09/04/2010

Sabeduria dum pobre (Sagesse d'un pauvre), de Eloi Leclerc

Braga: Editorial Franciscana, 2009 (1963), pp. 143, 5,25€

Neste romance, conta-se a história dum homem que perde a sua confiança em Deus e nos homens. Aparentemente desiludido com alguns falhanços, isola-se do mundo e até dos seus amigos.

O pormenor, não secundário, é que este homem é são Francisco de Assis. O santo que sempre imaginamos alegre, triunfante no seu desafio à própria família burguesa e à sociedade do seu tempo, seguido por milhares de jovens em poucos anos, sofre esta crise.

É uma crise que toda a gente vive, mais tarde ou mais cedo, nalgum momento da existência. Por isso, é fácil encontrar nesta narração um espelho de preocupações, tentações e caminhos pelos quais todos passámos. O conhecimento da alma do seu autor, o franciscano Leclerc, permite-lhe fazer descrições psicológicas belas e profundas.

A simplicidade da escrita e da narração é, sim, aquilo que imaginamos no grande são Francisco.

04/04/2010

Tudo o que você queria ouvir, dos GNR (1996/2006)

Em 1996 foram dois discos, e em 2006 completaram-se com um «terceiro volume», esta selecção de sucessos chamada «O melhor dos GNR».

Estas músicas levam-nos desde as Dunas («são como divãs / biombos indiscretos de alcatrão sujo») até Ana Lee («se ela se põe de vestidinha / parece logo uma princesinha / num trono de jasmim»); e incluem Mais vale nunca («nunca mais saber / mais vale nunca, nunca mais crescer») ou Quero que tudo vá para o inferno.

Não dizem grande coisa, não são letras particularmente poéticas ou esteticamente inovadoras, mas fazem parte duma «tradição», dum «património», que encantou uma geração ou duas, em parte pela voz do seu vocalista, Rui Reininho, em parte pelo ritmo descontraído e a descrição geralmente positiva das suas personagens e paisagens.

Em absoluto, podem não ser os mais intensos; mas, comparativamente, são do melhor.

30/03/2010

Um lugar para viver (Away we go)

Sam Mendes (2009)

Sam Mendes, controverso realizador de filmes como American Beauty ou Revolutionary Road, caracteriza-se principalmente por oferecer uma perspicaz e inteligente crítica à sociedade burguesa contemporânea (americana, mas, como diz ironicamente uma personagem: «se a América é assim, como serão as moscas à volta dela?»). Falta-lhe sempre, porém, uma proposta alternativa. Diante deste panorama, o que fazer?

Neste filme, temos um casal amoroso à espera do seu primeiro filho, aos 34 anos: Burt Farlander and Verona. Quando descobrem que os avós estão a pensar em mudar de continente para os próximos anos, decidem eles também mudar de cidade, à procura dum «lugar para viver», dum «lar». Esta viagem pelos velhos amigos e familiares do casal permite-nos realizar uma viagem cheia de estereótipos da família americana (um casal com cinco crianças multi-étnicas adoptadas, um casal new-age que não usa carrinhos de bebé para não puxar as crianças para longe dos pais, e ainda outras experiências mais desagradáveis).

Com grande sentido do humorismo, por vezes cínico e por vezes até amargo, o senso do surreal provoca gargalhadas, que num segundo momento levam a reflectir: quase que os falhados Farlander parecem os mais normais dentro desta espécie de jardim zoológico humano. E, assim, no fundo, esta crítica social não é destrutiva, mas positiva (em particular, na cena dos compromissos que substituem o casamento que nunca se realiza). No fundo, saímos do cinema a pensar e a sorrir.

20/03/2010

Requiem a 5 vozes, de Cristóbal de Morales (1544)

A polifonia espanhola do Renascimento associa-se naturalmente a Tomás Luís de Victória e talvez aos seus famosos Responsorios. Neste mesmo género musical trabalharam também Francisco Guerrero e Cristóbal de Morales.

Morales nasceu em 1500 e foi maestro de capela nas Catedrais de Ávila, Plasência, Sevilha, Toledo e Málaga. Durante 10 anos fez também parte do Coro Papal de Roma, onde cantou diante de todos os monarcas europeus na Capela Sixtina que Miguel Ângelo tinha acabado de pintar em 1512.

Neste contexto de beleza, de grandes catedrais, esplendor artístico e profunda fe pré-Reformada, Morales revoluciona o gregoriano com a repetição do mesmo texto em diferentes ritmos, naquilo que se conhece por «polifonia», isto é, o desenvolvimento de várias vozes, que preservam um caráter melódico e rítmico individualizado.

Esta Missa de Requiem a cinco vozes é magistral neste exploit de beleza, ecos e ressonâncias. Em particular, o Gradual «lucet» com especial brilho, assim como a tecnicamente dificílima Sequencia.

11/03/2010

Joan Baez (1941- )

Ao contrário do habitual, o tema desta sugestão é uma pessoa e a sua carreira em geral. Talvez por ter tido a sorte de presenciar o seu concerto no Coliseu de Lisboa, estou convencido de que não é uma ou outra música, um ou outro disco, que faziam justiça ao que Joan Baez é, representa e simboliza.

O seu percurso pessoal levou-a, numa infância entre Nova Iorque e Califórnia, a ouvir os discursos sobre os Direitos Civis de Martin Luther King Jr., a comprar a primeira viola com 15 anos e a a conhecer um discípulo de Ghandi, que se tornará seu principal referente político. São as belíssimas histórias que conta e identifica nas suas músicas.

Assim, misturando a beleza de músicas inesquecíveis (folk, populares e tradicionais, versões de Dylan, Cohen, Parra e outros) com um grito de libertação (americano, e portanto, como ela própria disse, com conotações quer de esquerda quer de direita), a sua pessoa é um marco dos últimos 50 anos da história da música, e não só.

Encarna um grito que está presente no coração de cada homem: «how many years can some people exist / before they're allowed to be free», «may you stay forever young», «gracias a la vida»...

08/03/2010

Slumdog millionaire

Danny Boyle (2008)

Este filme foi tão famoso e premiado que só é aqui proposto no caso em que a alguém tenha passado a oportunidade de o ver. Porque vale a pena.

O centro da história é evidente: no concurso televisivo «Quem quer ser milionário?», um jovem da Bombaim pobre ganha o maior prémio da história. «Como é que ele, Jamaal, sabe todas as respostas?», é a pergunta com que o espectador é confrontado. E tem, como no concurso, quatro opções: (a) Sabe as respostas; (b) Faz batota; (c) É a sua sorte; (d) Está escrito.

Numa história que combina, portanto, inteligência, perspicácia, destino, desejos de grandeza, e um certo romantismo, encontramos grandes interpretações, uma excelente ambientação, um ritmo narrativo muito bem elaborado e a companhia duma boa banda sonora.

Em resumo, todo o contrário da carreira cinematográfica deste realizador.

24/02/2010

Clair de lune, de Claude Debussy (1890)

Ouvir «Só a Beleza pode mudar o coração do homem. Na Quaresma é-nos pedido que nos deixemos comover pela presença de Aquele que é a Beleza, a Verdade e a Bondade. Não se trata de um exercício de New Age, procurar uma qualquer paz interior ou harmonia com o cosmos... mas de reconhecê-lo presente e reconhecer o seu abraço à nossa vida.

A delicada música do «Luar» da Suite Bergamasque de Debussy é uma obra da sua juventude, que ele tentou não publicar, dado que a considerava uma obra imatura.

A peça já não soa como deveu soar lá quando foi composta, momento em que quebrava laços com a harmonia tradicional, deixando de ligar dois ou mais sons simultâneos, e inventando novas formas neste ramo da música. Junto com alguns efeitos obtidos com os pedais do piano torna esta música etérea, vaporosa, onírica e ao mesmo tempo duma beleza indiscutível.

Debussy enquadra-se na corrente do impressionismo francês de finais do século XIX e princípios do XX, do qual a peça é um genial exemplo.

(Comentário por Ángel Cebolla)

18/02/2010

Um homem sério (A serious man)

Joel e Ethan Cohen (2009)

Talvez seja o filme mais cínico dos últimos tempos. Politicamente incorrecto, anti-semita e, no fundo, absurdo, é um filme que só se pode ver considerando estas premissas. Não certamente pela sua mensagem.

Dito isto, um espectador inteligente poderá rir às gargalhadas se souber captar o humorismo cáustico dos realizadores Cohen. Se for capaz de suspender as categorias naturais da sua razão, a falta de relação causa-efeito dos eventos apresentados produzirá sem dúvida um divertimento singular.

Fazendo troça do «discurso religioso», o filme põe em evidência que não é pelas fórmulas ou pelas palavras que uma experiência se torna verdadeira. Mas, insisto, não é pelos seus temas que o filme se deixa ver, mas sim pela hilariante sucessão de sem sentidos, levada até limites insuspeitos.

16/02/2010

A ponte de San Luis Rey (The bridge of San Luis Rey), de Thornton Wilder

Lisboa: Difel, 1990 (1927), pp. 120, 6,00€

Uma ponte de cordas parte-se numa colónia espanhola do Perú, no dia 20 de Julho de 1714. Cinco pessoas que a atravessavam morrem. Frei Junípero, frade franciscano italiano em missão, coloca uma questão intemporal: «Porque aqueles cinco?»

Thornton Wilder (1897-1975), aclamado novelista e dramaturgo americano, ganhou um Pulitzer por este romance, para além de outros dois por peças teatrais. Porque essa pergunta que coloca surge diante de qualquer tragédia, natural ou de ordem humana, por pequena que seja.

«Há uma direcção ou significado na vida para além da vontade do indivíduo?», questiona uma personagem. A esta pergunta tenta responder o romance, que decorre desde uma primeira parte titulada: «Talvez um acidente», até à quinta titulada: «Talvez uma intenção».

Este «talvez» declina-se na investigação sobre as vidas daqueles cinco: uma Marquesa e a sua criada, um de dois irmãos gémeos, um homem de letras reformado e o filho duma actriz famosa. Ao leitor, a última tomada de posição diante dos factos.

06/02/2010

Guernica, de Pablo Picasso (1937)

Guernica, no País Basco, conta hoje com uns 18 mil habitantes e é uma comum cidade dessa região espanhola. Mas a sua fama deve-se principalmente a este quadro de Picasso, que a imortalizou, interpretando nele os horrores da Guerra Civil Espanhola.

De facto, Guernica foi bombardeada durante essa guerra, por parte dos alemães da Legião Cóndor, curiosamente em desobediência ao mando militar franquista do Geral Mola. Contaram-se nessa acção bélica 120 mortos, segundo a investigação consolidada de J. Salas, contra a propaganda das esquerdas liderada por Preston ou Blanco, que «mataram» em Guernica entre 1.500 e 1.700 pessoas.

Picasso, simpatizante da República e antifranquista, representa neste impressionante painel a preto e branco um episodio simbolicamente catastrófico para a sua causa, embora não dos mais terríveis. As figuras desfeitas, os gritos surdos e a dor, porém, são ambiguamente contrapostas a uma luz que deixa entrever a esperança última que sempre guia ao artista sincero.

A obra pode ser contemplada no Museu de Arte Contemporânea Rainha Sofia em Madrid. Pelas suas enormes dimensões e características artísticas, a seguir ao Prado é um must numa visita à capital espanhola.