07/07/2009

A vitória da razão (The victory of reason), de Rodney Stark

Lisboa: Tribuna, 2007 (2006), pp. 335, 19,95€

O título deste volume é um desafio em si mesmo: Será que a razão pode vencer ainda hoje, no nosso contexto relativista? Não lhe foi tirado qualquer estatuto, uma vez que se estabeleceu o domínio do sentimento e da instintividade? Inclusivamente, num recente cartaz lemos que «não basta ter razão», porque a razão está subordinada à necessidade de «ter votos».

Mas se olharmos para a capa, encontramos uma outra frase ainda mais desafiante: «Como o Cristianismo gerou a liberdade, os direitos do homem, o capitalismo e o milagre económico em Ocidente». Contra muitos «dogmas», afirmados desde as mais altas cátedras, que declaram o Cristianismo culpável de totalitarismos ou de outras intolerâncias, e que (desde Weber) proclamam o Protestantismo como alternativa salvífica ao «ferrugento» Catolicismo, Stark emerge com um estudo aprofundado e documentado que dá algumas pistas para repensar nestes supostos «dogmas».

Por exemplo, descreve como só no Catolicismo foi possível uma visão filosófica e teológica que permitisse ideias como o progresso, a ciência antropocêntrica ou o próprio capitalismo. «A liberdade é outra ideia que não existe em muitas das culturas humanas, possivelmente na maior parte», acrescenta: «Nem sequer existe uma palavra para liberdade na maioria das línguas não europeias».

19/06/2009

O homem eterno (The everlasting man), de G. K. Chesterton

Lisboa: Aletheia, 2009 (1925), pp. 380, 16,00€

«Quando certa vez perguntaram a Chesterton “que livro gostaria de ter consigo se fosse um náufrago numa ilha deserta”, esperando talvez uma resposta profunda e elevada como “a Bíblia” ou “a Divina Comédia”, respondeu com o óbvio “um manual de construção de botes”.

O espanto é a atitude de quem se surpreende com admiração diante de alguma realidade ou pessoa. Não é necessariamente a realidade a ser surpreendente: simplesmente pode ser olhada desde um novo ponto de vista, que a torna assim.

Portanto, o espanto é uma reacção do indivíduo, que vemos principalmente nas crianças. E em Chesterton. Ele e os seus livros surpreendem ao leitor, porque ele próprio se deixa espantar pela realidade (...).

[Mas] o verdadeiro espanto nasce como atitude procurada, desejada. Neste livro, O homem eterno, o leitor espanta-se pela força e beleza dos exemplos, descrições e argumentos, que dão forma a esta procura.

(Do Prefácio, por Luis Miguel Hernández)

12/06/2009

Um beijo a mais (The last kiss)

Tony Goldwyn (2006)

No início deste filme, Michael (o magnífico Zach Braff) anuncia aos seus sogros que vai ser pai pela primeira vez, com certas dúvidas, ou com pouco entusiasmo. Está para fazer 30 anos, tem a mulher perfeita, é um arquitecto de sucesso. Mas, pouco depois, confessa: «Estive a pensar na minha vida ultimamente, e sinto tudo já planificado. Já não há espaço para surpresas».

Sentimentos tão na moda como este, rodeiam-se a seguir de outra série de lugares comuns, encarnados em personagens e frases muito realistas, embora terríveis: Chris (o também magnífico Casey Affleck), que não suporta mulher e filho bebé; Izzy, desesperadamente abandonado pela mulher que ama; Kenny, que reduz o amor a sexo; e os próprios sogros, numa crise matrimonial aos 60 anos.

Michael sabe qual é o caminho certo, mas a tentação aparece na figura duma colegial que o tenta seduzir...

Nesta descrição da incapacidade de assumir responsabilidades, do medo à paternidade, da dificuldade de afirmação pessoal e dos próprios valores e princípios, finalmente há esperança. Há uma figura paterna, alguém que obriga a enfrentar a realidade, a ser fiel à verdade. O sacrifício implicado neste seguimento da verdade escancarará uma porta, a porta da esperança que só a perseverança pode abrir.

05/06/2009

O grande silêncio (Die Grosse Stille)

Philipe Gröning (2005)

Para quem chegar a tempo, no Sábado 6 de Junho pode adquiri-lo com o jornal Publico, a preço económico. Mas também se encontra nas lojas.

Trata-se dum documentário sobre a vida dos monges da Cartuxa do Mosteiro de La Grande Chartreuse, nos Alpes franceses, próximo de Grenoble. O realizador lá passou 6 meses da sua vida, filmando tudo o que conseguiu. A condição era não acrescentar luz artificial, músicas ou comentários, e assim ele fez. O resultado: 3 horas de grandes silêncios e de profundas sugestões.

Quem pensar que a vida num mosteiro de clausura é desinteressante, será surpreendido pela vida que se monstra: trabalhos agrícolas, de costura, vida comunitária, liturgia e até passeios na neve. Desde o olhar poético duma discreta perspectiva, sem grandes pretensões interpretativas.

É este o aspecto mais interessante do filme, e também o seu limite: o realizador não «impõe» uma narração temporal, uma sequência lógica, um argumento. A meditação decorre no ritmo próprio do mosteiro, e o espectador tem que deixar-se arrastar por ele: pelo canto gregoriano, pelos sons da natureza, pelas poucas palavras dos ritos mostrados ou do (fenomenal) testemunho final do frade cego. E, sobre tudo, pela imagem.

Quem achou pesada a realização de Dreyer ou de Bergman, não se vai dar bem com Gröning, mas vale a pena dar-lhe uma oportunidade.

21/05/2009

West Side Story

Bernstein/Robbins, 1961

Leonard Bernstein foi o criador da música, a partir de textos de Laurents adaptados por Sondheim, com coreografias de Jerome Robbins. A primeira versão do musical foi em Broadway, e depois foi feito um filme por Robbins e Wise estreiado em 1961, com a maravilhosa Natalie Wood e um tal Richard Beymer.

O musical está em Lisboa, no Politeama, numa adaptação de Filipe La Féria, bastante fiel ao texto original, a pesar de algumas traduções livres pouco eficazes, e muito a pesar uma cena de alcova perto do patético. Mas vale a pena passar uma tarde no teatro para o ver. Se não, vale a pena procurar a versão cinematográfica.

Principalmente, pela força da história e das personagens. Trata-se duma revisitação do clássico tema do shakesperiano Romeu e Julieta: um amor impossível entre duas pessoas de famílias e contextos inconciliáveis, presságio de tragédia. São Maria e Tony, de origens porto-riquenha e polaca, ligados a duas bandas juvenis de Nova Iorque. A acção é rápida e humana, próxima ao espectador contemporâneo.

Não é possível ficar indiferente diante das coreografias tão bem conseguidas. Por vezes, são dezenas de pessoas no palco, e nenhuma delas está fora de lugar, incomoda ou distrai. Quando o dinheiro abunda para uma produção assim, também não se podia esperar algo diferente...

03/05/2009

A lenda do santo bebedor (Die Legende von heilingen Trinker), de Joseph Roth

Lisboa: Assírio e Alvim, 1997 (1939), pp. 86, 8,00€

Lê-se numa hora esta breve história, que de lenda tem só o título. Escrita em quinze capítulos de poucas páginas, quando damos por isso, já acabámos.

Joseph Roth não deve ser confundido com Philip Roth. O nosso autor não é judeu americano, escritor de dezenas e dezenas de best-sellers. Pelo contrário, Joseph Roth é austríaco, viveu na primeira metade do século XX e foi principalmente jornalista, embora tenha escrito alguns romances.

Esta lenda, em particular, foi publicada postumamente, e narra um facto fora do comum: Andreas Kartak, um sem abrigo que dorme debaixo das pontes do Sena em Paris, recebe dinheiro de formas inusitadas, com um pedido: deverá devolver a quantia a Santa Teresinha do Menino Jesus, numa igreja da cidade.

Por uma parte, a história destaca a tentativa moral de Andreas, paradigma cristão da procura de resposta à graça, nunca realizada. Por outra parte, deixa-nos uma reflexão: será que o nosso dia-a-dia não está também cheio de «milagres»? Lá vai uma citação para pensarmos:

«Não há nada a que nos possamos habituar tão facilmente como aos milagres, quando estes acontecem duma forma sucessiva. Sim! A natureza do homem é tal, que este se chega a tornar mau, quando não lhe é concedido ininterruptamente tudo aquilo que um destino casual e temporário lhe pareceu prometer» (p 46).

29/04/2009

Um eléctrico chamado desejo e outras peças, de Tennessee Williams

Lisboa: Relógio d'Água, 2009, pp. 360, 15,00€

É difícil dizer o que têm em comum quatro peças como Um eléctrico chamado desejo, De repente no último verão, Verão e fumo e A gata em telhado de zinco quente (ver post 27/Fev/2009). Escritas e encenadas entre 1947 e 1958, todas elas foram adaptadas ao cinema na seguinte década, por realizadores como Mankiewicz, Brooks ou Kazan.

Pessoalmente, considero que o fascínio de Williams deve-se à profunda humanidade das personagens que cria, muitas delas desdobramentos da sua própria pessoa. São exaltadas, exageradas, e por vezes quase cómicas, mas levam sempre dentro um rasgo que as define, um «something that we live for», que se encontra em todo ser humano.

Williams estuda temas tão complexos como a obsessão, o assassinato, as doenças mentais, os amores impossíveis. As situações complicam-se, o drama atinge níveis altíssimos, muitas personagens são levadas ao limite do colapso. Mas há sempre uma resolução positiva, uma ou outra personagem que consegue sair triunfante no meio deste drama.

Com o risco duma redução simplista, ouso dizer que essa positividade de fundo vem sempre daquelas personagens que procuram um significado no meio das circunstâncias complexas, que comovem o leitor porque seguem intuições profundas. Corresponde-nos mais procurar além da aparência do que o cinismo de quem vê só o mundo material, ou então inventa uma realidade ilusória. Foi esta a procura de Williams a través do seu teatro.

24/04/2009

Quadros duma exposição, de Modest Mussorgsky (1874)

«A grande obra-mestre de piano Quadros duma exposição do russo Mussorgsky narra uma grandiosa parábola vital. É claro que os Quadros não são música descritiva, nem simplesmente a representação literal do compositor que visita uma exposição póstuma do amigo arquitecto e pintor Viktor Hartmann. Mas têm o valor duma profunda e original reflexão existencial, por vezes tecida de candor, por vezes duma nostalgia ardente, por vezes duma dureza que assusta.

A luz irreal das noites brancas, os bosques de bétulas, as planícies intermináveis, as cores e perfumes da estepe, o silêncio dos bosques e os lagos, a majestade dos rios, o fragor das tempestades do Mar Branco, os sons inconfundíveis dos sinos e dos cânticos da Igreja Ortodoxa, o forte sentimento da predestinação dum povo que no Cristianismo identificou a sua própria razão de ser... são todos elementos que se podem sentir claramente “representados” nos Quadros não como folclore, mas sim como símbolo privilegiado para expressar a vida com as suas harmonias e as suas contradições» (Simone G. Pedroni)

19/04/2009

Do céu caiu uma estrela (It's a wonderful life)

Frank Capra (1946)

Lembro-me de ter visto este filme em criança no Natal. É um daqueles clássicos do cinema, que mostra a positividade da vida, a importância da família e da amizade, principalmente a través do excepcional James Stewart, no papel da sua vida.

Ainda que tenha uma estética certamente antiquada, o filme não perdeu a sua força: conserva um ritmo narrativo ligeiro, jogos temporais quase mágicos e um turbilhão de situações cada vez mais complexas. George Bailey, a personagem principal, convence, entusiasma e envolve afectivamente o espectador.

E, sobre tudo, o filme tem uma mensagem muito clara: a vida duma pessoa é irrepetível e necessária. O mundo não seria o mesmo sem mim ou sem o meu leitor. Nós não costumamos dar por isso, mas os nossos actos têm consequências que nos ultrapassam por muito, e que contribuem para a felicidade de quem nos rodeia.

O filme mostra como isto acontece, na maior parte dos casos, quando fazemos o que é necessário, deixando de lado os próprios projectos. George Bailey nunca consegue realizar os seus «sonhos», mas realiza o ideal que cumpre a sua vida.

Uma mensagem e um filme, portanto, de grande actualidade.

16/04/2009

Madre Teresa: Vem, sê a minha luz (Come, be my light), de Brian Kolodiejchuck

Lisboa: Aletheia, 2008, pp. 393, 19,00€

Kolokiejchuck, de nacionalidade canadiana, nunca poderá esquecer aquela manhã em que encontrou Madre Teresa de Calcutá no pátio da Casa Mãe das Irmãs da Caridade em Roma. A irmã dele tinha recebido no dia anterior a medalha que a Madre impunha às religiosas, e ele tinha assistido à cerimónia, tendo já abandonado o seminário em que começara os estudos para se tornar sacerdote. Madre Teresa disse-lhe: «Um dia gostava de lhe impor também a Si uma medalha», e foi-se embora.

Foi o início dum novo percurso de vida para Kolokiejchuck: tornou-se sacerdote e tornou-se um dos primeiros membros masculinos da congregação fundada por Madre Teresa.

É evidente que as páginas de cartas e escritos recolhidas nesta obra, e até agora inéditas, estão cheias de imagens e de encontros entre o Autor e a sua Mestre. Cheias de ternura e comoção, descrevem a paixão incansável desta mulher que mudou a vida de todo aquele que com ela se encontrava. Não pela sua genialidade, mas pela transparência da sua mensagem e da proximidade de Deus.

Destacam a tenacidade e a fortaleza de Madre Teresa, sublinham a sua humildade, não escondem a sua falta de correcção política. Em suma, uma lição para qualquer ser humano inteligente.