07/05/2010

Joseph Ratzinger, Bento XVI (1927-)

Este «idoso» move e comove milhões de pessoas de todo o mundo, apesar de toda a oposição que lhe fazem a mentalidade dominante e os meios de comunicação social. Só por isto, é já um homem que «vive intensamente».

Mas a grandeza deste homem (e do que representa) é a sua incansável insistência em permanecer firme às suas convicções, que o tornam quase que cada vez mais jovem na proposta das mesmas.

A sua biografia é simples: nasceu na Alemanha, tornou-se padre aos 24 anos, foi feito arcebispo e cardeal aos 50, pouco depois foi trabalhar a Roma e foi eleito Papa em 2005. Entretanto, escreveu uns 100 livros e 600 artigos especializados, hoje traduzidos em todas as línguas.

Teremos a ocasião de o encontrar em Portugal de 11 a 14 de Maio. O que é que nos dirá?

29/04/2010

As razões de Bento XVI, de Aura Miguel

Lisboa: Texto, 2010, pp. 93, 9,00€

A única vaticanista que viaja com o Papa publica uma sintética biografia de Bento XVI, onde quase não se fala de Joseph Ratzinger (o «velho eu» do actual Papa): as suas linhas de pensamento, os episódios públicos mais simpáticos da sua vida, o seu dia-a-dia como Papa.

Alguns capítulos são praticamente resumos e citações de suas homilias e discursos, pelo que temos uma síntese extraordinária de cinco anos de pontificado. E é preciso reconhecer que esses textos estão muito bem escolhidos e apresentados, tornando a leitura fascinante e despertando a curiosidade do que vem a seguir.

O título e a capa não são talvez o melhor que se podia fazer, e pelo formato parece um livro pequeno; mas a letra é também pequena e os conteúdos são muito maiores do que a aparência.

Para quem é católico e para quem não é; para quem já conhece alguma coisa e para quem não conhece nada; para quem já gosta de Bento XVI e para quem acha que não gosta. Vale a pena.

18/04/2010

Gimnopédies, de Erik Satie (1888)

O compositor francês Erik Satie (1866-1925) é talvez mais conhecido pelo seu ser excêntrico do que pelas suas extraordinárias composições.

Com efeito, Satie não se cataloga muito bem entre os compositores impressionistas do final do século XIX, e provavelmente é precursor dos também franceses Ravel ou Debussy, ou até dos minimalistas contemporâneos. Fundou a sua própria igreja, coleccionava artigos iguais e com pouco interesse, dava às suas músicas títulos absurdos.

Gymnopaedia era uma dança celebrativa em honra do deus Apolo, onde os homens de todas as idades dançavam sem armas. Assim, estas três composições que levam este nome podem entender-se como estruturas musicais «desarmadas» de ornamento, simples e circulares.

A sua beleza envolve um certo misticismo, um certo sentimento de saudade e uma profundidade de emoções dignos de se experimentar.

09/04/2010

Sabeduria dum pobre (Sagesse d'un pauvre), de Eloi Leclerc

Braga: Editorial Franciscana, 2009 (1963), pp. 143, 5,25€

Neste romance, conta-se a história dum homem que perde a sua confiança em Deus e nos homens. Aparentemente desiludido com alguns falhanços, isola-se do mundo e até dos seus amigos.

O pormenor, não secundário, é que este homem é são Francisco de Assis. O santo que sempre imaginamos alegre, triunfante no seu desafio à própria família burguesa e à sociedade do seu tempo, seguido por milhares de jovens em poucos anos, sofre esta crise.

É uma crise que toda a gente vive, mais tarde ou mais cedo, nalgum momento da existência. Por isso, é fácil encontrar nesta narração um espelho de preocupações, tentações e caminhos pelos quais todos passámos. O conhecimento da alma do seu autor, o franciscano Leclerc, permite-lhe fazer descrições psicológicas belas e profundas.

A simplicidade da escrita e da narração é, sim, aquilo que imaginamos no grande são Francisco.

04/04/2010

Tudo o que você queria ouvir, dos GNR (1996/2006)

Em 1996 foram dois discos, e em 2006 completaram-se com um «terceiro volume», esta selecção de sucessos chamada «O melhor dos GNR».

Estas músicas levam-nos desde as Dunas («são como divãs / biombos indiscretos de alcatrão sujo») até Ana Lee («se ela se põe de vestidinha / parece logo uma princesinha / num trono de jasmim»); e incluem Mais vale nunca («nunca mais saber / mais vale nunca, nunca mais crescer») ou Quero que tudo vá para o inferno.

Não dizem grande coisa, não são letras particularmente poéticas ou esteticamente inovadoras, mas fazem parte duma «tradição», dum «património», que encantou uma geração ou duas, em parte pela voz do seu vocalista, Rui Reininho, em parte pelo ritmo descontraído e a descrição geralmente positiva das suas personagens e paisagens.

Em absoluto, podem não ser os mais intensos; mas, comparativamente, são do melhor.

30/03/2010

Um lugar para viver (Away we go)

Sam Mendes (2009)

Sam Mendes, controverso realizador de filmes como American Beauty ou Revolutionary Road, caracteriza-se principalmente por oferecer uma perspicaz e inteligente crítica à sociedade burguesa contemporânea (americana, mas, como diz ironicamente uma personagem: «se a América é assim, como serão as moscas à volta dela?»). Falta-lhe sempre, porém, uma proposta alternativa. Diante deste panorama, o que fazer?

Neste filme, temos um casal amoroso à espera do seu primeiro filho, aos 34 anos: Burt Farlander and Verona. Quando descobrem que os avós estão a pensar em mudar de continente para os próximos anos, decidem eles também mudar de cidade, à procura dum «lugar para viver», dum «lar». Esta viagem pelos velhos amigos e familiares do casal permite-nos realizar uma viagem cheia de estereótipos da família americana (um casal com cinco crianças multi-étnicas adoptadas, um casal new-age que não usa carrinhos de bebé para não puxar as crianças para longe dos pais, e ainda outras experiências mais desagradáveis).

Com grande sentido do humorismo, por vezes cínico e por vezes até amargo, o senso do surreal provoca gargalhadas, que num segundo momento levam a reflectir: quase que os falhados Farlander parecem os mais normais dentro desta espécie de jardim zoológico humano. E, assim, no fundo, esta crítica social não é destrutiva, mas positiva (em particular, na cena dos compromissos que substituem o casamento que nunca se realiza). No fundo, saímos do cinema a pensar e a sorrir.

20/03/2010

Requiem a 5 vozes, de Cristóbal de Morales (1544)

A polifonia espanhola do Renascimento associa-se naturalmente a Tomás Luís de Victória e talvez aos seus famosos Responsorios. Neste mesmo género musical trabalharam também Francisco Guerrero e Cristóbal de Morales.

Morales nasceu em 1500 e foi maestro de capela nas Catedrais de Ávila, Plasência, Sevilha, Toledo e Málaga. Durante 10 anos fez também parte do Coro Papal de Roma, onde cantou diante de todos os monarcas europeus na Capela Sixtina que Miguel Ângelo tinha acabado de pintar em 1512.

Neste contexto de beleza, de grandes catedrais, esplendor artístico e profunda fe pré-Reformada, Morales revoluciona o gregoriano com a repetição do mesmo texto em diferentes ritmos, naquilo que se conhece por «polifonia», isto é, o desenvolvimento de várias vozes, que preservam um caráter melódico e rítmico individualizado.

Esta Missa de Requiem a cinco vozes é magistral neste exploit de beleza, ecos e ressonâncias. Em particular, o Gradual «lucet» com especial brilho, assim como a tecnicamente dificílima Sequencia.

11/03/2010

Joan Baez (1941- )

Ao contrário do habitual, o tema desta sugestão é uma pessoa e a sua carreira em geral. Talvez por ter tido a sorte de presenciar o seu concerto no Coliseu de Lisboa, estou convencido de que não é uma ou outra música, um ou outro disco, que faziam justiça ao que Joan Baez é, representa e simboliza.

O seu percurso pessoal levou-a, numa infância entre Nova Iorque e Califórnia, a ouvir os discursos sobre os Direitos Civis de Martin Luther King Jr., a comprar a primeira viola com 15 anos e a a conhecer um discípulo de Ghandi, que se tornará seu principal referente político. São as belíssimas histórias que conta e identifica nas suas músicas.

Assim, misturando a beleza de músicas inesquecíveis (folk, populares e tradicionais, versões de Dylan, Cohen, Parra e outros) com um grito de libertação (americano, e portanto, como ela própria disse, com conotações quer de esquerda quer de direita), a sua pessoa é um marco dos últimos 50 anos da história da música, e não só.

Encarna um grito que está presente no coração de cada homem: «how many years can some people exist / before they're allowed to be free», «may you stay forever young», «gracias a la vida»...

08/03/2010

Slumdog millionaire

Danny Boyle (2008)

Este filme foi tão famoso e premiado que só é aqui proposto no caso em que a alguém tenha passado a oportunidade de o ver. Porque vale a pena.

O centro da história é evidente: no concurso televisivo «Quem quer ser milionário?», um jovem da Bombaim pobre ganha o maior prémio da história. «Como é que ele, Jamaal, sabe todas as respostas?», é a pergunta com que o espectador é confrontado. E tem, como no concurso, quatro opções: (a) Sabe as respostas; (b) Faz batota; (c) É a sua sorte; (d) Está escrito.

Numa história que combina, portanto, inteligência, perspicácia, destino, desejos de grandeza, e um certo romantismo, encontramos grandes interpretações, uma excelente ambientação, um ritmo narrativo muito bem elaborado e a companhia duma boa banda sonora.

Em resumo, todo o contrário da carreira cinematográfica deste realizador.

24/02/2010

Clair de lune, de Claude Debussy (1890)

Ouvir «Só a Beleza pode mudar o coração do homem. Na Quaresma é-nos pedido que nos deixemos comover pela presença de Aquele que é a Beleza, a Verdade e a Bondade. Não se trata de um exercício de New Age, procurar uma qualquer paz interior ou harmonia com o cosmos... mas de reconhecê-lo presente e reconhecer o seu abraço à nossa vida.

A delicada música do «Luar» da Suite Bergamasque de Debussy é uma obra da sua juventude, que ele tentou não publicar, dado que a considerava uma obra imatura.

A peça já não soa como deveu soar lá quando foi composta, momento em que quebrava laços com a harmonia tradicional, deixando de ligar dois ou mais sons simultâneos, e inventando novas formas neste ramo da música. Junto com alguns efeitos obtidos com os pedais do piano torna esta música etérea, vaporosa, onírica e ao mesmo tempo duma beleza indiscutível.

Debussy enquadra-se na corrente do impressionismo francês de finais do século XIX e princípios do XX, do qual a peça é um genial exemplo.

(Comentário por Ángel Cebolla)