18/02/2016

Há lodo no cais (On the waterfront)


Elia Kazan, 1954



Terry Malloy é o extraordinário protagonista desta obra-mestre, representado por um muito jovem Marlon Brando. Dividido, o seu drama desenvolve-se entre a aceitação conformista da rede mafiosa liderada pelo seu irmão e por Mr. Friendly, e as várias provocações suscitadas pelo padre Barry, pela atrativa Edie e pela própria verdade dos factos.

No cais ao qual cada manhã se dirige em busca de trabalho, privilegiado pela sua proximidade e simpatia para com os chefes da máfia local, há lodo: há mentiras, há jogos de poder, há vingança e morte para quem tente denunciar o status quo.

O padre Barry, provocado pela morte de um jovem e pela questão: “que classe de santo fica escondido numa igreja?”, decide tomar parte ativa nos sindicatos do cais. A jovem Edie, que sofre a perda dum irmão assassinado por “bufo”, também é atirada para o mesmo terreno. E assim, o silencioso Terry, ex-pugilista que toma conta de pombos no seu telhado, tem a oportunidade de alcançar uma libertação, de realizar um gesto que pode redimir a sua antiga cumplicidade. Mas nada vai ser fácil...

09/02/2016

Se Deus quiser (Se Dio vuole)

Edoardo Falcone, 2015
Um médico ateu, cheio de si próprio e de belas frases feitas, vai encontrar-se perante uma situação familiar que o deixará em xeque. Surpreendidos por um cenário inesperado, cada um dos elementos da sua família reagirá de forma diferente. A figura de um padre católico poderá estar no centro do problema emergente, ou da sua solução. Sem dúvida, médico e padre serão o centro narrativo desta comédia.
Sim, este início de história de facto pertence a uma comédia. Aliás, a uma comédia mesmo hilariante. Se bem que algumas personagens, sobretudo aquelas mais laterais, por vezes podem parecer caricaturas simplórias, na realidade desenvolvem papéis sempre interessantes e fora do previsível.
A maior novidade da estreia cómica deste realizador italiano é que o tema religioso, central no desenrolar-se da história, é tratado com enorme respeito, sem demasiados clichés e sem as habituais quedas na ordinarice ou na palhaçada. Mesmo na maior comicidade, há um fundo muito sério nesta história que, além de produzir algumas gargalhadas, deixa alguns tópicos e imagens para a nossa reflexão.

25/01/2016

O zoo de vidro, de Tennessee Williams

em Doce Pássaro de Juventude e outras peças
Lisboa: Relógio d'Água, 2015, pp. 394, 18,00€
As obras do dramaturgo Tennessee Williams estão atravessadas pela contínua busca desse «qualquer coisa de inesperado pelo que vivemos e que sempre se atrasa», segundo as suas próprias palavras. Em todas elas encontram-se personagens opostos que, duma ou outra forma, tentam encontrar um significado para as suas miseráveis vidas.
O zoo de vidro, o primeiro dos seus dramas de sucesso, faz referência ao frágil mundo da ilusão em que Laura Wingfield se refugia: por ser tímida e ligeiramente coxa, tornou-se incapaz de enfrentar a realidade. Do mesmo modo, as restantes personagens desta peça procuram num passado glorioso ou no cinema uma possibilidade de fugir ao asfixiante ambiente familiar. O encanto dos protagonistas está no facto de que nenhum deles se contenta com o estado presente, mas procuram, projetam, esperam, ao terem já visto que a tentativa de fugir é naturalmente um falhanço.
Trata-se dum teatro cheio de diálogos vivos, que se movem constantemente entre o plano realista e o plano simbólico. O narrador confessa ter «debilidade pelos símbolos», pelo que se encontram muitos elementos que remetem para uma realidade além da textual, muitas vezes enfatizados por mensagens que aparecem num écran no palco e que oferecem chaves de compreensão do que está a acontecer.
A alternativa a este falso mundo de ilusões é sugerida pela personagem de Jim O'Connor, um católico irlandês que acredita no sistema capitalista. Ele aceita jantar na casa dos Wingfield e, enquanto que essa família pretende fazer dele o pretendente da Laura, por sua vez Jim oferece a possibilidade de que todos possam enfrentar a realidade. Na ambiguidade que sempre prevalece no teatro de Williams, Jim conseguirá que Laura saia do seu mundo de sonhos e se abra uma porta à esperança.

12/01/2016

Sophia de Mello Breyner Andresen, Contos exemplares


Porto: Porto Editora, 2014, 164 pp., 12,00€
Mais do que uma narradora, Sophia de Mello Breyner é uma poetisa que escreveu contos. Ao mesmo tempo, as suas narrações são tão profundas que o Prefácio do Bispo António Ferreira Gomes chega a afirmar que nelas «há mais conteúdo cristão que nas de Cervantes ou Camões», e que a sua comunicabilidade essencial e interioridade riquíssima, feita de comunhão humana, superam os maiores: Hölderlin, Rilke, Shelley ou Pessoa.
Aquela que se pode aclamar como a maior poetisa portuguesa do século XX não poderá ser, portanto, reduzida a simples narradora de contos infantis, etérea poetisa do absoluto ou revolucionária socialista anti-regime. A sua riqueza poética e simbólica faz com que os seus Contos sejam verdadeiramente «exemplares», no sentido que os clássicos davam a esta palavra: exemplos ou paradigmas de experiências humanas, concretas e universais.
Como na grande literatura clássica, estes Contos exemplares procuram a nobreza de cada experiência e falam a partir de uma consciência existencialmente comprometida. Em muitos deles, a ironia chega a ser mordaz, na crítica a quem só olha para as aparências e se julga protegido no conforto das suas certezas. Mas, em última instância, prevalece uma simpatia humana, que reconhece o bem da realidade que existe e do outro que me ajuda a vê-la.

[*com um agradecimento a Rosarinho Lupi-Bello]

04/01/2016

A juventude (Youth)



Paolo Sorrentino, 2015


Quando o jovem actor Jimmy aparece caraterizado de Hitler, depois duma longa preparação para aquele que será o seu novo papel, confessa que por fim irá desistir. Porque? Porque esteve a observar as pessoas à sua volta e escolheu não deter-se no terror, mas falar do desejo. «Cada um de vocês abre os meus olhos» e, por diferente ou estranho que seja o desejo de cada um, é isso que nos torna seres humanos. A seguir, vemos um plano de um monje budista a levitar, numa clara referência transcendente.
Assim é o cinema de Sorrentino: escolhe falar do desejo, das «emoções», segundo as palavras de outra das personagens. Com estupenda simpatia e ironia, com realismo e graça, às vezes com excessiva nudez e crueza, a sua câmara filma de forma espectacular aquilo que é humano e nos constitui.
O tema principal é uma reflexão sobre a essência da juventude, desde o ponto de vista paradoxal de um par de amigos idosos que passam férias num complexo nos Alpes. Mais do que uma definição, procuram-se imagens, contrastes, várias faces da mesma experiência, novas luzes que iluminam aquilo que todos já vivemos duma ou outra maneira.
Mais uma grande beleza.

07/01/2015

A inocência do Padre Brown, de G. K. Chesterton

Lisboa: Aletheia, 2011, pp. 314, 15,30€
A figura dum sacerdote-detective, à moda de Sherlock Holmes ou Hercules Poirot, só pode ter sido imaginada por uma personalidade de génio como o convertido Chesterton. Em contos de poucas páginas, encontramos a tradicional apresentação dum crime, as tentativas de resolução e a desarmante sagacidade do detective que apanha o criminoso; só que, neste caso, o tal detective não é um polícia nem um investigador, mas um simples e aparentemente rude padre católico.
O Autor conta que, ao encontrar e conhecer a Igreja Católica, estava certamente à espera de que lhe falassem da moral e do bem, mas ficou espantado porque os católicos também falavam do mal, com igual profundidade e conhecimento de causa. Assim, quando criou a figura do detective Padre Brown, fez com que o seu método de investigação fosse baseado na sua experiência do mal: um padre que confessa, diz a personagem, passa muito tempo a ouvir pecados, e por isso tem facilidade em identificar-se com o mal que os homens fazem.
De facto, esta é a grande novidade de Chesterton nesta colecção de contos (que é a primeira de 5 séries, com um total de 50 histórias independentes): ao contrário dos métodos racionalistas e dedutivos que Conan Doyle aplicou para Sherlock Holmes, ou que ainda antes Allan Poe prefigurou no detective Dupin dos Assassínios da Rua Morgue, Chesterton usa a observação, o realismo e a experiência directa para que o seu Padre Brown desmascare o mal, sempre tão misturado com o bem...

29/11/2014

Boyhood: momentos duma vida (Boyhood)

Richard Linklater, 2014
«Mostrar a vida», as coisas pequenas do dia-a-dia, os eventos normais, sem contar muitas histórias, é a base deste avassalador filme de Linklater. Narra 12 anos na vida dum rapaz, Mason, filmados ao longo desse mesmo período de tempo, e permite ver nos seus 166 minutos, de facto, a densidade da vida.
Desde a primeira das 143 cenas, ficamos a simpatizar com o seu protagonista. Depois com a mãe dele e com o pai, que constituem um núcleo de relacionamentos que o introduzem na vida. Espanta a positividade com que estas personagens, para nada idealizadas, enfrentam as situações pelas quais qualquer criança e adolescente já passou, e qualquer pai ou mãe viu no crescimento dos mais novos.
O ritmo narrativo é mantido de forma espectacular pelas imprevisíveis mudanças de cena, pelo inexorável decorrer do tempo e do crescimento, mesmo visual, das personagens e de Mason em particular. Assim, nesta impressionante experiência cinematográfica, consegue-se dar todo o espaço à «normalidade», à beleza do quotidiano captado com uma máquina fotográfica, às músicas que descrevem estados de ânimo, às grandes perguntas sobre o sentido do nosso estarmos aqui, ao «presente que nos agarra».
Sem mistificações, é uma experiência do mais transcendente.

31/01/2014

Rush – Duelo de rivais (Rush)

Ron Howard, 2013
Numa das cenas finais de Rush, assistimos ao habitual desafio entre os heróis da história e surpreendemo-nos a querer que nenhum deles perca o duelo. É então que nos apercebemos que estamos perante uma narrativa diferente: deixando atrás a fácil oposição bons-maus, aqui reconhecemos pessoas reais, seres humanos com virtudes e defeitos, apresentados com uma genuína simpatia.
A carga emotiva desta viril encenação, ajudada por uma realização e produção brilhantes, é enorme. Se bem que vejamos algumas corridas e muitos cenários de oficinas e circuitos de fórmula um, na realidade o centro dramático são as alegrias e dificuldades nas vidas dos dois pilotas (Nikki Lauda e James Hunt). Vidas por vezes contrapostas, rivais, sempre respeitosas, por momentos até aliadas, numa conclusão que mostra como há sempre alguma coisa a aprender, mesmo do nosso pior inimigo.

18/01/2014

O ofício de viver, de Cesare Pavese

Lisboa: Relógio d'Água, 2004, pp. 400, 19,90€
Ao usar o adjectivo «erudito» aplicado a um Autor, por vezes é hoje revestido duma conotação negativa, como se o vasto saber fosse uma espécie de má-criação para um leitor que se desclassifica como medíocre.
Eruditos e geniais são certamente os diários do romancista e poeta italiano Pavese recolhidos nesta obra. Percorrendo os últimos 15 anos da sua vida, entre 1935 e 1950, esta figura chave da literatura europeia do século XX reflecte sobre a criação literária, o sofrimento, as suas leituras, a procura de sentido, o peso das palavras, entre outros muitos temas. Abordam-se esses temas de forma muito fragmentária, dado que as entradas de diário são geralmente breves, mas alguns deles repetem-se e reaparecem com renovada maturidade.

A forma do diário permite percorrer a vida pública deste escritor, ao passo que se entra na sua intimidade. Vai abrindo-nos o olhar à realidade que observa e descreve, que diz ser muito maior do que ele, e confessa que o faz tendo já perdido a batalha, porque «nunca se viu que uma poesia mudasse as coisas». Com momentos de profundidade insólita, nas suas reflexões laicas e sem fé à procura de si mesmo, é uma leitura que não deixará indiferente a ninguém.


05/01/2014

A vida secreta de Walter Mitty (The secret life of Walter Mitty)

Ben Stiller, 2013
Os títulos de crédito duram mais de cinco minutos, depois de duas horas de filme; mas a sua estética, a música que os acompanha, a beleza que preencheu os olhos do espectador e as perguntas que lhe ficam no fim da história tornam-nos quase breves. Até quem veio sem grandes expectativas, não pode deixar de ficar espantado por uma originalidade mais do que interessante em qualquer um dos aspectos mencionados.
De difícil classificação, não é de admirar que a crítica se tenha dividido perante a quinta realização de Ben Stiller. Sempre num tom cómico e descontraído, o realizador americano abandona desta vez o registo superficial das divertidas Zoolander ou Tempestade tropical, para nos levar a uma procura da identidade dum homem «cinzento como um pedaço de papel», que por vezes se perde numa realidade paralela.
Porém, a vida confronta a personagem de Walter Mitty com as suas dificuldades (o fecho da empresa onde trabalha, a perda dum valioso objecto, a sua timidez perante um amor que nasce) e ele, cada vez mais realista e menos sonhador, embarca-se numa série de aventuras para alcançar um ideal superior, que entrevê desde o princípio da sua «vida secreta». Paisagens (e fotografia) maravilhosas na Islândia, uma viagem impossível de helicóptero, idas e regressos a casa, tornam fascinante o percurso deste sonhador, com o qual não só é fácil criar empatia, como até identificarmo-nos.


14/12/2012

A infância de Jesus, de Joseph Ratzinger/Bento XVI

Lisboa: Principia, 2012, pp. 112, 11,90€

Aos seus 85 anos, o Papa Bento XVI completa a sua trilogia que medita sobre a vida de Jesus de Nazaré. Cada volume pode ler-se independentemente, mas em particular esta terceira entrega está dedicada a um universo muito diferente dos anteriores: a infância de Jesus, separada por uns 20 anos do resto da sua vida. E também porque o livro é descrito pelo autor como um «pórtico» dos outros dois volumes.

Para aqueles leitores que se deixem levar pelos preconceitos duma certa comunicação social, é preciso dizer que a narrativa é perfeitamente compreensível e singela. Será esta talvez a maior virtude dum sábio: dizer coisas muito profundas duma maneira tão simples que cada um se sente interpelado ao seu próprio nível.

A chave de leitura, com efeito, é a necessidade de confrontar-se com os conteúdos apresentados. Como o autor refere no seu prefácio, estuda-se antes de mais uma componente histórica dos textos que nos falam de Jesus, mas há depois uma segunda série de interrogações a colocar: «o que foi dito é verdade? Tem a ver comigo? Se sim, de que modo me diz respeito?». Eis a riqueza da leitura!

04/12/2012

Nos Idos de Março (The Ides of March)

George Clooney, 2011

George Clooney, que costuma ser pretensioso e depois desiludir expectativas, dirige esta longa-metragem com mais discrição do habitual. Desta maneira, consegue que o verdadeiro protagonista não seja ele próprio, no papel dum governador na carreira a candidato democrata para as eleições americanas, mas sim um dos seus assessores de campanha, o sublime Ryan Gosling.

Gosling, que aparece nas primeiras cenas do filme como um idealista que acredita na política e nas suas opções, cai na armadilha dos seus próprios princípios: numa dada altura, acusa a uma estagiária de ter errado e por isso pede-lhe para sair da equipa; na cena seguinte, é ele próprio a ter de reconhecer que também cometeu um erro... Abrem-se muitos pontos de reflexão, que o próprio filme não fecha nem sequer quando chegam os títulos de crédito (e talvez por isso seja um final muito bem conseguido).

Dentro dos limites duma determinada visão política (verde, anti-bélica e anti-religiosa), a virtude do filme é fazer-nos entrar um pouco naquele mundo das primárias americanas, para um europeu geralmente desconhecido, colocando questões morais interessantes. Isso, para além dum elenco de luxo, alguns bons pormenores de realização e uma montagem e ritmo narrativo excelentes.

15/11/2012

À espera de Moby Dick, de Nuno Amado

Lisboa: Leya, 2012, pp. 243, 14,50€

Não é muito comum encontrar um romance contemporâneo em português com um subtítulo tão comprometido como este: «Um homem em busca de si próprio». O seu autor, nascido em 1978, não tem a pretensão de chegar a ser número 1 de vendas, mas a sua tentativa de explorar a psicologia duma perda assume aqui um empenho humano de algum interesse.

A obra narra um percurso humano de descoberta de si próprio, numa situação de crise e dum cativante radicalismo. Desde a primeira página, em que o narrador anuncia quase contrariado: «Não me vou matar», acompanhamo-lo até à descoberta de «sete biliões de motivos para não me matar», que seriam equivalentes ao número de habitantes do mundo.

Entretanto, tenta envolver-nos numa singela fuga de «aquilo-que-aconteceu», num mundo em que todos fogem dalguma coisa. Ao leitor, uma provocação: anda também a fugir de si mesmo? E há alguma razão para continuar a esperar?

08/11/2012

César deve morrer (Cesare deve morire)

Paolo e Vittorio Taviani, 2012

«Desde que encontrei a arte, a minha cela tornou-se a minha prisão». Assim diz um dos presos que teve a oportunidade de representar a tragédia de Júlio César na prisão de Roma, tema deste filme. No princípio da história, reclamava o seu direito a uma cela individual; já no final, reconhece que a arte o tinha aberto ao mundo.

É um filme estranho este. Por uma parte, dominam-no uns belíssimos textos da tragédia Julius Caesar de Shakespeare, encenados num contexto actual de grande força e que suscita muitas provocações, realizados numa sequência a três tempos e sem tempo (isto é, no tempo de César, de Shakespeare, dos presos, de ninguém...). Por outra parte, a escolha dos actores/presos, assim como o uso do preto e branco na maior parte do filme, criam distâncias muitas vezes de grande violência para o espectador.

É uma interessante experiência. Sem dúvida, de alguma forma relacionada com o maravilhoso documentário «Jesus por um dia», de Verónica Castro e Helena Inverno, duas portuguesas que filmaram a encenação duma Via Sacra por parte dos presos de Bragança numa aldeia transmontana quase desabitada.

A ligação entre os textos originais e o contexto apresentado desperta inúmeras questões sobre a justiça, a redenção, o poder, o valor da arte. Todas elas valem a pena.

12/06/2012

Duas vidas e um rio (A river runs through it)

Robert Redford, 1992

Brad Pitt, aos seus só 29 anos, é a metade deste filme. A outra metade é o menos conhecido Craig Sheffer, seu irmão nesta narrativa de ficção (embora baseada numa autobiografia real). Os seus percursos e a relação entre ambos, desde a infância até à madurez, fazem deste filme um belíssimo canto à família e à amizade entre irmãos.

O mais velho dos irmãos, Norman, de cabelo escuro, cresce seguindo os passos do pai, um pastor protestante muito humano e pouco moralista, e chega a ser professor universitário, ao passo que se debate numa relação de amor genuína que o levará ao casamento. O mais novo, Paul, de cabelo loiro, pelo contrário, é uma espécie de «rebelde», inconstante, que se contenta com trabalhar no jornal local e com relações sentimentais mais esporádicas.

Mas numa relação verdadeira entre irmãos e com os pais, cada um deixa espaço para que o outro seja ele próprio e assim realize a sua vida. Como numa das muitas cenas em que vão pescar ao rio, na qual o Norman não está a pescar nada e o Paul afasta-se, para que o primeiro consiga descontrair e com maior liberdade encher também o seu cesto. A fim de contas, no rio há peixes para saciar a todos...

31/05/2012

Conta comigo (Stand by me)

Rob Reiner, 1986

Numa aldeia dos Estados Unidos mais ocidentais, um grupo de quatro amigos pré-adolescentes vivem um fim-de-semana daqueles que todos idealizamos com nostalgia no fim da nossa infância. São quatro personagens quase estereotipadas: o duro, o sensível, o extravagante e o medricas – como cada um de nós era ou podia ter sido naquela mesma idade.

A história desenvolve-se quando se aventuram na procura dum adolescente desaparecido, naquela de «brincar aos crescidos» e tornar a casa como heróis. Com enorme ternura, Reiner descreve as peripécias do grupo, desde as pequenas rivalidades e lutas pela afirmação de si próprios, aos mais divertidos momentos em que «quebram as normas» fumando pela primeira vez ou dizendo palavrões.

A principal beleza desta descrição não é um vago sentimento por esse passado, até porque a história desenrola e torna-se também séria e enredada. Essa beleza está, pelo contrário, na ideia que o título acertadamente aponta: no meio de todas as aventuras, vê-se e é possível contar com esses amigos, existe a possibilidade duma fraternidade e duma solidariedade, tão reais como desejáveis ao longo de toda a vida.

18/05/2012

Cartas a um jovem católico, de George Weigel

Coimbra: Tenacitas, 2012 (2005), pp. 256, 18,50€

«Basta ver um cartaz de cinema, entrar numa livraria ou ligar a televisão para nos apercebermos da imensidade de propostas eclécticas e confusas da cultura actual. Naturalmente, no melhor dos casos um jovem dos nossos dias só pode ficar perplexo e desorientado. Ou, no pior, céptico e prisioneiro de uma mentalidade comum tão informe quanto uniformizada.

»Apesar de tudo, a maior parte dos jovens portugueses do início do século XXI recebeu uma iniciação na fé católica e porventura reconhece-se explicitamente como católica. É principalmente a eles que se dirige este livro, sejam praticantes ou não, tenham mais ou menos dúvidas, tenham ou não participado alguma vez nas Jornadas Mundiais da Juventude.

»A cultura católica continua também hoje a propor-se como alternativa a essa grande confusão em que vive o homem contemporâneo. Não como mais uma alternativa a escolher entre as muitas, mas como algo tão fascinante, misterioso e totalizador que desperta um interesse nunca antes imaginado. Poderíamos dizer, com uma imagem, que se propõe como aquele primeiro amor, genuíno e puro, que faz com que todos os outros pretendentes à conquista do próprio coração sejam desclassificados de imediato» (Do Prefácio, por Luis Miguel Hernández).

09/05/2012

Vários artistas, U2's Achtung Baby tribute (2011)



Quem não se lembra da mudança de estilo que significou o álbum Achtung Baby na carreira dos U2? Para alguns, essa passagem a uma maior maturidade foi difícil de digerir, mas para a maior parte dos seus seguidores foi a transformação dum gosto numa paixão.


Em 2011, 20 anos depois desse lançamento, com mais 5 álbuns de estúdio e uma percurso de sucesso mais do que consagrado, alguns nomes famosos se juntaram para celebrar e recrear aquele que é considerado por quase todos um marco da música pop/rock. Depeche Mode, Garbage ou Patti Smith retomam o lado mais escuro e inovador da banda irlandesa, enquanto The Fray, The Killers ou Snow Patrol destacam pela aposta nos tons mais comerciais e tradicionais.

Para quem já conhece de cor estas músicas e as suas letras, esta proposta oferece a beleza de algo antigo misturado com algo novo.

28/04/2012

Margarita e o Mestre, de Mikhail Bulgákov

Lisboa: Relógio d'Água, 2007 (1966), pp. 366, 25,00€


«Um facto, como se costuma dizer, sempre é um facto, e não se pode virar-lhe as costas sem explicações». Até quando estes factos são tão extraordinários como os descritos neste romance, que demorou mais de 10 anos a ser escrito e foi publicado só 20 após a morte do seu autor. Factos que implicam o próprio Diabo, acontecimentos trágicos na Moscovo dos anos 30, Pôncio Pilatos e um tal Ieshua Ha-Nozri.


Sobretudo na primeira parte do livro, destaca-se a força manipuladora do poder estabelecido: com efeito, todas as personagens que se confrontam com estes factos e se implicam neles são postas num manicómio. Há milícias, delatores, guardiães, que se esforçam em manter a ordem que tais factos quebram, e que portanto eliminam ou limitam a liberdade daqueles que os presenciam.

Na segunda parte, que focaliza as personagens que dão título ao romance, esse tema deixa espaço à liberdade em acção de pessoas irredutíveis, à tenacidade de quem não se contenta com o que é politicamente correcto, mas alimenta grandes desejos ideais. Todo um desafio para a Rússia de Estaline e para a Europa do século XXI.

21/04/2012

Doutor Jivago, de Boris Pasternak

Lisboa: Sextante Editora, 2010 (1957), pp. 562, 29,90€

Um dos grandes romances da literatura do século XX, um dos grandes romances russos de sempre: um clássico.

A um leitor ocidental contemporâneo chama a atenção a grande quantidade de personagens do romance (algumas edições até contêm um índice de nomes). São centenas deles, cada um com nome, apelido e patronímico, cada um com a sua história, com o seu percurso de vida único e irrepetível. Como os numerosos comboios do romance, cada um com o seu itinerário e as suas paragens, com o seu destino.

De facto, este parece o tema predominante do romance, além das histórias pessoais dos seus protagonistas principais, humanas e fascinantes. Num contexto de socialismo, de estatalismo uniformador, de colectivização e de alienação do indivíduo, Pasternak faz emergir o «eu» de cada ser humano, na sua maravilhosa unicidade. E faz perceber como é a pessoa quem protagoniza a história, e não os sindicatos, a Revolução de Outubro ou o regime soviético.

Com uma visão muito afastada de qualquer moralismo ou lógica do sucesso, Pasternak apresenta, de facto, uma realidade cativante que produz a adesão simples aos factos, à vida. Não é por acaso que a tradução literal do apelido do protagonista, Jivago, significa «o vivente».