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28/12/2011

Contos e lendas da tradição cristã, por Lois Rock

Lisboa: Verbo, 2006, pp. 96, 17,00€

«Contos de adultos para crianças» ou «contos de crianças para adultos» são expressões cliché, mas adaptam-se bem a esta breve e simples colecção de sabor quase natalício. Sobretudo, as modernas ilustrações dão-nos a entender imediatamente que o volume não é (ou pelo menos não é só) infantil.

Alguns destes contos são histórias e lendas de santos: são Patrício, santo Isidro, são Cristóvão, Bakhita... Outros narram com imaginação factos que, se não aconteceram, podiam ter acontecido, e assim transmitem valores cristãos. Escritos em modo maduro e poético, são mais sugestivos do que explícitos, pelo que exaltam a nossa capacidade criativa.

O marinheiro, avó da Marisa, que protagoniza o último dos contos, diz a um certo ponto: «Explorei tudo o que me apeteceu neste mundo e agora anseio por descobrir o outro». Pode ser o mote para esta singela leitura.

21/12/2010

Bella, de Alejandro Gómez Monteverde (2006)

Sem grandes interpretações e sem alguns dos clássicos elementos do cinema de Holywood, Bella é um belíssimo filme sobre a vida e sobre a possibilidade de redenção nesta vida.

Sobre tudo, não é um ingénuo filme pro-life sem mais. Apesar de que nele esteja presente a temática do aborto, é só marginalmente, porque o coração da história é a mudança de duas vidas. A partir de um encontro circunstancial entre uma mulher desesperada e um homem ainda mais desesperado, serão um para o outro um início de resposta. Se ela acabou de perder o emprego, ao mesmo tempo que descobriu uma gravidez indesejada, ele está só a tentar adaptar-se ao mundo depois de quatro anos de cadeia que quebraram a sua carreira como futebolista de sucesso. Na tentativa de se acompanharem nesse momento, uma família mexicana vem mostrar um caminho de esperança para ambos.

As músicas estão muito bem escolhidas, assim como a montagem e o crescendo dramático, em flash-back e flash-forward. E, sem um final forçadamente feliz, acaba por ser um bel filme esperançador.

04/04/2010

Tudo o que você queria ouvir, dos GNR (1996/2006)

Em 1996 foram dois discos, e em 2006 completaram-se com um «terceiro volume», esta selecção de sucessos chamada «O melhor dos GNR».

Estas músicas levam-nos desde as Dunas («são como divãs / biombos indiscretos de alcatrão sujo») até Ana Lee («se ela se põe de vestidinha / parece logo uma princesinha / num trono de jasmim»); e incluem Mais vale nunca («nunca mais saber / mais vale nunca, nunca mais crescer») ou Quero que tudo vá para o inferno.

Não dizem grande coisa, não são letras particularmente poéticas ou esteticamente inovadoras, mas fazem parte duma «tradição», dum «património», que encantou uma geração ou duas, em parte pela voz do seu vocalista, Rui Reininho, em parte pelo ritmo descontraído e a descrição geralmente positiva das suas personagens e paisagens.

Em absoluto, podem não ser os mais intensos; mas, comparativamente, são do melhor.

07/07/2009

A vitória da razão (The victory of reason), de Rodney Stark

Lisboa: Tribuna, 2007 (2006), pp. 335, 19,95€

O título deste volume é um desafio em si mesmo: Será que a razão pode vencer ainda hoje, no nosso contexto relativista? Não lhe foi tirado qualquer estatuto, uma vez que se estabeleceu o domínio do sentimento e da instintividade? Inclusivamente, num recente cartaz lemos que «não basta ter razão», porque a razão está subordinada à necessidade de «ter votos».

Mas se olharmos para a capa, encontramos uma outra frase ainda mais desafiante: «Como o Cristianismo gerou a liberdade, os direitos do homem, o capitalismo e o milagre económico em Ocidente». Contra muitos «dogmas», afirmados desde as mais altas cátedras, que declaram o Cristianismo culpável de totalitarismos ou de outras intolerâncias, e que (desde Weber) proclamam o Protestantismo como alternativa salvífica ao «ferrugento» Catolicismo, Stark emerge com um estudo aprofundado e documentado que dá algumas pistas para repensar nestes supostos «dogmas».

Por exemplo, descreve como só no Catolicismo foi possível uma visão filosófica e teológica que permitisse ideias como o progresso, a ciência antropocêntrica ou o próprio capitalismo. «A liberdade é outra ideia que não existe em muitas das culturas humanas, possivelmente na maior parte», acrescenta: «Nem sequer existe uma palavra para liberdade na maioria das línguas não europeias».

12/06/2009

Um beijo a mais (The last kiss)

Tony Goldwyn (2006)

No início deste filme, Michael (o magnífico Zach Braff) anuncia aos seus sogros que vai ser pai pela primeira vez, com certas dúvidas, ou com pouco entusiasmo. Está para fazer 30 anos, tem a mulher perfeita, é um arquitecto de sucesso. Mas, pouco depois, confessa: «Estive a pensar na minha vida ultimamente, e sinto tudo já planificado. Já não há espaço para surpresas».

Sentimentos tão na moda como este, rodeiam-se a seguir de outra série de lugares comuns, encarnados em personagens e frases muito realistas, embora terríveis: Chris (o também magnífico Casey Affleck), que não suporta mulher e filho bebé; Izzy, desesperadamente abandonado pela mulher que ama; Kenny, que reduz o amor a sexo; e os próprios sogros, numa crise matrimonial aos 60 anos.

Michael sabe qual é o caminho certo, mas a tentação aparece na figura duma colegial que o tenta seduzir...

Nesta descrição da incapacidade de assumir responsabilidades, do medo à paternidade, da dificuldade de afirmação pessoal e dos próprios valores e princípios, finalmente há esperança. Há uma figura paterna, alguém que obriga a enfrentar a realidade, a ser fiel à verdade. O sacrifício implicado neste seguimento da verdade escancarará uma porta, a porta da esperança que só a perseverança pode abrir.