16/01/2010

A estrada (The road)

John Hillcoat (2009)

Já comentada na sua versão literária, de autoria de Cormac McCarthy (ler), a versão cinematográfica de A estrada deixa uma impressão muito semelhante a quem se abeira dela.

Num ritmo trepidante e cheio de efeitos visuais e sonoros próprios do thriller, esta versão é também um elogio poético à fotografia cuidada e precisa, aos diálogos tendencialmente fiéis ao texto e à música bem escolhida.

Obviamente, um filme é sempre mais explícito do que um texto literário, e por isso confirma-se o habitual lugar comum: perde-se alguma parte do mistério e do fascínio ao ver o que no livro só podemos imaginar. Mas não é este o único limite da longametragem: também observamos um ênfase no aspecto mais sentimental da narração e uma perda da crueza a que McCarthy nos tem habituados.

Ainda assim, vale a pena destacar as óptimas interpretações e a fidelidade no conjunto a uma história fascinante, de conteúdos muito positivos e de humanidade invulgar.

02/01/2010

António Vivaldi, Concerto para quatro violinos (1716)

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A arte é a maneira do homem expressar a beleza e, como dizia São Tomás, a beleza é splendor veritatis (o esplendor da verdade). Por isso tudo o que é belo remite a Deus, pois essa beleza é reflexo da sua Beleza.

Esta música de António Lúcio Vivaldi foi curiosamente copiada a um outro autor: nem mais nem menos do que o grande Johannes Sebastian Bach. Na altura, ninguém ficava aborrecido, nem recebia taxas pelos seus discos, ainda que se tratasse de obras mestres.

O Concerto para quatro violinos de Vivaldi foi composto por Bach para claves, para que fosse tocado pelos quatro filhos músicos que teve. Lembremos que ele teve 21 filhos! Impressiona o facto de Vivaldi nunca ter ouvido falar de Bach ou da sua obra, mas copiou e reelaborou a sua música, porque reconheceu nela a sua qualidade. (Comentário por Ángel Cebolla)

28/12/2009

O aborto de Deus, de Alain Decaux

Lisboa: Quetzal, 2004, pp. 308, 10,00€

A genialidade desta vida de São Paulo é a sua contemporaneidade. É como ler um guia turístico, em que o Autor nos faz percorrer os lugares significativos da vida do protagonista.

Decaux delicia-nos com os seus conhecimentos da geografia e orografia, da Grécia e a Roma clássicas, da mitologia, das etimologias e das línguas, das fontes bíblicas e da teologia, dos estudos e biografias mais modernos deste santo cristão.

A história desta conversão ainda hoje não pode deixar indiferente: o fariseu Saulo, judeu observante e perseguidor dos primeiros discípulos de Cristo, torna-se em pouco tempo Paulo, o mais audaz desses discípulos. Esta biografia narra estas mudanças duma forma acessível a todos, com profundidade mas sem ser complicada ou excessivamente erudita.

24/12/2009

As mais belas histórias portuguesas de Natal, escolhidas por Vasco Graça Moura

Lisboa: Quetzal, 2008 (várias datas), pp. 461, 17,75€

Nem todas as histórias deste volume fazem referência explícita ao Natal, e nem todas elas são aquilo que se espera tradicionalmente deste subgénero literário. Poucas delas falam de Deus e ainda menos serão consideradas cristãs pelos leitores católicos. Algumas são pessimistas, outras tristonhas ou até trágicas.

Trata-se duma coleccão de histórias de variadas dimensões e temáticas, que divergem enormemente, sobre tudo em virtude dos seus Autores: Jorge de Sena, Miguel Torga, José Régio, Alexandre O'Neill e Fernando Namora são alguns dos nomes mais conhecidos que fazem perceber esta diversidade. Mas há também outros nomes mais discretos que destacam com escritas belas e temáticas profundas.

O melhor: o famoso Conto exemplar dos Três Reis Magos de Sophia de Mello Breyner. O pior: a «História de um muro branco e a neve preta» de um tal José Saramago que, como a própria neve preta faz intuir, não faz sentido.

Com prudência, uma boa leitura natalícia.

14/12/2009

Versos, de Amália Rodrigues

Lisboa: Cotovia, 2005 (1997), pp. 125, 12,00€

«O que distingue os poetas / os faz distintos da gente / é dizer em duas letras / o que toda a gente sente». Será que Amália se pode incluir na definição de «poeta» que ela própria dá nesta quadra?

A colecção de Versos que apresentamos quer responder «sim» a esta pergunta, colocando nestas breves páginas (com muito espaço branco, mas pouco bem apresentadas) uma colecção de poemas gravados, poemas não gravados, poemas cantados e umas cartas em verso.

A simplicidade do estilo não poderia ser maior, facto que pode ser considerado virtude ou limite. Os amantes da poesia clássica encontrarão quadras tão simples que parecem obra duma criança, e hão-de concluir que musicadas podem ter um seu valor, mas que em papel não prestam. Pelo contrário, aqueles que estiverem pouco familiarizados com a experimentação literária e com os recursos estilísticos requintados encontrarão uns textos de fácil leitura, lineares, compreensíveis à primeira vista.

Ambos tipos de leitores, porém, deverão reconhecer que o conteúdo destes versos, por muito simples e essencial que seja, brilha pela sua força e universalidade. Aqueles sentimentos de amor, tristeza, paixão e ternura pertencem-nos a todos. A fim de contas, dizem, em duas letras, «o que toda a gente sente».

06/12/2009

The Narnia Chronicles – The lion, the witch and the wardrobe (As crónicas de Nárnia – O leão, a feiticeira e o guarda-roupa), de C. S. Lewis

Lisboa: Presença, 2003 (1950), pp. 133, 8,00€

Há livros que alcançam sucesso em determinados momentos da história e depois ficam esquecidos. Esperemos que não seja este o caso das Crónicas de Nárnia, que alcançaram grande fama graças a dois filmes nos últimos anos. São sete os volumes dessa série, e só dois deles tiveram realização cinematográfica. Mas nos tempos que correm, nem sequer a imagem e as grandes campanhas publicitárias chegam para manter a tensão comercial duma obra em sete volumes. [Contudo, há ali um mágico a tentar, mas não se sabe se irá conseguir...]

De facto, estas Crónicas, que têm pouco de tal coisa, já cumpriram mais de 50 anos e ainda hoje continuam a ter o mesmo efeito que quando foram publicadas pela primeira vez. São uma espécie de contos para crianças e adultos, que escancaram as portas da nossa imaginação para alcançarmos mundos irreais, mas muito realistas.

O leão, a feiticeira e o guarda-roupa é o primeiro dos volumes da série, embora o Autor tenha colocado uma outra história antes, a modo de introdução. Por isso, hoje vemo-lo como segundo volume nas edições que as apresentam separadamente.

A travês de quatro crianças, com as suas virtudes e defeitos, somos introduzidos neste mundo de animais fantâsticos, relações de amizade e ódio, ajuda e divisão, que nos fazem entrar numa visão positiva da realidade e dos desígnios que nela existem. Nem mito nem alegoria, Lewis coloca-se na linha de Tolkien num uso inovador da literatura de fantasia como meio de alcançar valores eternos. Fantástico.

30/11/2009

Sonetos (Sonnets), de William Shakespeare

Lisboa: Bertrand, 2002 (1609), Edição de Vasco Graça Moura, pp. 342, 25,00€

Numa velha antologia encontro recolhidos os sonetos números 12, 18, 23, 29,30, 60, 65, 66, 73 e 116. Pode ser boa ideia começar por estes, para descobrir neles algumas das chaves da poética do maior génio da literatura inglesa.

Já se afirmou que a forma poética do Soneto é a mais perfeita, com os seus 14 versos. Salvo raríssimas excepções, Shakespeare utiliza sempre uma estrutura de três grupos de quatro versos, mais um dístico final; isto é, um esquema 4-4-4-2. Suficientemente simétrico e rimado, perfeitamente silábico no clássico ritmo do pentâmetro jâmbico inglês, e ao mesmo tempo com um certo desequilíbrio entre as três proposições e a conclusão final, constituem um perfeito exercício de maestria linguística, uma perfeita imperfeição.

A tradução, certamente livre, que Vasco Graça Moura oferece nesta edição, propõe diferentes tentativas de transposição destas formas para português, algumas mais felizes do que outras. Para o leitor pouco familiarizado com o inglês da época isabelina, porém, são uma boa maneira de aproximação a formas poéticas complexas, longínquas da banalidade contemporânea.

Muitas interpretações se deram destes Sonetos, e provavelmente aí reside a sua grandeza, como no teatro deste mesmo Autor. A amizade, o amor, a traição, a vida e a morte, a misteriosa «mulher oscura», fazem desta leitura um feliz reecontro com um génio universal e eterno.

15/11/2009

Orgulho e preconceito (Pride and prejudice), de Jane Austen

Lisboa: Europa-América, 1989 (1813), pp. 284, 7,00€

«É uma verdade mundialmente conhecida que um homem solteiro que tem uma grande fortuna necessita encontrar uma esposa».

Hertfordshire, início do século XIX. Três histórias de amor misturam-se numa desajeitada família da burguesia inglesa. Lydia, Jane e Elisabeth, três das cinco irmãs da família Bennet, terão o seu happy ending só depois de longas e intricadas peripécias.

Mas esta novela, um clássico adaptado ao cinema em várias ocasiões (nem sempre com o mesmo sucesso), é mais do que esta história de alguns dramas sentimentais. Para além de descrever com ironia e simpatia a sua época, a Autora encontra neste emaranhado de relações problemas, dificuldades e alegrias com que todo ser humano se depara ao longo da vida. A começar pelos temas que o próprio título enuncia: o orgulho e o preconceito.

Jane Austen tem um lugar de prestígio na história da literatura, e não é imerecido. Foi muito inovadora neste tratamento dos argumentos e temas do romance, e a sua escrita é tão leve que não damos pelas horas a passar.

11/11/2009

O pórtico do mistério da segunda virtude, de Charles Péguy

Lisboa: Grifo, 1998 (1912), pp. 205, 14,00€

A França de São Martinho sempre deu à Igreja Católica grandes homens de cultura, e um deles é, sem dúvida, Charles Péguy. No princípio do século XX, este poeta e crítico torna-se uma das figuras mais relevantes do panorama cultural da França republicana e laica, com um percurso pessoal que vai do socialismo até a uma conversão pouco pacífica, sempre à margem do establishment da elite intelectual católica.

Péguy escreve teatro e poesia, para além de ensaios. Mas a barreira do género literário é complexa neste autor: o seu teatro é irrepresentável (com crianças a ressuscitar em cena ou passarinhos que voam a chilrar, por exemplo), e a sua poesia é sempre dramática, é sempre um diálogo.

Neste monólogo teatral chamado «O pórtico do mistério da segunda virtude» (que se refere à esperança), as vozes poéticas meditam sobre esta virtude, com imagens que impressionam o leitor: a esperança tem o rosto dum pai que trabalha nos campos para sustentar a sua família, ou duma criança que vai a frente e atrás numa procissão do Corpo de Deus.

A presente edição conta com uma notável introdução, que introduz nas chaves da biografia de Péguy e nalguns elementos da sua poética e visão do mundo. É daquelas que vale a pena ler.

04/11/2009

Contos, de Oscar Wilde

Lisboa: Relógio d'Água, 2001 (1888), pp. 170, 12,00€

Há muitas edições dos Contos infantis de Oscar Wilde, com diferentes títulos, e esta não é melhor do que qualquer outra. Importantes são os contos que têm por título: «O rouxinol e a rosa», «o príncipe feliz», «o aniversário da infanta», «o amigo dedicado» e «o gigante egoísta».

Não são só contos infantis, porém, estas narrações do mais famoso dândi da história. Para além de conter fortes ataques às convenções sociais da sua época (e talvez da nossa), destacam-se pela sua grande sensibilidade estética e por uma exaltação da humanidade e dos seus grandes valores.

A primeira vista, são contos que sublinham principalmente o aspecto moral de certas virtudes, sempre exaltadas, ao passo que os vícios antitéticos são denegridos. Mas o leitor não se deve deixar enganar, porque há muito mais do que moral em frases como: «O amor é melhor do que a vida», ou «Não conheço no mundo nada mais nobre ou mais raro que uma fiel amizade».

Wilde é genial, sobre tudo, porque é capaz de identificar aquele quid que constitui o coração do homem. De facto, uma infanta, que se divertia com um anão, ao descobrir que este se tinha apaixonado por ela, solicita: «Doravante, quem vier jogar comigo não deve ter coração».