21/12/2010

Bella, de Alejandro Gómez Monteverde (2006)

Sem grandes interpretações e sem alguns dos clássicos elementos do cinema de Holywood, Bella é um belíssimo filme sobre a vida e sobre a possibilidade de redenção nesta vida.

Sobre tudo, não é um ingénuo filme pro-life sem mais. Apesar de que nele esteja presente a temática do aborto, é só marginalmente, porque o coração da história é a mudança de duas vidas. A partir de um encontro circunstancial entre uma mulher desesperada e um homem ainda mais desesperado, serão um para o outro um início de resposta. Se ela acabou de perder o emprego, ao mesmo tempo que descobriu uma gravidez indesejada, ele está só a tentar adaptar-se ao mundo depois de quatro anos de cadeia que quebraram a sua carreira como futebolista de sucesso. Na tentativa de se acompanharem nesse momento, uma família mexicana vem mostrar um caminho de esperança para ambos.

As músicas estão muito bem escolhidas, assim como a montagem e o crescendo dramático, em flash-back e flash-forward. E, sem um final forçadamente feliz, acaba por ser um bel filme esperançador.

15/12/2010

Eu não tenho medo (Io non ho paura), de Nicolò Ammaniti

Lisboa: Dom Quixote, 2003 (2001), pp. 192, 13,00€

«Quando era criança sonhava com frequência com monstros (…) e conseguia enganá-los». É Michele quem assim fala, uma criança de nove anos que vive no Sul da Itália e que, apesar de descobrir o mal nos adultos que o rodeiam, não tem medo nem desses adultos nem do próprio mal.

O sucesso do romance está numa narração muito bem construída, com uma tensão dramática crescente, e numa ambientação sensacional no calor estivo italiano. Mas o seu fascínio vem de dois aspectos muito sugestivos: a amizade entre crianças e o desejo de vencer o mal com o bem.

Num passeio de bicicleta, Michele encontra por acaso um buraco numa casa em ruínas, onde uma outra criança, Filippo, está presa. Não morta, como ele pensa inicialmente, mas sim esfomeada e presa por grilhões e sequestradores. «Tu e eu somos iguais», chegarão a dizer, nesta promitente ajuda que Michele oferece.

O drama cresce quando Michele descobre que são o próprio pai dele e seus amigos os protagonistas do sequestro. Mas não está disposto a ceder no seu propósito e, numa heróica cena final, demonstra não ter medo. Aliás, demonstra que nós nunca devemos ter medo.

10/12/2010

A estranha vida de Nobody Owens (The graveyard book), de Neil Gaiman

Lisboa: Presença, 2010 (2008), pp. 304, 13,00€

De facto, é uma vida estranha aquela duma criança encontrada num cemitério por um casal falecido algum século atrás. Nobody, a personagem principal do romance, é um «Ninguém», porque os seus pais e irmã foram mortos nas primeiras páginas do livro e passou a viver num cemitério, junto das personagens mais rebuscadas das várias gerações de homens e mulheres lá sepultados.

Como quase todos os romances de Gaiman, explora-se assim uma fronteira entre o mundo tal e como o conhecemos e outros mundos, em parte fantásticos e em parte muito mais reais do que as aparências do nosso dia-a-dia. A riqueza do sentido do mistério que rodeia esta história não é só sugestiva: remete para o modo de conceber a realidade, o mundo, a vida e a morte.

Talvez seja este o aspecto mais intrigante, misterioso e belo: a relação entre vida e morte que o romance problematiza. Nobody é humano e por isso cresce e desenvolve as suas capacidades, ao passo que o resto das personagens do cemitério ficam eternamente com a mesma idade e qualidades. Sem grandes filosofias ou metafísicas, o romance leva-nos por mundos que pareciam inexistentes.

30/11/2010

Peer Gynt, de Edvard Grieg (1876)

A extraordinária história de Peer Gynt é narrada numa peça teatral do premiado Ibsen, para a qual Grieg criou uma série de músicas de cena, que mais tarde viria a elaborar na forma de duas suites, de quatro trechos cada uma.

Vale a pena ouvi-las, ao passo que se conhece a história a que se referem, que pode ser assim resumida:

Peer Gynt é um jovem caçador que recebe de sua mãe Aase a notícia do casamento de Ingrid, a rapariga mais bela da aldeia. De caminho para impedir as núpcias, encontra uma outra rapariga, Solveig, com quem dança e de quem se apaixona, esquecendo Ingrid momentaneamente. Mas, ao toque dos sinos, lembra-se de Ingrid e dirige-se à Igreja, impede o casamento e fuge com a noiva, mas só dois dias depois irá deixá-la, já cansado dela.

De novo, um toque de sinos, desta vez fúnebre, fá-lo regressar. Apercebe-se que a mãe, Aase, está prestes a morrer. Ao cuidado dela está Solveig, que lhe promete ficar à sua espera para sempre, uma vez que Peer se vê forçado a fugir da justiça pelo rapto de Ingrid.

Em Marrocos, onde foge, torna-se rico e casa com uma mulher árabe, que mais tarde lhe irá roubar todos os seus bens e, quando se vê idoso, pobre e falhado, decide regressar à sua aldeia.

Na velha cabana, ouve alguém a cantar e vê o nome dele escrito na névoa dum vidro. Solveig está à sua espera, como prometera, e a sua vida é abraçada e amada acima dos seus erros e falhanços.

17/11/2010

O demónio (The Devil)

Drew e John E. Dowdle, 2010

Night Shyamalam é conhecido por filmes como A vila, O Sexto Sentido ou Signs. Não esconde a sua ligação com Alfred Hitchcock, e como este tem por hábito aparecer como figurante em todos os seus filmes, e sobre tudo criar situações de suspense que levam ao limite a tensão narrativa.

Desta mente genial, nasce um thriller classificado como «sobrenatural». A pesar da mentalidade racionalista que pretende banir certas noções como esta, é com grande naturalidade que Shyamalam mostra nas suas criações como o mistério e a maravilha fazem parte do nosso mundo: o que é aparentemente inexplicável, na realidade, é a força que domina o nosso dia-a-dia.

O trailer deste filme anuncia: «Em qualquer dia normal, as nossas vidas estão cheias de encontros fortuitos e de acontecimentos aleatórios, mas hoje tudo se passa por uma razão». Assim, cinco pessoas, que não se conhecem e que ficam presas num elevador (aparentemente) por acaso, serão confrontadas com escolhas radicais e terão de enfrentar aquilo que realmente são.

Tecendo esta história, um narrador introduz-nos num conto tradicional, que dá o seu sentido mais profundo e que nos deixa, uma vez que recuperamos o fôlego da acelerada narração, muito para pensar. Com uma mensagem de esperança: a fe e o perdão são capazes de vencer o mal.

09/11/2010

A festa de Babette (Babettes gæstebud)

Gabriel Axel (1987)

Tantas vezes ouvimos quem diga: «se eu ganhasse os Euromilhões, mudava vida: fazia tal e tal...». Pois bem, o centro a história deste filme é o que a sua protagonista vai fazer com um bilhete de loteria premiado: ficar exactamente onde está e como está, só que ainda mais empenhada nas suas circunstâncias do que antes.

O contexto é uma aldeia minúscula da Jutlândia, onde duas irmãs luteranas comprometidas na actividade caritativa promovem uma seita fundada pelo defunto pai: uma comunidade cada vez mais reduzida e envelhecida. Em contraste, vários homens que as cortejam, sem sucesso, e a «papista» Babette, personagens que introduzem uma vida diferente nessa comunidade.

A festa que Babette organiza é um manjar, onde essas posições virão à tona: o moralismo e a frustração, baseados numa recordação piedosa do defunto fundador; frente ao gosto da vida nas coisas singelas, no aproveitamento dos talentos que o próprio Deus deu ao criar cada homem e mulher.

A ironia do filme é genial, e assegura algumas gargalhadas, para além dum tom geral bem disposto.

02/11/2010

Grandes esperanças (Great expectations)

Alfonso Cuarón (1998)

Qual é o peso da herança na vida duma pessoa? Quer em termos economicos, quer em termos humanos, a pergunta é de difícil resposta.

Na história de Finn Bell, jovem pescador da Florida, as suas heranças são várias, mas não parece que lhe irão trazer as «grandes esperanças» que prometeram. Por uma parte, terá a oportunidade de passar o seu tempo com a menina mais rica do lugar, da qual se apaixona, mas a mãe dela, abandonada no dia do seu casamento, vai empenhar-se em que o coração deste jovem se parta. Por outra parte, receberá dum anónimo benfeitor grandes quantidades de dinheiro e a possibilidade de expor as suas pinturas numa galeria de Nova Iorque.

Cresce a ambição, herdada dos seus misteriosos benfeitores, e um certo sucesso aparente; mas perde-se a sua humanidade, aquilo que é genuino.

Com banda sonora de Patrick Doyle, chamativo vestuário constantemente verde e interpretações excelentes de Ethan Hawke e Gwyneth Paltrow no apogeu das suas carreiras, resulta bem esta adaptação muito livre do homômino romance de Dickens.

07/05/2010

Joseph Ratzinger, Bento XVI (1927-)

Este «idoso» move e comove milhões de pessoas de todo o mundo, apesar de toda a oposição que lhe fazem a mentalidade dominante e os meios de comunicação social. Só por isto, é já um homem que «vive intensamente».

Mas a grandeza deste homem (e do que representa) é a sua incansável insistência em permanecer firme às suas convicções, que o tornam quase que cada vez mais jovem na proposta das mesmas.

A sua biografia é simples: nasceu na Alemanha, tornou-se padre aos 24 anos, foi feito arcebispo e cardeal aos 50, pouco depois foi trabalhar a Roma e foi eleito Papa em 2005. Entretanto, escreveu uns 100 livros e 600 artigos especializados, hoje traduzidos em todas as línguas.

Teremos a ocasião de o encontrar em Portugal de 11 a 14 de Maio. O que é que nos dirá?

29/04/2010

As razões de Bento XVI, de Aura Miguel

Lisboa: Texto, 2010, pp. 93, 9,00€

A única vaticanista que viaja com o Papa publica uma sintética biografia de Bento XVI, onde quase não se fala de Joseph Ratzinger (o «velho eu» do actual Papa): as suas linhas de pensamento, os episódios públicos mais simpáticos da sua vida, o seu dia-a-dia como Papa.

Alguns capítulos são praticamente resumos e citações de suas homilias e discursos, pelo que temos uma síntese extraordinária de cinco anos de pontificado. E é preciso reconhecer que esses textos estão muito bem escolhidos e apresentados, tornando a leitura fascinante e despertando a curiosidade do que vem a seguir.

O título e a capa não são talvez o melhor que se podia fazer, e pelo formato parece um livro pequeno; mas a letra é também pequena e os conteúdos são muito maiores do que a aparência.

Para quem é católico e para quem não é; para quem já conhece alguma coisa e para quem não conhece nada; para quem já gosta de Bento XVI e para quem acha que não gosta. Vale a pena.

18/04/2010

Gimnopédies, de Erik Satie (1888)

O compositor francês Erik Satie (1866-1925) é talvez mais conhecido pelo seu ser excêntrico do que pelas suas extraordinárias composições.

Com efeito, Satie não se cataloga muito bem entre os compositores impressionistas do final do século XIX, e provavelmente é precursor dos também franceses Ravel ou Debussy, ou até dos minimalistas contemporâneos. Fundou a sua própria igreja, coleccionava artigos iguais e com pouco interesse, dava às suas músicas títulos absurdos.

Gymnopaedia era uma dança celebrativa em honra do deus Apolo, onde os homens de todas as idades dançavam sem armas. Assim, estas três composições que levam este nome podem entender-se como estruturas musicais «desarmadas» de ornamento, simples e circulares.

A sua beleza envolve um certo misticismo, um certo sentimento de saudade e uma profundidade de emoções dignos de se experimentar.