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18/05/2012

Cartas a um jovem católico, de George Weigel

Coimbra: Tenacitas, 2012 (2005), pp. 256, 18,50€

«Basta ver um cartaz de cinema, entrar numa livraria ou ligar a televisão para nos apercebermos da imensidade de propostas eclécticas e confusas da cultura actual. Naturalmente, no melhor dos casos um jovem dos nossos dias só pode ficar perplexo e desorientado. Ou, no pior, céptico e prisioneiro de uma mentalidade comum tão informe quanto uniformizada.

»Apesar de tudo, a maior parte dos jovens portugueses do início do século XXI recebeu uma iniciação na fé católica e porventura reconhece-se explicitamente como católica. É principalmente a eles que se dirige este livro, sejam praticantes ou não, tenham mais ou menos dúvidas, tenham ou não participado alguma vez nas Jornadas Mundiais da Juventude.

»A cultura católica continua também hoje a propor-se como alternativa a essa grande confusão em que vive o homem contemporâneo. Não como mais uma alternativa a escolher entre as muitas, mas como algo tão fascinante, misterioso e totalizador que desperta um interesse nunca antes imaginado. Poderíamos dizer, com uma imagem, que se propõe como aquele primeiro amor, genuíno e puro, que faz com que todos os outros pretendentes à conquista do próprio coração sejam desclassificados de imediato» (Do Prefácio, por Luis Miguel Hernández).

23/03/2012

Na origem da pretensão cristã, de Luigi Giussani

Coimbra: Tenacitas, 2012, pp. 138, 15,00€

Este é o segundo livro duma trilogia conhecida como o «PerCurso», da qual O sentido religioso era o primeiro. Aquele falava do homem e da sua abertura ao mistério, enquanto que este dedica a sua atenção à pessoa de Jesus Cristo e à pedagogia da revelação cristã.

O termo «pretensão» que o título inclui deve ser bem entendido: ao contrário do que possa aparentar, é a falta de pretensiosismo que caracteriza a exposição do autor. Não se trata portanto de pretender impor a visão cristã do homem, da vida e do mundo, mas de compreender qual é o horizonte ideal a que pré-tende a proposta integral do homem Jesus de Nazaré.

Fora deste texto, o autor disse numa ocasião ao descrever essa origem do cristianismo como acontecimento: «o acontecimento não identifica somente uma coisa que aconteceu e com a qual tudo teve início, mas é aquilo que desperta o presente, define o presente, dá conteúdo ao presente, torna possível o presente. (…) Fora deste ‘agora’ não existe nada! O nosso eu não pode ser movido, comovido, ou seja, transformado, a não ser por uma contemporaneidade: um acontecimento. Cristo é algo que me acontece agora».

15/09/2011

O Sentido Religioso, de Luigi Giussani

Lisboa: Verbo, 2000 (1984), pp. 210, 15,00€

Este é o primeiro livro duma trilogia conhecida como o «PerCurso», palavra que joga com dois significados: um curso de aulas sobre várias matérias e um itinerário em contínuo crescimento. Enquanto que este volume dedica a sua atenção ao homem e à sua abertura ao transcendente, os outros dois falam de Jesus Cristo e da Igreja.

Mas, atenção, devemos eliminar da palavra «religioso» tantas imagens e preconceitos que a ligam a antigas superstições ou a práticas sentimentais ou devotas, só para aqueles «que têm essa sensibilidade». Com efeito, este texto nasce a partir de aulas no secundário (o seu Autor não redigiu se não os apontamentos dos seus alunos), e pretende ajudar a compreender que essa dimensão é própria de todo ser humano, independentemente das suas crenças ou práticas.

Uma análise das palavras mais repetidas no texto, ao contrário do que poderíamos esperar, levava-nos a descobrir que estas são «razão», «liberdade», «realidade», «homem»... E que, portanto, duma forma mais experiencial que filosófica, é de nós que se está a falar.

Um livro que mudou a vida de muitas pessoas: a não perder.

18/04/2011

Existe Deus?, de J. Ratzinger e P. Flores d'Arcais

Lisboa: Pedra Angular, 2009 (2000), pp. 155, 14,00€

«Um confronto sobre verdade, fé e ateísmo», é o subtítulo desta obra, que recolhe um ensaio de cada um dos dois autores da capa e a transcrição de um debate público entre ambos no ano de 2000. Então, Joseph Ratzinger era Cardeal e representava a Igreja Católica enquanto «guardião» dos dogmas e da fé, enquanto Paolo Flores d'Arcais era um dos filósofos, professores e homens de cultura que melhor representava o ateísmo italiano ou até europeu dos nossos dias.

Perante este panorama, a impressão é que vamos acompanhar duas linhas paralelas de pensamento e erudição, que só com muito esforço se vão encontrar, e ainda mais dificilmente vão aceitar pontos de verdadeiro diálogo. Se isto pode ser verdade para os ensaios recolhidos, sobre o tema da possibilidade da existência de Deus, não é bem assim no que diz respeito ao debate (que é o texto principal do opúsculo).

Moderado por um intelectual judeu, Gad Lerner, o tema da existência de Deus é proposto de forma pacífica e pouco polémica. Cada um dos dois autores defende e explica as razões que os levam a conclusões opostas, mas sem entrar na banal réplica ou no ataque despropositado. Assim, o leitor aprende com ambos, algo que não se deve desprezar nos tempos que correm...

02/01/2011

As minhas leituras, de L. Giussani

Coimbra: Tenacitas, 2010 (1996), pp. 224, 15,00€

Sem dúvida, este é um livro muito especial. Não é bem um ensaio de crítica literária, e também não é uma simples leitura comentada de alguns textos. É uma colecção de conferências ocasionais e leituras públicas feitas por um sacerdote, considerado por muitos católicos um dos grandes renovadores da cultura contemporânea e galardoado com o Prémio Internacional da Cultura Católica.

De fácil leitura, é um daqueles livros que suscitam o gosto pela literatura desde dentro: não se limita a dar alguns dados biográficos de certos autores ou indicações gerais relativas a certas obras, mas identifica neles problemas e questões universais dos homens e mulheres de todos os tempos. Assim, o leitor não só aprende a apreciar melhor as obras apresentadas, como também um método de avaliação e de leitura que considera estes processos em termos mais plenamente humanos.

Tanto se já se leram os autores comentados como se ainda não se fez, fica-se com a vontade de os reler e aprofundar ainda mais, uma vez que Giussani consegue abrir-nos horizontes novos lá onde já pensávamos ter desistido de procurar.

29/04/2010

As razões de Bento XVI, de Aura Miguel

Lisboa: Texto, 2010, pp. 93, 9,00€

A única vaticanista que viaja com o Papa publica uma sintética biografia de Bento XVI, onde quase não se fala de Joseph Ratzinger (o «velho eu» do actual Papa): as suas linhas de pensamento, os episódios públicos mais simpáticos da sua vida, o seu dia-a-dia como Papa.

Alguns capítulos são praticamente resumos e citações de suas homilias e discursos, pelo que temos uma síntese extraordinária de cinco anos de pontificado. E é preciso reconhecer que esses textos estão muito bem escolhidos e apresentados, tornando a leitura fascinante e despertando a curiosidade do que vem a seguir.

O título e a capa não são talvez o melhor que se podia fazer, e pelo formato parece um livro pequeno; mas a letra é também pequena e os conteúdos são muito maiores do que a aparência.

Para quem é católico e para quem não é; para quem já conhece alguma coisa e para quem não conhece nada; para quem já gosta de Bento XVI e para quem acha que não gosta. Vale a pena.

11/10/2009

A grief observed (Dor), de C. S. Lewis

Lisboa: Grifo, 1999 (1960), pp. 150, 7,50€

O que ler quando «estamos em baixo»? Há quem diga que nessas alturas é melhor ler histórias de ficção científica ou de aventura, «para esquecer a mágoa». Pelo contrário, há poucos dias conversava com um amigo e ambos coincidíamos na opinião oposta: nesses momentos, é necessário encontrar alguém (um amigo escritor, vivo ou não) que tenha experimentado o que estamos a viver, de maneira que nos possa tirar da solidão em que nos tendemos a fechar.

Feita esta premissa, percebe-se que estes cadernos de apontamentos, a modo de diário, que têm por título «Uma pena em observação», são exactamente isso: um estudo sobre a tristeza, que nos poderá levar além da mesma.

Na vida do genial C. S. Lewis, a morte da sua mulher Joy, após vários períodos sucessivos de agravamento duma doença incurável, foi ocasião deste escrito privado, que assinou com um pseudónimo. Já convertido ao Cristianismo, o escritor debate-se entre a presença e a ausência da pessoa amada, interroga-se pelos próprios sentimentos que prova, pela sua relação com Deus. E não deixa indiferente, no concreto das suas imagens e experiências, ao leitor que não tenha fechado o seu entendimento àquilo que é humano.

07/07/2009

A vitória da razão (The victory of reason), de Rodney Stark

Lisboa: Tribuna, 2007 (2006), pp. 335, 19,95€

O título deste volume é um desafio em si mesmo: Será que a razão pode vencer ainda hoje, no nosso contexto relativista? Não lhe foi tirado qualquer estatuto, uma vez que se estabeleceu o domínio do sentimento e da instintividade? Inclusivamente, num recente cartaz lemos que «não basta ter razão», porque a razão está subordinada à necessidade de «ter votos».

Mas se olharmos para a capa, encontramos uma outra frase ainda mais desafiante: «Como o Cristianismo gerou a liberdade, os direitos do homem, o capitalismo e o milagre económico em Ocidente». Contra muitos «dogmas», afirmados desde as mais altas cátedras, que declaram o Cristianismo culpável de totalitarismos ou de outras intolerâncias, e que (desde Weber) proclamam o Protestantismo como alternativa salvífica ao «ferrugento» Catolicismo, Stark emerge com um estudo aprofundado e documentado que dá algumas pistas para repensar nestes supostos «dogmas».

Por exemplo, descreve como só no Catolicismo foi possível uma visão filosófica e teológica que permitisse ideias como o progresso, a ciência antropocêntrica ou o próprio capitalismo. «A liberdade é outra ideia que não existe em muitas das culturas humanas, possivelmente na maior parte», acrescenta: «Nem sequer existe uma palavra para liberdade na maioria das línguas não europeias».

19/06/2009

O homem eterno (The everlasting man), de G. K. Chesterton

Lisboa: Aletheia, 2009 (1925), pp. 380, 16,00€

«Quando certa vez perguntaram a Chesterton “que livro gostaria de ter consigo se fosse um náufrago numa ilha deserta”, esperando talvez uma resposta profunda e elevada como “a Bíblia” ou “a Divina Comédia”, respondeu com o óbvio “um manual de construção de botes”.

O espanto é a atitude de quem se surpreende com admiração diante de alguma realidade ou pessoa. Não é necessariamente a realidade a ser surpreendente: simplesmente pode ser olhada desde um novo ponto de vista, que a torna assim.

Portanto, o espanto é uma reacção do indivíduo, que vemos principalmente nas crianças. E em Chesterton. Ele e os seus livros surpreendem ao leitor, porque ele próprio se deixa espantar pela realidade (...).

[Mas] o verdadeiro espanto nasce como atitude procurada, desejada. Neste livro, O homem eterno, o leitor espanta-se pela força e beleza dos exemplos, descrições e argumentos, que dão forma a esta procura.

(Do Prefácio, por Luis Miguel Hernández)

26/03/2009

O cubo e a catedral (The cube and the cathedral), de George Weigel

Lisboa: Aletheia, 2006 (2005), pp. 151, 13,00€

Weigel escreve com grande mestria jornalística e com sabedoria multiforme. É muito simples porém a leitura dos breves capítulos/artigos que formam este breve ensaio sobre «a Europa, a América e a política sem Deus», segundo reza o seu subtítulo.

Católico activo em diversos frentes, em particular na área da ética, este biógrafo de João Paulo II é colunista regular em jornais americanos e sabe bem do que está a falar. Ao analisar polémicas como a crise demográfica, a Constituição Europeia, as relações euro-americanas, ou o declive da cultura cristã, aborda temas cheios de lugares comuns, que a sua séria investigação esclarece.

É verdadeiramente interessante o seu estudo das raízes culturais da Europa (e, por conseguinte, da América). Por exemplo, simplifica grandes problemas contemporâneos a través do estudo da prerrogativa da Igreja na luta das investiduras com Gregório VII, ou corrobora as origens do sistema democrático na eleição dos superiores dos mosteiros beneditinos medievais.

A sua interrogação principal cresce a medida que avança a leitura: «É possível construir e manter de pé uma comunidade política democrática sem os pontos de referência morais que o Cristianismo tem para oferecer?». Ao leitor cabe procurar a resposta.

11/11/2008

A Gramática do Assentimento, de John H. Newman

Lisboa: Assírio e Alvim, 2005 (1865), 472 pp., 26€

O incipit deste livro é uma frase de Santo Ambrósio que diz: «Non in dialectica complacuit Deo salvum facere populum suum», isto é: «Não aprouve a Deus salvar o seu povo com a dialéctica».

Newman converteu-se do Anglicanismo ao Catolicismo, e será proximamente proclamado beato pelo Papa Bento XVI. Mas não foi por uma dialéctica: foi como a planta que desenvolve aquilo que já estava presente desde o princípio. A conversão, de facto, não é outra coisa que descobrir de maneira mais profunda e verdadeira aquilo em que já se acreditava. Por isso, Newman fala da sua conversão como assentimento àquilo em que desde sempre ele próprio acreditou.

Newman teria negado que a sua conversão fosse sinal de santidade. A este respeito escreveu: «Não tenho a tendência a ser santo – é uma coisa triste dizê-lo. Os santos não são homens de letras, não amam os clássicos, não escrevem histórias».

Dele disse o ainda Cardeal Ratzinger: «Newman expôs na ideia do desenvolvimento a própria experiência pessoal de uma conversão jamais concluída, e assim ofereceu-nos a interpretação não só do caminho da doutrina cristã, mas também da vida cristã. Newman pertence deveras aos grandes doutores da Igreja, porque ele toca ao mesmo tempo o nosso coração e ilumina o nosso pensamento».

13/10/2008

Ortodoxia, de G. K. Chesterton

Lisboa: Aletheia 2008 (1908), 200 pp., 16€

Na sua Autobiografia, G. K. Chesterton afirma que «até na época em que eu não acreditava em nada, acreditava naquilo que alguns chamam "o desejo de acreditar"». Por isso, a Ortodoxia, que hoje aparece numa nova edição portuguesa e publicada originalmente antes da sua conversão «oficial», no fundo é tão ortodoxa como os seus últimos escritos.

Nesta obra, o genial autor británico faz uso da sua característica ironía, sempre simpática e fácil de ler, e dos paradoxos que lhe deram fama internacional. Nela afrontou temas actuais na passagem do século XIX ao século XX, que curiosamente são também de grande actualidade nos nossos dias. Quase ensaio, quase transcrição de linguagem falada, não deixa indiferente ao leitor desejoso de se interrogar pelos grandes problemas da convivência social e das relações humanas.

Como amostra, um breve fragmento que circula nestes dias entre os amigos:

«É fácil ser louco; é fácil ser herege. É sempre fácil permitir que o século leve a sua avante; o difícil é resistir-lhe.

É sempre fácil ser moderno; como é fácil ser pretensioso. Teria sido realmente muito simples cair em qualquer das armadilhas simples do erro e do exagero que moda após moda e seita após seita montaram no caminho do cristianismo.

Cair é sempre simples; a pessoa pode cair num número infinito de posições, mas só pode permanecer de pé numa posição. A coisa mais óbvia, a atitude mais domesticada, teria sido efectivamente deixar-se levar por qualquer desses caprichos, desde o gnosticismo até ao cientismo cristão.

Tê-los evitado é que foi uma espantosa aventura; na visão que eu tenho dos factos, o carro dos céus avança estrepitosamente pelos tempos fora, as domesticadas heresias vão cedendo e prostrando-se, a selvagem verdade progride titubeando, mas sem nunca cair».