial que seja, brilha pela sua força e universalidade. Aqueles sentimentos de amor, tristeza, paixão e ternura pertencem-nos a todos. A fim de contas, dizem, em duas letras, «o que toda a gente sente».

30/11/2009

Sonetos (Sonnets), de William Shakespeare

Lisboa: Bertrand, 2002 (1609), Edição de Vasco Graça Moura, pp. 342, 25,00€

Numa velha antologia encontro recolhidos os sonetos números 12, 18, 23, 29,30, 60, 65, 66, 73 e 116. Pode ser boa ideia começar por estes, para descobrir neles algumas das chaves da poética do maior génio da literatura inglesa.

Já se afirmou que a forma poética do Soneto é a mais perfeita, com os seus 14 versos. Salvo raríssimas excepções, Shakespeare utiliza sempre uma estrutura de três grupos de quatro versos, mais um dístico final; isto é, um esquema 4-4-4-2. Suficientemente simétrico e rimado, perfeitamente silábico no clássico ritmo do pentâmetro jâmbico inglês, e ao mesmo tempo com um certo desequilíbrio entre as três proposições e a conclusão final, constituem um perfeito exercício de maestria linguística, uma perfeita imperfeição.

A tradução, certamente livre, que Vasco Graça Moura oferece nesta edição, propõe diferentes tentativas de transposição destas formas para português, algumas mais felizes do que outras. Para o leitor pouco familiarizado com o inglês da época isabelina, porém, são uma boa maneira de aproximação a formas poéticas complexas, longínquas da banalidade contemporânea.

Muitas interpretações se deram destes Sonetos, e provavelmente aí reside a sua grandeza, como no teatro deste mesmo Autor. A amizade, o amor, a traição, a vida e a morte, a misteriosa «mulher oscura», fazem desta leitura um feliz reecontro com um génio universal e eterno.

11/11/2009

O pórtico do mistério da segunda virtude, de Charles Péguy

Lisboa: Grifo, 1998 (1912), pp. 205, 14,00€

A França de São Martinho sempre deu à Igreja Católica grandes homens de cultura, e um deles é, sem dúvida, Charles Péguy. No princípio do século XX, este poeta e crítico torna-se uma das figuras mais relevantes do panorama cultural da França republicana e laica, com um percurso pessoal que vai do socialismo até a uma conversão pouco pacífica, sempre à margem do establishment da elite intelectual católica.

Péguy escreve teatro e poesia, para além de ensaios. Mas a barreira do género literário é complexa neste autor: o seu teatro é irrepresentável (com crianças a ressuscitar em cena ou passarinhos que voam a chilrar, por exemplo), e a sua poesia é sempre dramática, é sempre um diálogo.

Neste monólogo teatral chamado «O pórtico do mistério da segunda virtude» (que se refere à esperança), as vozes poéticas meditam sobre esta virtude, com imagens que impressionam o leitor: a esperança tem o rosto dum pai que trabalha nos campos para sustentar a sua família, ou duma criança que vai a frente e atrás numa procissão do Corpo de Deus.

A presente edição conta com uma notável introdução, que introduz nas chaves da biografia de Péguy e nalguns elementos da sua poética e visão do mundo. É daquelas que vale a pena ler.