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09/05/2012

Vários artistas, U2's Achtung Baby tribute (2011)



Quem não se lembra da mudança de estilo que significou o álbum Achtung Baby na carreira dos U2? Para alguns, essa passagem a uma maior maturidade foi difícil de digerir, mas para a maior parte dos seus seguidores foi a transformação dum gosto numa paixão.


Em 2011, 20 anos depois desse lançamento, com mais 5 álbuns de estúdio e uma percurso de sucesso mais do que consagrado, alguns nomes famosos se juntaram para celebrar e recrear aquele que é considerado por quase todos um marco da música pop/rock. Depeche Mode, Garbage ou Patti Smith retomam o lado mais escuro e inovador da banda irlandesa, enquanto The Fray, The Killers ou Snow Patrol destacam pela aposta nos tons mais comerciais e tradicionais.

Para quem já conhece de cor estas músicas e as suas letras, esta proposta oferece a beleza de algo antigo misturado com algo novo.

08/02/2012

Pablo Alborán, En acústico (2011)

Nascido em 1989, Pablo Alborán é um daqueles artistas com talento que sobressai com originalidade no panorama musical actual. Com um único disco de estúdio e este ao vivo, ainda não foi «contaminado» pela indústria musical de carácter mais comercial, embora o seu enorme sucesso leve a pensar que assim poderá acontecer em breve.

As chaves deste talento podem resumir-se em três: uma voz que parece um violoncelo (Stradivarius), uma musicalidade livre com certas influências do flamenco, e uns textos pensados, elaborados, que narram sentimentos além da superficialidade a que estamos habituados. Por isso, esta versão acústica e ao vivo, com escassa produção, mostra ainda melhor a grandeza deste jovem compositor e cantor.

Um exemplo de texto: «Hoy se viste el día de colores; / me levanto lleno de alegría; / hay miles de promesas sin cumplir, / ya ves, pero mira, sigo estando aquí (Volver a empezar).

Em Portugal, este álbum foi número 1 de vendas no início de 2012, e uma sua música com a fadista Carminho deu-lhe uma grande popularidade.

17/01/2012

Andante festivo para cordas, de Jean Sibelius (1938)

«Esta obra é uma pequena jóia, bastante desconhecida mas duma clareza, duma simplicidade sem pretensões, duma frescura pouco habituais. É uma composição que, ouvida pela primeira vez, chama a atenção, mas é nas seguintes audições que se chega a apreciar na sua beleza.

«O compositor desta maravilha em miniatura é o finlandês Johan Julius Christian Sibelius, mais conhecido como Jean Sibelius. Viveu entre os séculos XIX e XX (1865-1957) e, a pesar da sua ascendência sueca, foi profundamente amnate da Finlândia, das suas paisagens e gentes, algo que plasmou em toda a sua obra.

«Também neste Andante festivo para orquestra de cordas. A pesar da sua aparente simplicidade, a gestação desta peça durou mais de 15 anos, e há estudiosos de Sibelius que a colocam até 30 anos antes da sua estreia na forma definitiva. Seja como for, a beleza desta música de só 4 minutos e meio é indubitável. As tensões que cria são resolvidas em cada instante, aprofundando assim a sua clareza, à qual contribui a construção da mesma apoiada numa célula rítmica de pergunta-resposta».

(Por Ángel Cebolla)

17/12/2011

Lir, de Wim Mertens (1985)

Wim Mertens é um compositor minimalista belga, nascido em 1953 e ainda activo, que já publicou dezenas de álbuns. De entre eles, Maximizing the audience (1985) destaca-se pela sua novidade: é o primeiro da sua longa carreira em que às suas composições de piano acrescenta a sua voz. Depois dele, outros instrumentos e vozes farão parte do seu vastíssimo repertório.

A composição Lir, de 18 minutos e 18 segundos na sua interpretação original, é por mim considerada a mais bela e profunda de todas: baseada num tema melancólico que se repete com leves variações, no início e no fim da partitura, no seu centro decompõe cada elemento desse tema, explorando como um espeleólogo nas caves mais recônditas do nosso espírito. Impossível que não se alargue a medida que escutamos.

Ainda recordo a primeira vez que ouvi estas notas num programa de rádio especializado em novas músicas. Tomei nota do estranho nome da composição e comprei o disco de 45 rpm. Hoje, as novas tecnologias tornaram tudo muito mais fácil.

09/04/2011

Música callada, de Frederic Mompou (1959-1967)

É difícil descrever ou categorizar esta composição de 28 trechos compostos ao longo de 8 anos pelo espanhol Mompou (1893-1987), a partir duns versos de são João da Cruz: «A noite sossegada (...) / a música calada / a soledade sonora».

O próprio Mompou comentou: «Esta música é calada porque a sua audição é interna. Contenção e reserva. A sua emoção é secreta e somente toma forma sonora nas suas ressonâncias sob a fria abóbada da nossa soledade, penetrando nas grandes profundezas da nossa alma».

É música singela, pura, essencial. Difícil de descrever por palavras. A quem conseguir deixar-se arrastar pela sua sonoridade porém, aguardam grandes descobertas.

Versões aconselhadas: uma gravação de 1974 do próprio compositor, ou a mais recente pelo pianista Javier Perianes.

30/11/2010

Peer Gynt, de Edvard Grieg (1876)

A extraordinária história de Peer Gynt é narrada numa peça teatral do premiado Ibsen, para a qual Grieg criou uma série de músicas de cena, que mais tarde viria a elaborar na forma de duas suites, de quatro trechos cada uma.

Vale a pena ouvi-las, ao passo que se conhece a história a que se referem, que pode ser assim resumida:

Peer Gynt é um jovem caçador que recebe de sua mãe Aase a notícia do casamento de Ingrid, a rapariga mais bela da aldeia. De caminho para impedir as núpcias, encontra uma outra rapariga, Solveig, com quem dança e de quem se apaixona, esquecendo Ingrid momentaneamente. Mas, ao toque dos sinos, lembra-se de Ingrid e dirige-se à Igreja, impede o casamento e fuge com a noiva, mas só dois dias depois irá deixá-la, já cansado dela.

De novo, um toque de sinos, desta vez fúnebre, fá-lo regressar. Apercebe-se que a mãe, Aase, está prestes a morrer. Ao cuidado dela está Solveig, que lhe promete ficar à sua espera para sempre, uma vez que Peer se vê forçado a fugir da justiça pelo rapto de Ingrid.

Em Marrocos, onde foge, torna-se rico e casa com uma mulher árabe, que mais tarde lhe irá roubar todos os seus bens e, quando se vê idoso, pobre e falhado, decide regressar à sua aldeia.

Na velha cabana, ouve alguém a cantar e vê o nome dele escrito na névoa dum vidro. Solveig está à sua espera, como prometera, e a sua vida é abraçada e amada acima dos seus erros e falhanços.

18/04/2010

Gimnopédies, de Erik Satie (1888)

O compositor francês Erik Satie (1866-1925) é talvez mais conhecido pelo seu ser excêntrico do que pelas suas extraordinárias composições.

Com efeito, Satie não se cataloga muito bem entre os compositores impressionistas do final do século XIX, e provavelmente é precursor dos também franceses Ravel ou Debussy, ou até dos minimalistas contemporâneos. Fundou a sua própria igreja, coleccionava artigos iguais e com pouco interesse, dava às suas músicas títulos absurdos.

Gymnopaedia era uma dança celebrativa em honra do deus Apolo, onde os homens de todas as idades dançavam sem armas. Assim, estas três composições que levam este nome podem entender-se como estruturas musicais «desarmadas» de ornamento, simples e circulares.

A sua beleza envolve um certo misticismo, um certo sentimento de saudade e uma profundidade de emoções dignos de se experimentar.

04/04/2010

Tudo o que você queria ouvir, dos GNR (1996/2006)

Em 1996 foram dois discos, e em 2006 completaram-se com um «terceiro volume», esta selecção de sucessos chamada «O melhor dos GNR».

Estas músicas levam-nos desde as Dunas («são como divãs / biombos indiscretos de alcatrão sujo») até Ana Lee («se ela se põe de vestidinha / parece logo uma princesinha / num trono de jasmim»); e incluem Mais vale nunca («nunca mais saber / mais vale nunca, nunca mais crescer») ou Quero que tudo vá para o inferno.

Não dizem grande coisa, não são letras particularmente poéticas ou esteticamente inovadoras, mas fazem parte duma «tradição», dum «património», que encantou uma geração ou duas, em parte pela voz do seu vocalista, Rui Reininho, em parte pelo ritmo descontraído e a descrição geralmente positiva das suas personagens e paisagens.

Em absoluto, podem não ser os mais intensos; mas, comparativamente, são do melhor.

20/03/2010

Requiem a 5 vozes, de Cristóbal de Morales (1544)

A polifonia espanhola do Renascimento associa-se naturalmente a Tomás Luís de Victória e talvez aos seus famosos Responsorios. Neste mesmo género musical trabalharam também Francisco Guerrero e Cristóbal de Morales.

Morales nasceu em 1500 e foi maestro de capela nas Catedrais de Ávila, Plasência, Sevilha, Toledo e Málaga. Durante 10 anos fez também parte do Coro Papal de Roma, onde cantou diante de todos os monarcas europeus na Capela Sixtina que Miguel Ângelo tinha acabado de pintar em 1512.

Neste contexto de beleza, de grandes catedrais, esplendor artístico e profunda fe pré-Reformada, Morales revoluciona o gregoriano com a repetição do mesmo texto em diferentes ritmos, naquilo que se conhece por «polifonia», isto é, o desenvolvimento de várias vozes, que preservam um caráter melódico e rítmico individualizado.

Esta Missa de Requiem a cinco vozes é magistral neste exploit de beleza, ecos e ressonâncias. Em particular, o Gradual «lucet» com especial brilho, assim como a tecnicamente dificílima Sequencia.

24/02/2010

Clair de lune, de Claude Debussy (1890)

Ouvir «Só a Beleza pode mudar o coração do homem. Na Quaresma é-nos pedido que nos deixemos comover pela presença de Aquele que é a Beleza, a Verdade e a Bondade. Não se trata de um exercício de New Age, procurar uma qualquer paz interior ou harmonia com o cosmos... mas de reconhecê-lo presente e reconhecer o seu abraço à nossa vida.

A delicada música do «Luar» da Suite Bergamasque de Debussy é uma obra da sua juventude, que ele tentou não publicar, dado que a considerava uma obra imatura.

A peça já não soa como deveu soar lá quando foi composta, momento em que quebrava laços com a harmonia tradicional, deixando de ligar dois ou mais sons simultâneos, e inventando novas formas neste ramo da música. Junto com alguns efeitos obtidos com os pedais do piano torna esta música etérea, vaporosa, onírica e ao mesmo tempo duma beleza indiscutível.

Debussy enquadra-se na corrente do impressionismo francês de finais do século XIX e princípios do XX, do qual a peça é um genial exemplo.

(Comentário por Ángel Cebolla)

02/01/2010

António Vivaldi, Concerto para quatro violinos (1716)

ouvir

A arte é a maneira do homem expressar a beleza e, como dizia São Tomás, a beleza é splendor veritatis (o esplendor da verdade). Por isso tudo o que é belo remite a Deus, pois essa beleza é reflexo da sua Beleza.

Esta música de António Lúcio Vivaldi foi curiosamente copiada a um outro autor: nem mais nem menos do que o grande Johannes Sebastian Bach. Na altura, ninguém ficava aborrecido, nem recebia taxas pelos seus discos, ainda que se tratasse de obras mestres.

O Concerto para quatro violinos de Vivaldi foi composto por Bach para claves, para que fosse tocado pelos quatro filhos músicos que teve. Lembremos que ele teve 21 filhos! Impressiona o facto de Vivaldi nunca ter ouvido falar de Bach ou da sua obra, mas copiou e reelaborou a sua música, porque reconheceu nela a sua qualidade. (Comentário por Ángel Cebolla)

20/09/2009

Macaco, Puerto presente (2009)

Macaco é uma banda espanhola muito original no panorama musical contemporâneo. Chamam o seu estilo rocksteady: uma mistura de ritmos latinos, espanhóis e músicas étnicas. De facto, neste grupo musical reúnem-se membros de diferentes países latino-americanos e até africanos, misturando tradições e melodias de maneira inovadora, a partir duma base em Barcelona.

No País vizinho foram número 1 ao longo do Verão passado, por isso podemos esperar também algumas cedências ao esquema comercial das rádios na moda. Ainda assim, no repetitivo panorama actual, destaca-se como qualquer coisa de diferente.

A melhor frase a destacar em seus textos: «A vida é aquilo que acontece enquanto fazes outros programas».

21/05/2009

West Side Story

Bernstein/Robbins, 1961

Leonard Bernstein foi o criador da música, a partir de textos de Laurents adaptados por Sondheim, com coreografias de Jerome Robbins. A primeira versão do musical foi em Broadway, e depois foi feito um filme por Robbins e Wise estreiado em 1961, com a maravilhosa Natalie Wood e um tal Richard Beymer.

O musical está em Lisboa, no Politeama, numa adaptação de Filipe La Féria, bastante fiel ao texto original, a pesar de algumas traduções livres pouco eficazes, e muito a pesar uma cena de alcova perto do patético. Mas vale a pena passar uma tarde no teatro para o ver. Se não, vale a pena procurar a versão cinematográfica.

Principalmente, pela força da história e das personagens. Trata-se duma revisitação do clássico tema do shakesperiano Romeu e Julieta: um amor impossível entre duas pessoas de famílias e contextos inconciliáveis, presságio de tragédia. São Maria e Tony, de origens porto-riquenha e polaca, ligados a duas bandas juvenis de Nova Iorque. A acção é rápida e humana, próxima ao espectador contemporâneo.

Não é possível ficar indiferente diante das coreografias tão bem conseguidas. Por vezes, são dezenas de pessoas no palco, e nenhuma delas está fora de lugar, incomoda ou distrai. Quando o dinheiro abunda para uma produção assim, também não se podia esperar algo diferente...

24/04/2009

Quadros duma exposição, de Modest Mussorgsky (1874)

«A grande obra-mestre de piano Quadros duma exposição do russo Mussorgsky narra uma grandiosa parábola vital. É claro que os Quadros não são música descritiva, nem simplesmente a representação literal do compositor que visita uma exposição póstuma do amigo arquitecto e pintor Viktor Hartmann. Mas têm o valor duma profunda e original reflexão existencial, por vezes tecida de candor, por vezes duma nostalgia ardente, por vezes duma dureza que assusta.

A luz irreal das noites brancas, os bosques de bétulas, as planícies intermináveis, as cores e perfumes da estepe, o silêncio dos bosques e os lagos, a majestade dos rios, o fragor das tempestades do Mar Branco, os sons inconfundíveis dos sinos e dos cânticos da Igreja Ortodoxa, o forte sentimento da predestinação dum povo que no Cristianismo identificou a sua própria razão de ser... são todos elementos que se podem sentir claramente “representados” nos Quadros não como folclore, mas sim como símbolo privilegiado para expressar a vida com as suas harmonias e as suas contradições» (Simone G. Pedroni)

21/01/2009

César Franck, Sonata para violino (1886)

São só dois instrumentos: um piano e um violino. Um deles abre um tema, que é desenvolvido pelo outro, e viceversa. A tensão aumenta e diminui continuamente, numa meditação de profundidade progressiva.

É uma sonata de amor: foi composta em honra do casamento dum seu amigo, o também compositor belga Ysaÿe. Mas o amor que descreve não é um sentimento superficial, uma paixão intensa ou um percurso instável. Descreve um drama, alegre por momentos, doce e tenro, fantástico nos vários níveis desta palavra.

Franck não é um compositor muito conhecido, ao lado de seus contemporáneos Brahms ou Beethoven. Ainda assim, teve um certo sucesso nas últimas décadas da sua vida e, nesta Sonata, demonstra uma genialidade, direi, muito actual.

02/11/2008

Gabriel Fauré, Requiem (1890)

«Tal e como é único o Ave verum corpus de Mozart, assim o Pie Jesu de Fauré», disse um famoso compositor do século passado, Sant-Säens. De facto, há uma força extraordinária nas suas singelas palavras: Pie Jesu Domine, dona eis requiem, requiem sempiternam, repetidas insistentemente por uma voz soprano cheia de ternura e compaixão.

O Requiem é uma oração: trata-se das partes cantadas duma Missa (em rito latino) pelo descanso eterno dum defunto. «Jesus piedoso, dá-lhe o descanso, o descanso eterno».

Mas esta forma de oração composta por Fauré tem uma ternura única, tem uma simplicidade que nos aproxima dum Céu desejável. Não é, sem dúvida, o terrível julgamento de Mozartiana memória; mas também não é nebuloso ou arcádico. Pelo contrário, o Céu que este Requiem apresenta é melódico, cheio de vida, e ao mesmo tempo solene e pacificante.

Pode-se ouvir ao vivo na Igreja de São Roque, no próximo Sábado 8 de Novembro, junto com uma outra peça de interessante qualidade: In paradisum, do compositor Carrapatoso, que alguns dizem ser o maior compositor português vivo.

22/10/2008

Jason Mraz, We sing, we dance, we steal things (2008)

Não é provavelmente o melhor de Jason Mraz. A medida que a carreira e a fama deste artista do West americano crescem, é maior o peso da producção e dos arranjos, que nem sempre permanecem imunes ao fácil e ao comercial.

Ainda assim, sabemos que Mr. A-Z, ou Waiting for my rocket to come, também não eram tão poderosos como as versões ao vivo das músicas neles incluidas. Pena é que a digressão de Mraz se limite aos Estados Unidos, pelo menos no que já está programado.

Neste disco, como nos passados, assistimos a um banho de positividade. Letras simples, sugestivamente poéticas, escondem sempre histórias, pessoas, aventuras, nas quais Mraz destaca sempre um olhar positivo e valorizador da experiência humana. Ele próprio confessa-o nos seus concertos: não há ninguém que lhe passe ao lado que não acabe por se tornar parte de uma sua música. E isto é agradável ao ouvinte atento: encontramo-nos descritos, junto com os nossos sonhos, amigos, amores, recordações do passado.

Uma amostra: o início da primeira faixa:

Wake up everyone

how can you sleep at a time like this

unless the dreamer is the real you

Listen to your voice

the one that tells you to taste past the tip of your tongue

leap and the net will appear

I don't wanna wake before

the dream is over

I'm gonna make it mine