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15/03/2012

Cartas ao Pastor Jaakob (Postia pappi Jaakobille)

Klaus Härö, 2009

Certo: não aparenta prometer muito um filme finlandês com praticamente só três personagens, com o orçamento e efeitos especiais deste blog, com uma «banda sonora» composta por breves fragmentos dum nocturno de Chopin, e com uma trama que se pode resumir em 3 linhas.

Ainda assim, a história que une um pastor luterano cego, uma ex-presidiária e um carteiro, tem uma sua força humana que convence. Em pouco mais de uma hora, faz-nos entrar num mundo desconhecido, cheio de emoções quase sempre reprimidas. O mérito da realização é fazê-las ver e compreender, quase com mais clareza ao espectador do que às próprias personagens.

O tema principal questiona o papel do Pastor (no concreto, deste limitado Pastor Jaakob), cuja missão parece esgotar-se quando deixa de receber e enviar cartas de conforto e ajuda a seus seguidores. Aqui vê-se que não se trata dum padre católico (que encontraria sentido ao seu ministério também sem um «povo»), mas da visão luterana do pastor como representante da comunidade que vive em função da mesma. Por isso, em última instância, essa missão entra em crise.

Talvez valha mais a pena deter-se na personagem de Leila, cuja história parece secundária a esta, mas acaba por mostrar-se ainda mais humana e completa.

30/03/2010

Um lugar para viver (Away we go)

Sam Mendes (2009)

Sam Mendes, controverso realizador de filmes como American Beauty ou Revolutionary Road, caracteriza-se principalmente por oferecer uma perspicaz e inteligente crítica à sociedade burguesa contemporânea (americana, mas, como diz ironicamente uma personagem: «se a América é assim, como serão as moscas à volta dela?»). Falta-lhe sempre, porém, uma proposta alternativa. Diante deste panorama, o que fazer?

Neste filme, temos um casal amoroso à espera do seu primeiro filho, aos 34 anos: Burt Farlander and Verona. Quando descobrem que os avós estão a pensar em mudar de continente para os próximos anos, decidem eles também mudar de cidade, à procura dum «lugar para viver», dum «lar». Esta viagem pelos velhos amigos e familiares do casal permite-nos realizar uma viagem cheia de estereótipos da família americana (um casal com cinco crianças multi-étnicas adoptadas, um casal new-age que não usa carrinhos de bebé para não puxar as crianças para longe dos pais, e ainda outras experiências mais desagradáveis).

Com grande sentido do humorismo, por vezes cínico e por vezes até amargo, o senso do surreal provoca gargalhadas, que num segundo momento levam a reflectir: quase que os falhados Farlander parecem os mais normais dentro desta espécie de jardim zoológico humano. E, assim, no fundo, esta crítica social não é destrutiva, mas positiva (em particular, na cena dos compromissos que substituem o casamento que nunca se realiza). No fundo, saímos do cinema a pensar e a sorrir.

18/02/2010

Um homem sério (A serious man)

Joel e Ethan Cohen (2009)

Talvez seja o filme mais cínico dos últimos tempos. Politicamente incorrecto, anti-semita e, no fundo, absurdo, é um filme que só se pode ver considerando estas premissas. Não certamente pela sua mensagem.

Dito isto, um espectador inteligente poderá rir às gargalhadas se souber captar o humorismo cáustico dos realizadores Cohen. Se for capaz de suspender as categorias naturais da sua razão, a falta de relação causa-efeito dos eventos apresentados produzirá sem dúvida um divertimento singular.

Fazendo troça do «discurso religioso», o filme põe em evidência que não é pelas fórmulas ou pelas palavras que uma experiência se torna verdadeira. Mas, insisto, não é pelos seus temas que o filme se deixa ver, mas sim pela hilariante sucessão de sem sentidos, levada até limites insuspeitos.

18/01/2010

Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?, de António Lobo Antunes

Lisboa: Leya, 2009, pp. 375, 18,00€

Deixando de lado as recensões e críticas a esta obra para quem goste de erudição, para o leitor comum este livro propõe um mergulho numa experiência de vida. Não é imediato compreender como isto acontece, mas basta deixar-se levar, sem essa pretensão. Um pouco como dizia John Keats em relação à poesia: é como mergulhar num lago, sem a preocupação de chegar à beira.

De facto, a escrita de António Lobo Antunes é provavelmente a mais genial que exista neste momento em língua portuguesa. E, se no princípio custa um pouco sair da gramática e pontuação habituais, depois de algumas páginas perguntamo-nos como será aborrecido e já sabido ler no estilo tradicional...

A sua força e a sua debilidade é ser um romance sem história (sem plot, na terminologia inglesa): personagens congelados em fotografias que reúnem passado, presente e futuro; ambientes facilmente reconhecíveis; a beleza e o sofrimento ligados aos mais comuns sentimentos humanos. «Talvez fosse a que perseguimos desde sempre e estava ali à mercê, se torna ela mesma os passos e as vozes, afinal recuerámo-la», esta experiência vital: «são pessoas, episódios, lembranças, o sótão poeirento que compõe uma existência» (p. 356).

16/01/2010

A estrada (The road)

John Hillcoat (2009)

Já comentada na sua versão literária, de autoria de Cormac McCarthy (ler), a versão cinematográfica de A estrada deixa uma impressão muito semelhante a quem se abeira dela.

Num ritmo trepidante e cheio de efeitos visuais e sonoros próprios do thriller, esta versão é também um elogio poético à fotografia cuidada e precisa, aos diálogos tendencialmente fiéis ao texto e à música bem escolhida.

Obviamente, um filme é sempre mais explícito do que um texto literário, e por isso confirma-se o habitual lugar comum: perde-se alguma parte do mistério e do fascínio ao ver o que no livro só podemos imaginar. Mas não é este o único limite da longametragem: também observamos um ênfase no aspecto mais sentimental da narração e uma perda da crueza a que McCarthy nos tem habituados.

Ainda assim, vale a pena destacar as óptimas interpretações e a fidelidade no conjunto a uma história fascinante, de conteúdos muito positivos e de humanidade invulgar.

26/10/2009

The soloist (O solista)

Joe Wright (2009)

Um jornalista do Los Angeles Times, Steve Lopez, pretende escrever um artigo sobre um sem-abrigo, outrora músico promissor. Mas percebe logo que este encontro vai abrir novos horizontes para a sua vida: «Nunca amei nada da maneira que ele ama a música», diz depois duma das suas primeiras conversas com ele.

O realizador Wright, que já nos surpreendeu positivamente com Atonement (Expiação), explora de novo situações pessoais ao limite, para redescobrir o lado bondoso e mais humano de dois homens sozinhos e rejeitados. Saíndo do cliché do génio musical-doente mental (por exemplo, de Shine, com Geoffrey Rush, de 1996), arrisca muito no estudo meditativo duma relação conflitual, que protagoniza o filme mais do que a música ou a excelente fotografia.

A mensagem final é excelente: uma lição de humanidade para quem se lança no voluntariado à procura de responder às necessidades dos outros, e não consegue mudar nada, mas acaba por receber muito mais do que teria esperado: a satisfação da entrega da vida.

O seu defeito é talvez ser «demasiado» meditativo, isto é, por vezes lento. Quem gostar de Beethoven, poderá deliciar-se com as suas músicas e os jogos de destaque do violoncelo solista e da orquestra (incluindo um jogo visual interessantíssimo). Quem amar pouco a música clássica, veja o filme num dia em que não estiver sonolento.

06/10/2009

Fame

Kevin Tancharoen (2009)

«Youve got big dreams? You want Fame? Well, Fame costs. And right here is where you start paying in sweat». Assim começava a famosa série dos anos oitenta que inspira este remake, que precisamente nos primeiros minutos repite esta frase junto com aquele famoso refrão de Irene Cara: «Remember... Remember...».

De resto, só a Academy of Performing Arts of New York e o ambiente escolar de adolescentes mantém uma certa semelhança com as recordações daquela série. A música, as coreografias, o uso das tecnologias e as personagens são muito diferentes e muito mais apelativas nesta versão. Por vezes sobrecarregada de diálogo e de drama, não há dúvida de que são brilhantes algumas cenas musicais (em particular, a jam no bar da Faculdade).

O tema é que é realmente fascinante (não a história, quase inexistente). Embora possa parecer banal, este grupo de rapazes e raparigas com talento, que procuram o sucesso nos seus dramas adolescenciais, reflectem bem o que é o homem. E sobre tudo, reflectem algo muitas vezes esquecido: como os grandes desejos definem as pequenas acções do dia-a-dia de cada ser humano.

Pode parecer irreal este grupo de professores e alunos que sempre se dão bem e ajudam, que consideram a pessoa como uma unidade, que querem tirar o melhor de si próprios e dos outros. Mas, permitam-me opinar, se cada um de nós começasse a fazer isto na sua porção de mundo, de certeza seríamos mais felizes. Como os rapazes e raparigas de Fame.

20/09/2009

Macaco, Puerto presente (2009)

Macaco é uma banda espanhola muito original no panorama musical contemporâneo. Chamam o seu estilo rocksteady: uma mistura de ritmos latinos, espanhóis e músicas étnicas. De facto, neste grupo musical reúnem-se membros de diferentes países latino-americanos e até africanos, misturando tradições e melodias de maneira inovadora, a partir duma base em Barcelona.

No País vizinho foram número 1 ao longo do Verão passado, por isso podemos esperar também algumas cedências ao esquema comercial das rádios na moda. Ainda assim, no repetitivo panorama actual, destaca-se como qualquer coisa de diferente.

A melhor frase a destacar em seus textos: «A vida é aquilo que acontece enquanto fazes outros programas».

10/02/2009

Revolutionary road

Sam Mendes, 2008

Donde pode nascer a esperança? No caso desta história, a pergunta coloca-se a um jovem casal, com filhos e uma vida acomodada, que começa a perder o entusiasmo dos ideais da juventude.

Parece que esses ideais podem ser reconquistados. São apresentados como uma mudança de vida, uma viagem a Paris, certas imagens do passado, a chama do amor apaixonado. Ela, April, relembra o aspecto verdadeiro desse entusiasmo, desse desejo de viver até ao fundo. Ele, Frank, reconhece: «Eu quero sentir as coisas, senti-las realmente».

E, de novo, April, insiste: «Ninguém pode esquecer a verdade, Frank». Só que para ela, a medida que o filme avança, esse ideal torna-se sonho: um projecto na sua imaginação que pouco tem a ver com os factos, com a realidade. E Frank, no meio do drama, dá-nos a chave da história: a verdade comporta «a espinha dorsal para não fugir das responsabilidades».

Destaca-se no filme a música. Consegue criar uma atmósfera cada vez mais dramática, sem excessos. Extraordinárias algumas cenas onde o meditativo tema principal se repete por muitos minutos, deixando em segundo plano as conversas ou situações.

Por último, um destaque também para di Caprio e Winslet, não nomeados para aquela farsa chamada «Óscar». Como não vi Titanic, resultam-me muito genuinos e polifacéticos em Revolutionary Road.