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15/11/2012

À espera de Moby Dick, de Nuno Amado

Lisboa: Leya, 2012, pp. 243, 14,50€

Não é muito comum encontrar um romance contemporâneo em português com um subtítulo tão comprometido como este: «Um homem em busca de si próprio». O seu autor, nascido em 1978, não tem a pretensão de chegar a ser número 1 de vendas, mas a sua tentativa de explorar a psicologia duma perda assume aqui um empenho humano de algum interesse.

A obra narra um percurso humano de descoberta de si próprio, numa situação de crise e dum cativante radicalismo. Desde a primeira página, em que o narrador anuncia quase contrariado: «Não me vou matar», acompanhamo-lo até à descoberta de «sete biliões de motivos para não me matar», que seriam equivalentes ao número de habitantes do mundo.

Entretanto, tenta envolver-nos numa singela fuga de «aquilo-que-aconteceu», num mundo em que todos fogem dalguma coisa. Ao leitor, uma provocação: anda também a fugir de si mesmo? E há alguma razão para continuar a esperar?

28/04/2012

Margarita e o Mestre, de Mikhail Bulgákov

Lisboa: Relógio d'Água, 2007 (1966), pp. 366, 25,00€


«Um facto, como se costuma dizer, sempre é um facto, e não se pode virar-lhe as costas sem explicações». Até quando estes factos são tão extraordinários como os descritos neste romance, que demorou mais de 10 anos a ser escrito e foi publicado só 20 após a morte do seu autor. Factos que implicam o próprio Diabo, acontecimentos trágicos na Moscovo dos anos 30, Pôncio Pilatos e um tal Ieshua Ha-Nozri.


Sobretudo na primeira parte do livro, destaca-se a força manipuladora do poder estabelecido: com efeito, todas as personagens que se confrontam com estes factos e se implicam neles são postas num manicómio. Há milícias, delatores, guardiães, que se esforçam em manter a ordem que tais factos quebram, e que portanto eliminam ou limitam a liberdade daqueles que os presenciam.

Na segunda parte, que focaliza as personagens que dão título ao romance, esse tema deixa espaço à liberdade em acção de pessoas irredutíveis, à tenacidade de quem não se contenta com o que é politicamente correcto, mas alimenta grandes desejos ideais. Todo um desafio para a Rússia de Estaline e para a Europa do século XXI.

21/04/2012

Doutor Jivago, de Boris Pasternak

Lisboa: Sextante Editora, 2010 (1957), pp. 562, 29,90€

Um dos grandes romances da literatura do século XX, um dos grandes romances russos de sempre: um clássico.

A um leitor ocidental contemporâneo chama a atenção a grande quantidade de personagens do romance (algumas edições até contêm um índice de nomes). São centenas deles, cada um com nome, apelido e patronímico, cada um com a sua história, com o seu percurso de vida único e irrepetível. Como os numerosos comboios do romance, cada um com o seu itinerário e as suas paragens, com o seu destino.

De facto, este parece o tema predominante do romance, além das histórias pessoais dos seus protagonistas principais, humanas e fascinantes. Num contexto de socialismo, de estatalismo uniformador, de colectivização e de alienação do indivíduo, Pasternak faz emergir o «eu» de cada ser humano, na sua maravilhosa unicidade. E faz perceber como é a pessoa quem protagoniza a história, e não os sindicatos, a Revolução de Outubro ou o regime soviético.

Com uma visão muito afastada de qualquer moralismo ou lógica do sucesso, Pasternak apresenta, de facto, uma realidade cativante que produz a adesão simples aos factos, à vida. Não é por acaso que a tradução literal do apelido do protagonista, Jivago, significa «o vivente».

30/01/2012

Liberdade (Freedom), de Jonathan Franzen

Lisboa: Dom Quixote, 2011 (2010), pp. 688, 25,00€

Este romance americano é apresentado por alguns como uma obra-prima do século XXI. É sem dúvida interessante. Sobretudo, porque explora os temas que sempre interessaram a América do Norte (e no fundo a todos nós), no contexto actual. Principalmente se questiona o tema do próprio título: até que ponto as liberdades individuais, que estão nas raízes da mentalidade americana, podem ser postas em discussão em prol do bem comum.

Não pensem que é um livro maçudo e intelectual: é grande, mas é muito ligeiro e lê-se muito bem. Narra-nos as histórias de vários membros de uma família e alguns seus amigos, histórias entrecruzadas que vão e voltam como acontece em qualquer uma das nossas vidas. Está construído numa sequência temporal muito inteligente, que consegue mostrar as últimas décadas do século passado até ao início da «era Obama». Mantém-se também mais ou menos imparcial no que diz respeito a opiniões políticas, só usadas como provocações ao leitor.

Desperta mais perguntas e reflexões das que consegue responder, de maneira que as nossas expectativas podem ficar um pouco desiludidas. Mas também pode ser essa a grande virtude do romance: obriga-nos a sermos nós a pensar.

04/10/2011

Pela estrada fora (On the road), de Jack Kerouac

Lisboa: Relógio d'Água, 2011 (1955), pp. 344, 19,00€

«“We gotta go and never stop going till we get there” “Where we going, man?” “I don't know but we gotta go”». É talvez o mais célebre diálogo, não só deste romance, como de toda uma geração. Chamada nos anos 50 e 60 de geração beat, descreve os grupos de jovens «rebeldes» à volta do jazz, a marijuana e o amor livre.

Lançados pelas estradas dos Estados Unidos, vão, andam, sem parar, mas também sem saber aonde. Aliás, no desenvolvimento deste romance paradigmático deste movimento literário, percebe-se que a chegada ao ponto prefixado é quase que uma tragédia: a monotonia e o burguesismo contra o que se rebelam.

Se bem toda esta imagística está hoje superada, há no livro belíssimas sugestões ideais, que infelizmente também ficaram obscurecidas pelo cepticismo contemporâneo. Exemplos: «Tenho seguido ao longo de toda a vida as pessoas que me interessam, os loucos, os loucos por viver, loucos por falar, loucos por ser salvos, desejosos de tudo ao mesmo tempo». «Tentava comunicar-lhe a minha excitação sobre a vida e sobre as coisas que poderíamos fazer juntos. Estávamos deitados, olhando para o tecto e perguntando-nos o que teria Deus pensado para fazer a vida tão triste». «Nunca me senti melhor e mais feliz com o mundo e olhando para crianças maravilhosas que brincam ao Sol»...

15/12/2010

Eu não tenho medo (Io non ho paura), de Nicolò Ammaniti

Lisboa: Dom Quixote, 2003 (2001), pp. 192, 13,00€

«Quando era criança sonhava com frequência com monstros (…) e conseguia enganá-los». É Michele quem assim fala, uma criança de nove anos que vive no Sul da Itália e que, apesar de descobrir o mal nos adultos que o rodeiam, não tem medo nem desses adultos nem do próprio mal.

O sucesso do romance está numa narração muito bem construída, com uma tensão dramática crescente, e numa ambientação sensacional no calor estivo italiano. Mas o seu fascínio vem de dois aspectos muito sugestivos: a amizade entre crianças e o desejo de vencer o mal com o bem.

Num passeio de bicicleta, Michele encontra por acaso um buraco numa casa em ruínas, onde uma outra criança, Filippo, está presa. Não morta, como ele pensa inicialmente, mas sim esfomeada e presa por grilhões e sequestradores. «Tu e eu somos iguais», chegarão a dizer, nesta promitente ajuda que Michele oferece.

O drama cresce quando Michele descobre que são o próprio pai dele e seus amigos os protagonistas do sequestro. Mas não está disposto a ceder no seu propósito e, numa heróica cena final, demonstra não ter medo. Aliás, demonstra que nós nunca devemos ter medo.

10/12/2010

A estranha vida de Nobody Owens (The graveyard book), de Neil Gaiman

Lisboa: Presença, 2010 (2008), pp. 304, 13,00€

De facto, é uma vida estranha aquela duma criança encontrada num cemitério por um casal falecido algum século atrás. Nobody, a personagem principal do romance, é um «Ninguém», porque os seus pais e irmã foram mortos nas primeiras páginas do livro e passou a viver num cemitério, junto das personagens mais rebuscadas das várias gerações de homens e mulheres lá sepultados.

Como quase todos os romances de Gaiman, explora-se assim uma fronteira entre o mundo tal e como o conhecemos e outros mundos, em parte fantásticos e em parte muito mais reais do que as aparências do nosso dia-a-dia. A riqueza do sentido do mistério que rodeia esta história não é só sugestiva: remete para o modo de conceber a realidade, o mundo, a vida e a morte.

Talvez seja este o aspecto mais intrigante, misterioso e belo: a relação entre vida e morte que o romance problematiza. Nobody é humano e por isso cresce e desenvolve as suas capacidades, ao passo que o resto das personagens do cemitério ficam eternamente com a mesma idade e qualidades. Sem grandes filosofias ou metafísicas, o romance leva-nos por mundos que pareciam inexistentes.

09/04/2010

Sabeduria dum pobre (Sagesse d'un pauvre), de Eloi Leclerc

Braga: Editorial Franciscana, 2009 (1963), pp. 143, 5,25€

Neste romance, conta-se a história dum homem que perde a sua confiança em Deus e nos homens. Aparentemente desiludido com alguns falhanços, isola-se do mundo e até dos seus amigos.

O pormenor, não secundário, é que este homem é são Francisco de Assis. O santo que sempre imaginamos alegre, triunfante no seu desafio à própria família burguesa e à sociedade do seu tempo, seguido por milhares de jovens em poucos anos, sofre esta crise.

É uma crise que toda a gente vive, mais tarde ou mais cedo, nalgum momento da existência. Por isso, é fácil encontrar nesta narração um espelho de preocupações, tentações e caminhos pelos quais todos passámos. O conhecimento da alma do seu autor, o franciscano Leclerc, permite-lhe fazer descrições psicológicas belas e profundas.

A simplicidade da escrita e da narração é, sim, aquilo que imaginamos no grande são Francisco.

16/02/2010

A ponte de San Luis Rey (The bridge of San Luis Rey), de Thornton Wilder

Lisboa: Difel, 1990 (1927), pp. 120, 6,00€

Uma ponte de cordas parte-se numa colónia espanhola do Perú, no dia 20 de Julho de 1714. Cinco pessoas que a atravessavam morrem. Frei Junípero, frade franciscano italiano em missão, coloca uma questão intemporal: «Porque aqueles cinco?»

Thornton Wilder (1897-1975), aclamado novelista e dramaturgo americano, ganhou um Pulitzer por este romance, para além de outros dois por peças teatrais. Porque essa pergunta que coloca surge diante de qualquer tragédia, natural ou de ordem humana, por pequena que seja.

«Há uma direcção ou significado na vida para além da vontade do indivíduo?», questiona uma personagem. A esta pergunta tenta responder o romance, que decorre desde uma primeira parte titulada: «Talvez um acidente», até à quinta titulada: «Talvez uma intenção».

Este «talvez» declina-se na investigação sobre as vidas daqueles cinco: uma Marquesa e a sua criada, um de dois irmãos gémeos, um homem de letras reformado e o filho duma actriz famosa. Ao leitor, a última tomada de posição diante dos factos.

28/01/2010

As dez figuras negras (Ten little niggers), de Agatha Christie

Lisboa: Asa, 2003 (1939), pp. 192, 10,00€

Quase não precisa apresentação uma escritora tão popular como Agatha Christie. Provavelmente todos os meus leitores terão lido algum dos seus romances ou visto algum dos filmes inspirados neles.

Pela primeira vez sem Hercules Poirot ou Miss Marple, ou qualquer outro detective, As dez figuras negras é talvez a história mais engenhosa e intrigante da Autora. Não há nenhuma personagem a descobrir o difícil desenvolvimento da tragédia: numa ilha incomunicada, dez pessoas acusadas de assassinatos e nunca condenadas são mortas uma a uma. O assassino deve ser um deles, e é o próprio leitor que elabora as suas suspeitas, sempre frustradas pelo capítulo seguinte.

Ao contrário de muitos outros thrillers, a tensão deste romance cresce com o desenrolar da história, e as últimas páginas parece que nunca mais nos dão a resposta que esperamos.

É claro que não podemos pedir mais do que isto a uma escritora popular como Agatha Christie, mas é algo diferente dos habituais best-sellers americanos do quiosque do aeroporto.

18/01/2010

Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?, de António Lobo Antunes

Lisboa: Leya, 2009, pp. 375, 18,00€

Deixando de lado as recensões e críticas a esta obra para quem goste de erudição, para o leitor comum este livro propõe um mergulho numa experiência de vida. Não é imediato compreender como isto acontece, mas basta deixar-se levar, sem essa pretensão. Um pouco como dizia John Keats em relação à poesia: é como mergulhar num lago, sem a preocupação de chegar à beira.

De facto, a escrita de António Lobo Antunes é provavelmente a mais genial que exista neste momento em língua portuguesa. E, se no princípio custa um pouco sair da gramática e pontuação habituais, depois de algumas páginas perguntamo-nos como será aborrecido e já sabido ler no estilo tradicional...

A sua força e a sua debilidade é ser um romance sem história (sem plot, na terminologia inglesa): personagens congelados em fotografias que reúnem passado, presente e futuro; ambientes facilmente reconhecíveis; a beleza e o sofrimento ligados aos mais comuns sentimentos humanos. «Talvez fosse a que perseguimos desde sempre e estava ali à mercê, se torna ela mesma os passos e as vozes, afinal recuerámo-la», esta experiência vital: «são pessoas, episódios, lembranças, o sótão poeirento que compõe uma existência» (p. 356).

15/11/2009

Orgulho e preconceito (Pride and prejudice), de Jane Austen

Lisboa: Europa-América, 1989 (1813), pp. 284, 7,00€

«É uma verdade mundialmente conhecida que um homem solteiro que tem uma grande fortuna necessita encontrar uma esposa».

Hertfordshire, início do século XIX. Três histórias de amor misturam-se numa desajeitada família da burguesia inglesa. Lydia, Jane e Elisabeth, três das cinco irmãs da família Bennet, terão o seu happy ending só depois de longas e intricadas peripécias.

Mas esta novela, um clássico adaptado ao cinema em várias ocasiões (nem sempre com o mesmo sucesso), é mais do que esta história de alguns dramas sentimentais. Para além de descrever com ironia e simpatia a sua época, a Autora encontra neste emaranhado de relações problemas, dificuldades e alegrias com que todo ser humano se depara ao longo da vida. A começar pelos temas que o próprio título enuncia: o orgulho e o preconceito.

Jane Austen tem um lugar de prestígio na história da literatura, e não é imerecido. Foi muito inovadora neste tratamento dos argumentos e temas do romance, e a sua escrita é tão leve que não damos pelas horas a passar.

30/09/2009

Frankenstein, de Mary Shelley

Lisboa: Leya, 2009 (1818), pp. 240, 5,95€

Um «clássico da literatura» não é necessariamente um livro lido pela maioria das pessoas, nos tempos que correm. Por isso, vale a pena retomar de vez em quando alguma das obras-mestras da literatura que encontramos nos móveis velhos da nossa biblioteca.

Frankenstein é uma destas obras. Victor, um jovem cientista, anda a procura do segredo da vida. Com a ajuda de vários membros de pessoas falecidas, consegue dar vida a um Ser, de características em parte humanas e em parte monstruosas, que se esforçará sem sucesso por integrar-se no mundo, tentará vingar-se do seu arrependido «criador» e finalmente vagueará sem rumo.

A riqueza da história não é tanto o seu argumento como os seus temas: Pode o homem brincar a ser Deus? Pode o homem criar a vida e descobrir aquela faísca que a produz? Qual é o limite entre o que é humano e o que é desumano? Até que ponto é moralmente lícito criar ou ser dono dum outro ser?

São perguntas de grande alcance, que este romance coloca com originalidade, proximidade e muita ternura. Perguntas do homem de todos os tempos.

03/05/2009

A lenda do santo bebedor (Die Legende von heilingen Trinker), de Joseph Roth

Lisboa: Assírio e Alvim, 1997 (1939), pp. 86, 8,00€

Lê-se numa hora esta breve história, que de lenda tem só o título. Escrita em quinze capítulos de poucas páginas, quando damos por isso, já acabámos.

Joseph Roth não deve ser confundido com Philip Roth. O nosso autor não é judeu americano, escritor de dezenas e dezenas de best-sellers. Pelo contrário, Joseph Roth é austríaco, viveu na primeira metade do século XX e foi principalmente jornalista, embora tenha escrito alguns romances.

Esta lenda, em particular, foi publicada postumamente, e narra um facto fora do comum: Andreas Kartak, um sem abrigo que dorme debaixo das pontes do Sena em Paris, recebe dinheiro de formas inusitadas, com um pedido: deverá devolver a quantia a Santa Teresinha do Menino Jesus, numa igreja da cidade.

Por uma parte, a história destaca a tentativa moral de Andreas, paradigma cristão da procura de resposta à graça, nunca realizada. Por outra parte, deixa-nos uma reflexão: será que o nosso dia-a-dia não está também cheio de «milagres»? Lá vai uma citação para pensarmos:

«Não há nada a que nos possamos habituar tão facilmente como aos milagres, quando estes acontecem duma forma sucessiva. Sim! A natureza do homem é tal, que este se chega a tornar mau, quando não lhe é concedido ininterruptamente tudo aquilo que um destino casual e temporário lhe pareceu prometer» (p 46).

12/03/2009

1984, de George Orwell

Lisboa: Antígona, 2007 (1948), pp. 314, 16,00€

Quando foi escrito em 1948, num trocadilho de números, o que para nós é hoje passado quase remoto era um futuro longínquo. Mas ainda hoje este romance futurista é um clássico da modernidade.

Mais do que utopia, deve falar-se de distopia, isto é, da criação dum mundo ideal que se torna inimigo terrível para os seus habitantes. Habitantes que, em 2009, podemos ser nós próprios.

O romance que criou a expressão «Grande Irmão», quando ainda não era possível sequer sonhar com tecnologias digitais, internet e satélites, apresenta algumas personagens que tentam fugir desse mundo distópico. São aqueles com quem tentamos identificar-nos, pois vemos que não se conformam ao totalitarismo imperante. Muito actual, dado que assistimos também hoje a certos totalitarismos disfarçados de liberdade (jornalístico, político, mediático...).

A chave de leitura: a própria humanidade, reflectida nalguns trechos tão significativos como este: «Eles [o Poder] podem-nos obrigar a dizer tudo, tudo o que entenderem... mas não nos podem fazer acreditar no que dissermos. Dentro de nós eles não entram. O fundo do coração, cujo funcionamento até para nós constitui um mistério, há-de ser sempre inexpugnável».

18/02/2009

O estrangeiro (L'étranger), de Albert Camus

Lisboa: Livros do Brasil, 2006 (1942), pp. 118, 9,00€

«Hoje morreu a mãe. Ou talvez ontem, não sei. Recebi um telegrama do asilo: “Mãe morta. Enterro amanhã. Sinceros sentimentos”. Isso não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem».

O primeiro parágrafo deste romance é já o seu manifesto programático: tudo é indiferente para este jovem protagonista francês, estrangeiro em Argélia (como o próprio Camus). Os vizinhos, a sua relação amorosa com Maria, o enterro da mãe... Tudo é monotonia.

Quase por acaso, assassina um árabe, pelo que será condenado a morte. Mas Meursault não tem medo dela; é insignificante, como de resto a sua vida inteira, em que nunca significaram nada os valores, a responsabilidade, o que é extraordinário.

O romance torna-se assim um interessante tratamento do famoso ennui francês, que consegue aborrecer e enjoar o leitor. Talvez por isto é um bom romance: quase que consegue fazer-nos pensar que Meursault tenha razão.

Mas é pena não haver uma proposta/resposta: com a morte do protagonista fecha-se qualquer porta à esperança.

01/02/2009

A sangue frio (In cold blood), de Truman Capote

Lisboa: Dom Quixote, 2006 (1966), pp. 400, 10,00€

Truman Capote declarou ter inventado um novo género literário com este romance: a non-fiction novel. Isto é: um romance baseado em factos históricos, quase jornalístico. Daí a sua originalidade e fama.

É uma grande pretensão, mas sobre tudo é falsa. É evidente que Capote escolheu e determinou o estilo do narrador, a organização temporal, a justaposição de episódios, as descrições, o argumento e, acima de tudo, o tema principal.

A história é real: de facto, Perry Smith e Dick Hickock, os protagonistas do romance, assassinaram quatro membros da família Clutter numa vila americana chamada Holcomb e foram condenados a morte. Capote faz-nos entrar com mestria na vida desta família, desde o dia anterior ao início destes acontecimentos, e faz-nos acompanhar o processo judicial dos acusados nesse estilo pretensamente «frio». São frios os assassinos, é fria a descrição, e por isso fascina-nos a sua aparente objectividade. Mas Capote manipula a história para obter esses efeitos literários que fazem deste um bom romance.

O tema é actual e interessante: trata-se duma crítica ao estilo de vida americano, injusto no tratamento da tragédia desta família, assim como no uso da pena de morte, que acaba por não resolver problema algum. A visão de Capote é pessimista e ateia, mas é inteligente e perspicaz. Vale a pena.

13/01/2009

A Prisioneira de Teerão (Prisoner of Tehran), de Marina Nemat

Lisboa: Quidnovi, 2007, pp. 304, 16,50€

Não é genial, mas é interessante porque obriga a reflectir. Muito se fala em tolerância, em diálogo inter-religioso e em respeito pelo Islão, e este romance autobiográfico contém um pouco de cada um destes elementos, contado desde dentro.

Marina Nemat nasceu em Teerão em 1965 e viveu a Revolução Islámica de 1979. Com 16 anos foi levada para Evin, uma prisão política (provavelmente ainda existente) onde foi torturada e quase executada. Neste livro, ela recorda esse passado, um pouco como confissão e um pouco como expiação. Escreve desde o exílio, mas ama o seu País natal, a família e os amigos que lá morreram ou deixou, e até narra com ternura o seu matrimónio forçado com um empregado da prisão, condição para sair da mesma. Ela católica; o ambiente, muçulmano radical.

A história podia ser mais rija e menos feminina, dadas as condições, mas este toque da Autora tira-nos dum falso maniqueísmo e obriga-nos a observar que entre o preto e o branco há muitos matizes.

O estilo narrativo também não é genial, embora os capítulos alternados alterem a ordem cronológica da história e produzam efeitos bem conseguidos, por vezes.

23/12/2008

Cristo, O Senhor – A Fuga do Egipto (Christ the Lord – Out of Egipt), de Anne Rice

Lisboa: Europa-América, 2008, 18,90€

Uma proposta para o Natal: a autobiografia de Jesus.

Como sabemos, Jesus nunca escreveu nada, se não algo sobre a areia enquanto era interrogada a mulher adúltera de que fala o Evangelho. Mas este romance imagina a descrição de como o próprio Jesus teria escrito as suas próprias memórias.

Num estilo fácil e de leitura rápida, cheio de diálogos e acção, Anne Rice imagina como terá sido a passagem da infância à autoconsciência daquela criança que nasceu em Belém nas circunstâncias que já conhecemos. Da sua infância, sabemos pouco. Assim, no romance Jesus começa a fazer milagres, nota que nunca chamou «pai» a José, percebe que vive uma relação especial com Deus, interroga-se sobre os factos do seu nascimento que sempre lhe foram escondidos... e faz-nos participar daquilo que terá acontecido na sua mente.

Como se pode imaginar, a matéria é teologicamente complexa: o dogma cristão afirma que Jesus era «verdadeiro homem e verdadeiro Deus». Mas como é que ele chegou a descobrir quem era? Que consciência tinha de si próprio? Como é que deu por isso? Sem fazer teologia, a Autora demostra uma enorme capacidade imaginativa, impecável desde o ponto de vista da fé cristã e absolutamente fascinante na descrição dos que podem ter sido os primeiros anos de vida de Jesus.

Anne Rice, que escreveu best-sellers como a Entrevista com o Vampiro, converteu-se há poucos anos e já publicou em inglês o segundo volume desta Vida de Jesus, assim como uma sua autobiografia pessoal em que descreve essa conversão. O seu site pessoal oferece ampla informação.

14/12/2008

Great expectations (Grandes esperanças), de Charles Dickens

Lisboa: Europa-América, 1975 (1861), 460 pp.

Já passaram os tempos do Bildungsroman, ou romances em que se narra o crescimento físico e espiritual duma personagem principal. Mas voltar a eles de vez em quando é um prazer, quando são tão humanos e completos como este, um dos últimos do aclamado Dickens.

Trata-se da descoberta progressiva dos valores humanos de Pip, o narrador. A história começa com a infância do órfão Philip Pirrip, na companhia da sua irmã e cunhado. A seguir, será levado à casa duma aristocrática excéntrica, onde se vai apaixonar pela sua filha: uma grande história de amor atormentado. Pip recebe generosos presentes económicos anónimos, de modo que consegue ir viver a Londres à procura do ascenso social. Mas a cidade faz-lhe perder a sua humanidade, numa luta contínua entre o amigo fiel e generoso que ele é e a pessoa ambiciosa e triste que se está a tornar.

O drama humano da personagem tem muitas facetas e as suas aventuras tocam variados âmbitos da existência, pouco fáceis de resumir. A atmosfera é fascinante, e tem sido reproduzida com sucesso numa versão clássica de cinema (David Lean, 1946), e também numa versão moderna que altera a época e os locais com certa originalidade e eficácia (Cuarón, 1998).

É um daqueles romances que se ama ou se detesta. Basta ler os primeiros capítulos para saber em que categoria nos colocamos: amamos Pip, temos compaixão dele, alegramo-nos com os seus sucessos e conquistas, ou então pensamos que é uma perda de tempo saber mais dele e da sua vida. Eu fiquei no primeiro grupo, das grandes esperanças, e não fui disiludido...